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O Coletivo

11
Mar19

Neto de Moura somos todos nós

João Ferreira Dias

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Netos de Moura há muitos, afinal. Depois da legítima onda de contestação em relação aos acórdãos lavrados por aquele juiz, espelhando que os direitos das mulheres começam a ser objeto de maior relevância no espaço público, limitando, fortemente, o desnível da balança social a uma minoria, eis que agora, perante declarações do mesmo juiz acerca do casamento homossexual e do direito à adoção por tais casais, se levanta um bom punhado de moralistas. "Afinal até tem algum juízo", e coisas parecidas, são vociferadas em caixas de comentários, perfis, e cafés. Ora, se a essa disposição social homofóbica juntarmos as posições tomadas na sequência do chamado "caso Jamaica", temos um quadro social eminentemente conservador e preconceituoso. É o país onde se é a favor dos direitos das mulheres, mas onde se oferecem electrodomésticos pelo dia da mulher, que não suporta travestis, mas onde os homens se mascaram se mulheres, que não é racista, mas quem não está bem que vá para a sua terra, e onde ninguém tem nada contra os gays desde que eles não casem, não tenham filhos, nem andem de mão dada na rua.

06
Mar19

O Portugal que até existe

João Ferreira Dias

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Quando Joana Gorjão Henriques levantou, e muito bem, o véu do racismo em Portugal houve uma onda de reação puritana escandalizada. Uma mesma franja social alargada que mandou Mamadou Ba para a sua terra e que considera que a questão dos direitos lgbti são uma ditadura das minorias sobre uma maioria "tradicional", uma espécie de Portugal tecido na memória do Estado Novo, dos "bons costumes" e da decência. Ora, é aqui que tudo fica mais claro: a noção de sobreposição da maioria sobre a minoria, com supressão da última, é o pano de fundo do fascismo, não da Democracia. É bom que tenhamos isso presente. 

04
Fev19

Ciências Sociais, o parente pobre da ciência

João Ferreira Dias

Em jeito de defesa pelas metas não cumpridas, afirma o Sr. Ministro da Ciência que em Portugal há já pleno emprego entre os doutorados e que é tempo de contratar doutorados estrangeiros. Não duvido da razoabilidade desta última afirmação nas áreas das engenharias. O problema é que o Sr. Ministro é um político, pelo que, nessa condição, não deve veicular cosmovisões próprias dos corredores do Instituto Superior Técnico, imaginando que a ciência se esgota nas paredes daquela instituição.

         Ora, este tipo de raciocínio inscreve-se num problema maior: o da perceção da utilidade da ciência e o da inscrição desta no quadro do capitalismo de mercado. A conversão da figura do investigador-doutorado em tarefeiro industrial ou empresarial não é uma solução que mantenha a ciência vitaminada nem é sustentável a longo prazo. À ciência não cabe apenas a solução da produção farmacêutica ou da execução tecnológica. É preciso que haja espaço para que a ciência seja ciência, isto é, que exista um campo de atuação da ciência como lugar de investigação e produção de conhecimento. Se isto é válido nas ditas ciências exatas, é gritante nas ciências sociais. Que espécie de executante ou tarefeiro pode ser um cientista social?

         São evidentes os efeitos económicos e políticos do paradigma de capitalismo de mercado vigente. O crescimento do populismo e da extrema-direita são reações políticas ao contexto global. Ora, o modelo político de natureza, chamemos-lhe, extremo-capitalista, tem efeitos na ciência, com a redução desta ao cálculo do lucro. As ciências sociais são, neste quadro, as mais visadas, pela sua incapacidade de gerar lucros diretos. A verdadeira “caça às bruxas” em todo o Ocidente tem tido forte reação do meio académico, mas em Portugal mantém-se um silêncio que não é um silêncio comprometido, mas de medo, de quem receia perder as últimas migalhas que são jogadas.

         A distração do tempo que vivemos pode licitar raciocínios deste tipo: “para que servem as ciências sociais?”. Mas porque motivo essa pergunta não é feita à investigação sobre as sociedades de formigas? Porque o entendimento das formas de organização das sociedades de formigas, ou outros animais, trazem novas formas de entender a organização social como princípio natural. Correto. Exatamente com as ciências sociais permitem entender as diferentes formas pelas quais as sociedades humanas, os grupos sociais mainstream e alternativos se organizam, as suas dinâmicas, lógicas discursivas, tipologias de linguagem, códigos de interação, ritos iniciáticos, de passagem, não-ditos sociais que configuram normas de socialização. O entendimento das diferentes tipologias sociais, dos múltiplos códigos de linguagem simbólica, religiosa, etc., são fundamentais para que teorias económicas ligadas aos comportamentos dos cidadãos possuam um elevado grau de aderência à realidade, para que não aconteçam casos como o do ex-ministro Vítor Gaspar, que afirmou não esperar que diante de políticas de austeridade houvesse uma contração do consumo.

         Políticas de inserção social, de combate à exclusão, medidas económicas, compreensão das dinâmicas do mercado de trabalho e do mercado de consumo, somente são possíveis graças às investigações das ciências sociais: a sociologia, a antropologia, a psicologia social, etc. Sem a ação das ciências sociais, dotadas de aparelho teórico produzido e depurado durante décadas, não é possível compreender e traduzir outras culturas, mudanças sociais em curso nas nossas próprias sociedades, entender os fenómenos sociais mais diversos. Sem a tradução das ciências sociais só sobram os discursos do racismo, da xenofobia, da homofobia, dos preconceitos vários. 

