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O Coletivo

26
Nov18

Banalização da tristeza

Rúben Gomes

O adjectivo que mais ouvi nos últimos dois dias foi "triste". Todas as vezes que o ouvi foi relativamente ao acordo entre a União Europeia e Theresa May para a saída do Reino Unido da comunidade. A palavra proferida em discursos empolados de políticos elitistas não me surpreendeu, contudo creio ser no mínimo inadequado que Judite de Sousa abra o noticiário qualificando a saída do Reino Unido da UE de "triste". Ou estou muito errado ou estamos perante o desrespeito à isenção e imparcialidade, que são princípios elementares que deveriam nortear o jornalismo?
Tornou-se, portanto, "politicamente correcto" ficar "triste" com a saída de um Estado-membro da UE. Sou um crítico do emprego do termo neste contexto. A minha concepção de tristeza abarca negatividades que destruam ou atravanque a vida das pessoas, tais como o aconteceu em Borba, Pedrogão Grande, as penas suspensas a senhores que tiveram contacto sexual com mulheres que disseram "não", a displicência e laxismos para com preconceitos que redundam em discriminações aviltantes de direitos e liberda
des fundamentais ou a salvação de bancos privados com o dinheiro dos contribuintes, pressionada pelo querido BCE, em detrimento da saúde, educação e segurança social da população.
Destarte, a minha tristeza cinge-se, neste momento, a quem morreu ou perdeu amigos e familiares na tragédia de Borba e aos estivadores e aos professores que clamam pelo respeito do governo português.

PS: Se a Grécia não tivesse implementado as medidas de austeridade que a União Europeia lhes pressionou a tomar e tivessem sido sido expulsos, tal como muitos sugeriram em 2015, Jean-Claude Juncker, Paulo Portas e Judite de Sousa ficariam tristes?

21
Nov18

Não há céu que chegue para as vítimas de tanta tragédia

Rúben Gomes

Na tarde do dia 5 de Março de 2001, frequentava o 3ºano de escolaridade, quando à semelhança das outras turmas a minha professora mobilizou a turma para ir ter ao pátio central da Escola dos Caliços. Chegados lá, a professora Ercília explicou-nos tratar-se de uma homenagem às vítimas de uma tragédia que tinha ocorrido na tarde do dia anterior. Fizemos um minuto de silêncio, lamentámos a ocasião que ali nos trouxe e, com a típica ingenuidade de uma criança de 8 anos, desejei que aquelas pessoas fossem para o céu.
17 anos, 8 meses e 15 dias depois, acordo, desloco-me para a sala estremunhado, ligo o computador, acesso alguns dos sites de notícias que considero fidedignos e percebo que o alarido que desatenciosamente reparei na minha televisão na noite anterior (para bem da minha sanidade física e mental adquiri um certo cepticismo e estoicismo relativamente às notícias que os canais sensacionalistas emitem como se estivessem a anunciar que a minha casa está em chamas) era realmente uma tragédia.
Após ouvir os depoimentos da generalidade dos agentes atinentes ao contexto do aluimento da estrada que faz a ligação entre os concelhos de Borba e Vila Viçosa, corroborei algumas das ideias que tenho relativamente à vivência das pessoas do interior do meu país.
Ter um traste como António Anselmo na presidência da Câmara Municipal de Borba é um azar dos Távoras. O empenho em esquivar-se das responsabilidades, endossando-as para outrem, é maior que a compaixão que devia ter para com os seus munícipes. António Anselmo cumpre o segundo mandato na autarquia de Borba, sendo que nas eleições autárquicas do ano passado o seu Movimento Unidos por Borba (movimento independente de dissidentes do PS) alcançou uma maioria absoluta – 3 em 5 vereadores – que lhe permite governar totalitária e despreocupadamente.
As suas primeiras afirmações em que confessava não esperar que tamanha tragédia fosse acontecer, pois acreditava estar tudo bem é de gravidade atroz. Para além da total displicência para com os estudos que o notificavam do risco que a infraestrutura representava, se hipoteticamente esses estudos não existissem, António Anselmo deveria sabe-lo na mesma através do diálogo com os seus munícipes que diariamente utilizavam a estrada e se queixavam da mesma amiúde. Estamos perante o protótipo do presidente de Câmara Municipal que de Segunda a Sexta-Feira passa as manhas e as tardes enfiado num gabinete e que aos Sábados e aos Domingos vai passear para Évora ou Lisboa, enviesando-o de conhecer a realidade dos seus munícipes, da qual está conspicuamente divorciado.
Borba, à semelhança da generalidade das terras do interior do país, é uma terra onde por factores de vária ordem a população está vetada ao esquecimento, confinadas ao isolamento. Os pingos de atenção que recebem é nas campanhas eleitorais onde de tempos a tempos aparecem políticos flausinos única e exclusivamente interessados em angariar votos. Ou então, quando de lá é natural algum concorrente de reality-show ou jogador de futebol. Ou, quando acontece algum fenómeno anormal, tal como esta tragédia.
As gerações mais jovens que ocupam muitas das profissões do sector terciário, vivem coagidas pelas elites locais que ou são proprietárias ou ocupam os cargos de chefia das empresas da região. Quem ousar levar a cabo alguma dissonância ao poder instituído, incorre na pena de ser afastado do seu trabalho ou ser ostracizado. A esse aspecto soma-se a falta de vontade autêntica em dinamizar as regiões, potenciando novos postos de emprego, condições de habitabilidade, incremento de serviços públicos. Ocasiona-se o êxodo rural que leva os jovens para as grandes cidades em busca de oportunidades, regressando estes aos fins-de-semana, férias ou feriados para visitar os pais, tios e avós que ficam na província.
Destarte estou redundantemente ciente que não devemos tomar a vida no eixo Parque das Nações – Cascais como a realidade de todo o país, não me integrando no grupo dos cosmopolitas que altaneira e arrogantemente acham que sabem o que é a vida na província só porque lá param 5 minutos para tomar uma bica ou abastecer o veículo no meio dos trajectos das suas escapadinhas de fim-de-semana.
Os autarcas do interior que asseveram a falta de moralidade e consciência das elites intelectuais e pequeno-burguesas de Lisboa, Porto ou Coimbra para opinarem sobre a realidade dos seus concelhos têm a razão do seu lado. Contudo, essa razão acarreta uma dupla obrigação moral de apoiar activamente as suas populações, de modo a mitigar as discrepâncias que as afastam das do litoral.
António Anselmo, Manuel Condenado – presidente da Câmara Municipal de Vila Viçosa – e Valdemar Alves – presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande – são exemplos de autarcas do interior que falharam clamorosamente no cumprimento dos seus deveres, que deveriam ser norteados pelo superior interesse dos seus munícipes. Para além da falta de humildade e de escrúpulos e cobardia, são chico-espertos que acham que ludibriam o país inteiro do mesmo modo que enganam quotidianamente as suas populações.
Desconhecendo o modo como as crianças estão a homenagear nas escolas (se estiverem) as vítimas da tragédia do aluimento da estrada de Borba, ficaria satisfeito se no futuro fosse evitável este ciclo de chorar sobre o leite derramado. Não há céu que chegue para as vítimas de tanta tragédia.

