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O Coletivo

20
Jan19

O genro de Jerónimo

João Ferreira Dias

O povo costuma dizer que quem anda a chuva molha-se, e se é verdade que um político não é responsável pelos atos de familiares, não é menos verdade que um contrato entre a câmara de Loures, de gestão comunista, e o genro do líder do PCP é motivo quanto-baste para torcer o nariz. O PCP reage voltando a foice à TVI, uma atitude descabida e apressada que não abona em favor do partido, particularmente quando é tão ávido de casos jornalísticos que evidenciem os males do capitalismo e dos demais partidos. No mundo da política tudo se move por esferas de interesses e há sempre uma mão amiga aqui e acolá. É o que Brasil se chama de fator "QI", isto é, "quem indica". 

Ora, isto lembra-nos que partidos hipermoralistas ficam à mercê dos acontecimentos, incapazes de contornar factos e pior, incapazes de fazer mea culpa ou ver mal em causa própria. Nada disto é simpático para o PCP e permite-nos teorizar que entre um comunista e um capitalista a diferença é a oportunidade. 

18
Dez18

A greve dos enfermeiros e os sindicatos

João Ferreira Dias

As greves constituem-se mecanismos legais (agora, e por agora) de garante da luta sindical por melhores condições laborais por parte de vários setores profissionais. É uma ferramenta político-social de largo impacto no quotidiano, em particular quando a greve advém de setores que interferem, diretamente, no fluxo diário da sociedade, como é o caso dos transportes públicos. A sua eficácia depende, precisamente, do poder de desestabilizar a ordem social. 

Ora, o problema das greves, ou melhor, dos sindicatos, é a forma como estes estão permeáveis à influência partidária. Nesse capítulo, o PCP é o partido cuja força eleitoral depende, sobremaneira, dos movimentos sindicais. Não é por acaso que a estrutura destes é controlada por militantes comunistas, os quais estabelecem um rácio de não-militantes que podem ocupar cargos diretivos dos sindicatos. Não sendo uma desonestidade, por razões históricas ligadas à emergência do PCP, a verdade é que se trata de um controlo sobre os sindicatos que lhes retira mobilidade ideológica. É por isso que as greves ocorrem em momentos estratégicos para a vida eleitoral, porque são o garante da existência sociológica do PCP, razão pela qual a aliança Sindicatos-PCP é tão forte e determinante na vida comum. 

A presente greve dos enfermeiros contém os mesmos contornos, tratando-se da primeira greve e primeiro movimento sindical umbiligado à direita, concretamente ao PSD. Ora, só esse facto diz muito do contexto desta greve, numa altura em que a maioria das reivindicações dos enfermeiros portugueses (que, reconheça-se, têm condições laborais muito precárias quando comparados com outros países europeus; todavia, o mesmo acontece com outras profissões) foram já suprimidas. Nesse sentido, encontramos um processo de aproveitamento estratégico e eleitoral do PSD, que ao estar em risco de desagregação encontra nos processos de sobrevivência do PCP uma possibilidade de galvanização de uma franja profissional e eleitoral.  A situação particular dos enfermeiros e a névoa dúbia que comporta é reforçada pelo financiamento. Pela primeira vez, uma greve é financiada em sistema de crowdfunding, tornando-se um processo anónimo que permite camuflar interesses políticos subjacentes. O cenário, portanto, não é transparente nem simpático. No meio da legitima luta seria ideal despartidarizar os sindicatos. Digo eu.