         Tudo isto para voltar ao princípio: é falsa a afirmação do Sr. Ministro. No que diz respeito ao emprego científico, quer na figura do investigador-doutorado quer do docente contratado, está tudo por fazer nas ciências sociais.

05
Nov18

Salários no Feminino

João Ferreira Dias

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Todos nós, pelo menos os que não possuem a deficiência de caráter de se rever no novo presidente brasileiro, legitimamente ficámos incomodados com os seus comentários racistas, homofóbicos e misóginos, dando-nos por satisfeitos por Portugal ser uma sociedade diferente. Ora, sucede que não o é. Sabemos que, afinal, temos uma sociedade profundamente racista, mas cujos contornos não se manifestam ao nível dos comportamentos diretos de larga escala. Quer isto dizer que os brandos costumes portugueses permanecem, com um racismo marinado, suave, mas que está lá. Isto para dizer que a misoginia da sociedade brasileira, de larga escala, como o racismo e a homofobia, não lhe são , e que deste lado do Atlântico se reproduzem. Jair Bolsonaro sempre defendeu que, por princípio, as mulheres devem receber salários inferiores aos homens. Revoltante? Sim, mas não diferente daquilo que é praticado em Portugal. A disparidade salarial entre homens e mulheres, para as mesmas funções, é de tal ordem, que, feitas as contas, as mulheres trabalham dois meses de graça. Em pleno séc. XXI, num tempo em que se pressupõe a existência de sociedades equilibradas, onde o género, a etnia, a religião, não distingam as pessoas, a verdade é que continuamos com problemas estruturais por resolver. Séculos de estratificação social, de disparidade nos direitos entre homens e mulheres, deixaram marcas profundas no Ocidente. A pretensa inferioridade da mulher, herdada de um pensamento judaico-cristão ligado aos tabus do sangue e de linhagem, continua a produzir os seus efeitos. Se queremos viver em sociedades mais justas precisamos resolver isto de uma vez por todas. 

31
Out18

Luso-bolsonaristas, ei-los que surgem!

Flávio Gonçalves

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Fico um pouco apreensivo com este ambiente que a febre bolsonarista me fez detectar em Portugal, mas aparentemente os meus camaradas de partido e companheiros de viagem ideológica estão cegos para o que está mesmo à sua frente...

E não creio que se possam culpar as redes sociais, é mesmo a cegueira dos nossos políticos e um foco constante, negativo e desproporcional na imprensa, que ao longo da última década passou de redacções repletas de jornalistas de esquerda a redacções propriedade de capitalistas ligados aos partidos de direita que despediram os jornalistas (não só os de esquerda) e as encheram com criadores de conteúdos e estagiários curriculares.

E se a esquerda lusa se mantém cega para o que está mesmo à sua frente (aparentemente não saem da sua bolha algorítmica nas redes sociais nem leem os comentários dos leitores nas páginas dos vários jornais) já a direita aparenta estar atenta, depois de André Ventura já Santana LopesPaulo Portas vieram em socorro da respeitabilidade de Bolsonaro. São tempos perigosos estes, embora se tornem cada vez mais interessantes.

Sim, tem-nos safado o clubismo político que mantém o eleitor fidelizado aos PS e PSD, mas tal como o BE e o PAN surgiram e subiram, um dia destes surge-nos um populista aglutinador ou, suspeito, uma das personagens que já conhecemos, qual Bolsonaro que já anda na política brasileira há décadas, reinventa-se como anti-sistema e capta todo esse descontentamento e desconfiança! Duvido, mas já não o nego.

29
Out18

Está Portugal imune a um Bolsonaro?

João Ferreira Dias

As eleições brasileiras têm de soar o alarme de forma estridente. Não apenas pela virada ideológica que representam, mas pela forma como foi possível eleger um candidato de extrema-direita graças a uma task force entre os meios de comunicação social conservadores, as igrejas evangélicas e uma fortíssima manipulação do eleitorado pelas redes sociais, através de uma fabricação e difusão brutal de fake news, um grave crime eleitorado extremamente difícil de mapear e controlar. Tudo junto, foi capaz de gerar um clima de histeria que produziu uma onda irracional junto de um eleitorado escolarizado e informado, mas que não é imune a uma manipulação mediática bem articulada. Este fenómeno será capaz de incentivar os movimentos de extrema-direita, em emergência por todo o mundo, a realizarem aguerridas campanhas de manipulação do eleitorado conservador e permeável. E se acharmos que no sossego dos nossos lares europeus estamos imunes à vitória de um candidato homofóbico, racista, misógino e pró-ditadura, então andamos a descansar na almofada em demasia, desvalorizando o poder da manipulação. Se nos dermos ao trabalhos de ler as caixas de comentários dos jornais, em particular nas suas páginas oficiais no Facebook, teremos de lidar com o horror de ver o número elevado de portugueses favoráveis ao discurso de Bolsonaro, numa onda anti-vermelho, como se o perigo comunista pairasse no ar. Portanto, Portugal não é um paraíso democrático anti-fascista, é um país onde o fascismo está no armário, como estava no Brasil. O que falta é uma figura carismática e um grupo de interesses na sua eleição. Até lá estamos descansados, mas não podemos dormir, porque a democracia é frágil e precisa ser defendida a cada instante.