17
Nov18

Desencorajamento à docência

Rúben Gomes

 

A edição de hoje do "Expresso" vem dar conta da ausência de desejo dos jovens portugueses em seguir a carreira de professor. Essa tendência está patente nos dados da Direcção-Geral do Ensino Superior que revelam que são menos os alunos que são colocados anualmente para cursos de formação de professores. Em 2016 eram 1105 alunos, baixando para 1093 no ano seguinte até que este ano o valor desceu vertiginosamente para 769 alunos. Os números são assim não porque os alunos concorrem e não são colocados, mas porque simplesmente não têm interesse em concorrer e engajarem-se na carreira.
Esta realidade coaduna com o estudo "Global Teacher Status Index 2018" que avalia o encorajamento dos pais para os filhos seguirem a profissão e o prestígio que a mesma reúne nos 35 países da amostra. Portugal é o 13°pior país relativamente ao estatuto que a classe goza, sendo que pior só mesmo em países como o Brasil ou Israel.
Na interrogação se os alunos respeitam os professores, mais de 60% dos inquiridos ou "discorda profundamente" ou "tende a discordar".
Dizer que são apenas os alunos que não respeitam os professores é injusto. O actual governo e o Partido Socialista em geral, a considerar pela ausência de propostas no Orçamento de Estado que vão ao encontro da contagem integral do tempo de serviço dos professores, também não os respeita. Falar que a reposição do tempo não é sustentável para os cofres do Estado é uma demagogia rasca que não engana ninguém. Seria perfeitamente sustentável se à semelhança da Região Autónoma da Madeira o pagamento fosse faseado, sendo efectuado até ao ano de 2025. Para as rendas das PPP's e para salvar bancos, cujos números são estratosfericamente superiores aos valores referentes à reposição do tempo de serviço dos professores, já há dinheiro.
É de lamentar pelos jovens vocacionados para a carreira de docente que acabam por desistir ao perceber o quão desrespeitada é a profissão em Portugal. Com o sector da educação negligenciado e os resultados repercutirem na formação dos jovens portugueses não auguro um bom futuro para as gerações vindouras da sociedade portuguesa. Não se admirem se aparecer um Bolsonaro, um Trump ou uma Le Pen. O caminho está aberto a isso.

