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O Coletivo

22
Jan19

Racismo ou Luta de Classes?

Flávio Gonçalves

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Os eventos que testemunhamos esta semana irão certamente fazer correr muita tinta imprensa e blogosfera fora, contudo, como já alertei também aquando da acusação semelhante formulada contra uma esquadra da PSP na Amadora, é de lamentar que um pouco por todo o lado tentem explicar recorrendo ao racismo problemas de fundo que são uma questão de classe, não se trata da cor da pele, trata-se do facto de serem pobres e economicamente desprotegidos!

 

Ou seja, fosse um bairro degradado no norte do país, na Madeira ou nos Açores, ou até na capital se forem membros de uma qualquer tribo urbana, o tratamento policial teria sido exactamente o mesmo embora as vítimas fossem brancas. Eu sei que este tipo de discurso (vulgo a minha "crença ideológica num outro modelo de sociedade, muitas vezes assente no privilégio doutrinário"), como recordou Mamadou Ba, "não salva quem todos os dias é violentado com o racismo", mas comportamentos como o de ontem e uma generalização quanto ao comportamento das forças policiais são erros que em França, Itália e Estados Unidos catapultaram as forças populistas de extrema-direita.

 

Este tipo de agitação social se tivesse ocorrido em vésperas das eleições, fossem elas Europeias ou Legislativas, certamente que teriam tido grande proveito eleitoral por parte de arrivistas do populismo como André Ventura, pois os extremos políticos tanto à esquerda como à direita precisam do racismo como de pão para a boca, ou já ninguém recorda o caso do Arrastão?

26
Nov18

Banalização da tristeza

Rúben Gomes

O adjectivo que mais ouvi nos últimos dois dias foi "triste". Todas as vezes que o ouvi foi relativamente ao acordo entre a União Europeia e Theresa May para a saída do Reino Unido da comunidade. A palavra proferida em discursos empolados de políticos elitistas não me surpreendeu, contudo creio ser no mínimo inadequado que Judite de Sousa abra o noticiário qualificando a saída do Reino Unido da UE de "triste". Ou estou muito errado ou estamos perante o desrespeito à isenção e imparcialidade, que são princípios elementares que deveriam nortear o jornalismo?
Tornou-se, portanto, "politicamente correcto" ficar "triste" com a saída de um Estado-membro da UE. Sou um crítico do emprego do termo neste contexto. A minha concepção de tristeza abarca negatividades que destruam ou atravanque a vida das pessoas, tais como o aconteceu em Borba, Pedrogão Grande, as penas suspensas a senhores que tiveram contacto sexual com mulheres que disseram "não", a displicência e laxismos para com preconceitos que redundam em discriminações aviltantes de direitos e liberda
des fundamentais ou a salvação de bancos privados com o dinheiro dos contribuintes, pressionada pelo querido BCE, em detrimento da saúde, educação e segurança social da população.
Destarte, a minha tristeza cinge-se, neste momento, a quem morreu ou perdeu amigos e familiares na tragédia de Borba e aos estivadores e aos professores que clamam pelo respeito do governo português.

PS: Se a Grécia não tivesse implementado as medidas de austeridade que a União Europeia lhes pressionou a tomar e tivessem sido sido expulsos, tal como muitos sugeriram em 2015, Jean-Claude Juncker, Paulo Portas e Judite de Sousa ficariam tristes?

14
Nov18

Revista académica para ideias polémicas?

Flávio Gonçalves

 

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Noticiou-se há dias que vários académicos de todo o mundo se preparam para lançar uma nova revista que tem a peculiaridade de permitir que os ensaios publicados sejam anónimos. A dar a cara por este novo projecto está Jeff McMahan, professor de Filosofia Moral na Universidade de Oxford. Diz ele que o clima hoje em dia, tanto dentro como fora das universidades, impõe demasiada auto-censura e assim os ilustres e desconhecidos estudiosos poderão publicar os seus ensaios e estudos sem receio de perseguição.

 

Nesrine Malik já reagiu negativamente nas páginas do Guardian, pela minha parte estou extremamente curioso, afinal que raios irão publicar ali de tão polémico que já não tenhamos visto no Canal História ou em revistas académicas como as Mankind Quarterly, Journal of Social, Political, and Economic Studies e Journal of Indo-European Studies, todas pagas pelo famoso Pioneer Fund (resquício da World Anti-Communist League) e todas ainda em publicação.

 

Por exemplo, num dos exemplares do Journal of Social, Political, and Economic Studies que tive a oportunidade de consultar recordo carinhosamente um ensaio onde se dedicavam a explicar a crise económica em Itália, Grécia e Portugal com base em estudos de Quoficiente de Inteligência e factores genéticos dos cidadãos da Europa do Sul quando comparados com os da Europa do Norte... (não sei se os neo-nazis portugueses leem estas revistas genuinamente neo-nazis, mas talvez devessem).

 

É mais provável que estes académicos anónimos queiram publicar os seus estudos e ensaios polémicos em revistas que não tenham laços já conhecidos a estudos craniais e eugénicos ou a maluquinhos dos OVNIs. Aparentemente vão publicar ensaios que irão irritar tanto à esquerda como à direita, pela minha parte tenho curiosidade, é quase certo que pelo menos o primeiro número devo comprar. Se souber como, afinal, a coisa é tão anónima que nem o título da revista divulgaram...