05
Nov18

(Des)convite à extrema-direita

Rúben Gomes

 

A pouco mais de seis meses das Eleições Europeias o Ifop divulgou uma sondagem sobre as mais recentes tendências de voto em França. 
A LREM, coligação entre o Republicains en Marche, de Emmanuel Macron e Modem, movimento democrático de Alain Bayrou, situa-se em meros 19%. Á sua frente já se encontra a Rassemblement Nacional (actual designação da Frente Nacional), liderada por Marine Le Pen, com 21%. Uma subida de 4% face à sondagem prévia.
Importa debruçar-nos sobre isto no dia em que começa a Web Summit, evento que desconvidou Marine Le Pen após a mossa gerada com o convite inicial. Ignorar ou hostilizar a extrema-direita não é solução, contudo há que considerá-la com mais lucidez, seriedade e prudência e menos histrionismo.
Ostracizar quem nos discorda, agindo ao arrepio do que está plasmado nas constituições dos Estados democráticos não costuma augurar os melhores desfechos. Se esta tendência não for revertida, receio chegar a Maio e dizer "se isto aconteceu não foi por falta de aviso"...

22
Out18

Afectos indesejáveis

Rúben Gomes

 

A despeito das habituais lacunas do “Prós e Contras”, a emissão da passada Segunda-Feira trouxe-nos um debate sobre um tema de absoluta pertinência para a sociedade portuguesa. Apresentaram-se argumentos válidos parte a parte, tanto pelos convidados como pelos intervenientes da plateia.
Não escondo a minha inestimável admiração pela historiadora Raquel Varela que já havia abordado a questão no programa “O Último Apaga a Luz”, onde participa semanalmente na RTP 3, e traçou uma correcta conjuntura histórica e social do tema. Desnudou alguns dos motivos pelos quais o movimento #Metoo não é levado mais a sério, entre eles o elitismo, o reaccionarismo e a disseminação de um clima de guerra dos sexos.
Adiante interveio proficuamente no debate um participante de nome Daniel Cardoso, doutorado em Ciências da Comunicação, professor na Universidade Lusófona de Lisboa e investigador de media e género, que explicou o modo como o ser humano é formatado desde tenra idade para obsequiar e obedecer quem nos é mais velho e/ou exerce uma posição hierarquicamente superior. Deu o exemplo da pressão familiar exercida sobre as crianças para que estas beijem os seus avós, mesmo contra a sua vontade. Esse acto de violência coercitiva que impõe uma intimidade física indesejável está forte e inegavelmente presente no crescimento das crianças portuguesas e estrangeiras que não recebem a melhor educação no que concerne às blandícias a familiares. Dever-lhes-ia ser ensinado que os afectos devem ser naturais, espontâneos, e acima de tudo voluntários, podendo ser manifestados por beijos na face, apertos de mão, palavras doces e outros gestos de carinho e atenção. Se uma criança abster-se de beijar os avós cingindo o seu cumprimento à verbalização de um “Olá” ou “Bom dia” provavelmente será considerada mal-educada, desagradará os pais e avós e possivelmente será castigada. Uma falta de compreensão e violência para com os sentimentos das crianças que aprendem desde logo como as pessoas que os cercam podem ser injustas.
Defendo que as relações interpessoais, familiares e sociais, carecem de séria reflexão e de um processo educativo com tónica na individualidade de cada um. Destarte desmisticar-se-ão representações sociais anacrónicas, os cidadãos serão mais empoderados, sendo mais capazes de zelar pela sua auto-determinação e dignidade.
Enquanto estivermos presos a paradigmas coercitivos fruto de sociedades patriarcais, paternalistas e retrógradas, problemas como o assédio continuarão a ocorrer com uma frequência indesejável.

17
Out18

Erradicar a pobreza

Rúben Gomes

 

A Rede Europeia Anti-Pobreza divulgou dados preocupantes relativamente à dignidade das condições de vida da população. Num país com uma população a perfazer 10 milhões de habitantes, 2 milhões são pobres, e desses, 1,1 milhões são empregados. 
É ululante que essa realidade está intimamente relacionada com o trabalho precário que marca a actualidade das relações laborais do nosso país. Falamos de pessoas de posições de vulnerabilidade, sem meios que lhes possibilitem sair dos ciclos onde estão envolvidas. Destarte, cabe ao Estado protegê-las e afiançar meios estruturais e, desse modo, mitigar estes números estatísticos que envergonham qualquer Estado democrático.
As discussões de teor económico nas quais nos envolvemos diariamente estão pejadas de dissensos, dependendo sobremaneira das ideologias políticas e percepções de vida de cada um. Contudo, convém ter presente a existência destas pessoas quando se fala em aumento do salário mínimo nacional, discrepâncias de rendimentos entre accionistas de empresas e empregados ou penalização de empresas que recorram a trabalho precário.
Políticos, fazedores de opinião pública, empresários e outros, ficam nervosinhos quando os partidos da geringonça gizam ideias e projectos que defendam os mais desfavorecidos, que coarctam o modelo neoliberal económico vigente, asseverando tratar-se de fascismo de esquerda, que os investidores se vão assustar e fugir daqui. Pois, se os ditos investimentos se se basearem no recurso a mão-de-obra de pessoas que mesmo trabalhando vivam sem dignidade, ao passo que os lucros das empresas ascendem a milhões de euros bem podem se dirigir para o aeroporto, para a estação de comboios ou para a autoestrada que aqui não são bem-vindos.
Feliz Dia Internacional da Erradicação da Pobreza!