03
Nov18

Sólo fértil para a direita radical

Flávio Gonçalves

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Como realcei anteriormente, as eleições no Brasil fizeram com que me apercebesse de uma realidade portuguesa que estava mesmo aqui à tona (nas redes sociais e caixas de comentários dos jornais), mas que ignorava e que, aparentemente, a esquerda portuguesa também parece ignorar - embora seja tão analítica no caso brasileiro.

 

Houve algum destaque para os comentários de Manuel Alegre, em cuja campanha presidencial colaborei, quanto à tauromaquia, mas os críticos aparentam não compreender que Alegre não se referia meramente às touradas, a sua afirmação sobre "este tipo de intolerância" criar Bolsonaros dirigia-se a uma esquerda surda e histérica, moralista das causinhas minoritárias que só interessam a 0,1% da população, que teima em persistir no seu erro.

 

Alegre, como Costa, Corbyn, Zizek e outros - menos do que seria de esperar - sentem sobre si a responsabilidade política e a memória histórica da esquerda não-histérica, e esta responsabilidade passa por ter o sangue frio necessário para compreender porque é que o centro-esquerda está a perder votos para a extrema-direita em todo o mundo. Ou terei sido o único a comparar os resultados eleitorais de ano para ano e a notar no padrão de que onde os partidos socialistas perderam votos, estes migraram para os populistas?

 

Os Bolsonaros não surgem de um momento para o outro sem um solo fértil, e quando lemos disparates como os de Rui Pena Pires, alertando que "Portugal precisa desesperadamente de imigrantes para combater falta de mão-de-obra", não precisamos de ser licenciados em Sociologia para compreender que com uma taxa de desemprego nos 7%, este tipo de afirmação é mais um alarmismo a favor do solo fértil para cá surgir um Bolsonaro ou uma Le Pen. As vagas que estão por preencher precisam é de ORDENADOS DIGNOS, não precisam de escravizar imigrantes!

 

A esquerda histérica bem pode preocupar-se com as causas de 0,1% da população, mas a esquerda séria, estatal, democrática, plural e trabalhista tem que se preocupar muito mais com os 90% da população cuja principal preocupação é chegar ao fim do mês com dinheiro para comer, pagar as contas e o empréstimo. Ou como digo sempre, leiam menos Soros e mais Zizek! Menos teoria e mais realismo prático e pragmático!

31
Out18

Luso-bolsonaristas, ei-los que surgem!

Flávio Gonçalves

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Fico um pouco apreensivo com este ambiente que a febre bolsonarista me fez detectar em Portugal, mas aparentemente os meus camaradas de partido e companheiros de viagem ideológica estão cegos para o que está mesmo à sua frente...

E não creio que se possam culpar as redes sociais, é mesmo a cegueira dos nossos políticos e um foco constante, negativo e desproporcional na imprensa, que ao longo da última década passou de redacções repletas de jornalistas de esquerda a redacções propriedade de capitalistas ligados aos partidos de direita que despediram os jornalistas (não só os de esquerda) e as encheram com criadores de conteúdos e estagiários curriculares.

E se a esquerda lusa se mantém cega para o que está mesmo à sua frente (aparentemente não saem da sua bolha algorítmica nas redes sociais nem leem os comentários dos leitores nas páginas dos vários jornais) já a direita aparenta estar atenta, depois de André Ventura já Santana LopesPaulo Portas vieram em socorro da respeitabilidade de Bolsonaro. São tempos perigosos estes, embora se tornem cada vez mais interessantes.

Sim, tem-nos safado o clubismo político que mantém o eleitor fidelizado aos PS e PSD, mas tal como o BE e o PAN surgiram e subiram, um dia destes surge-nos um populista aglutinador ou, suspeito, uma das personagens que já conhecemos, qual Bolsonaro que já anda na política brasileira há décadas, reinventa-se como anti-sistema e capta todo esse descontentamento e desconfiança! Duvido, mas já não o nego.

28
Out18

Na véspera do Apocalipse brasileiro

Flávio Gonçalves

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Admito ter sido dos menos alarmados com a ascensão de Jair Bolsonaro nas eleições brasileiras, pessoalmente sempre julguei que na segunda volta estariamos agora a decidir entre Ciro Gomes (a opção que ideologicamente mais me agrada) e Fernando Haddad. Mesmo após a derrota de Ciro, não me incomodou sobremaneira as notícias sobre Bolsonaro, já trabalhei em jornais e estou familiarizado com os exageros do clic bait.

Alarmei-me tardiamente, só quando este apareceu num discurso aos seus apoiantes a ameaçar a futura oposição de esquerda "com a prisão ou o exílio" é que assumiu ao que vem, falou da esquerda de modo geral, não falou dos marginais ou dos "corruptos" petralhas, e o seu eleitorado nem assim vacilou, tanto é que já me mentalizei que muito provavelmente será ele o próximo presidente do Brasil.

A meu ver existem vários factores a colaborar para o desaparecimento do centro-esquerda a nível mundial, mas no caso do Brasil há um desfasamento assustador entre a intelectualidade de esquerda e os anseios dos brasileiros comuns, cansados de crime, fome e insegurança, os meus camaradas no lado oposto do Atlântico não compreenderam que quanto mais sairam à rua, quanto mais protestaram histericamente, mais Bolsonaro subiu nas intenções de voto? 

Estando numa árvore provavelmente não conseguiam vislumbrar a floresta, deste lado também Jorge Almeida Fernandes deu pelo grave erro táctico. Só nos resta aguardar e pensar no combate daqui a quatro anos, isto se houver eleições daqui a quatro anos... seja qual for o resultado, será mais por desmérito da esquerda do que por mérito do bolsonarismo!