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O Coletivo

23
Abr19

EnaMorações brasileiras

João Ferreira Dias

O ministro da Justiça do Brasil, Sérgio Moro, de passagem por Portugal, declara que “Jair Bolsonaro é um sólido democrata. A democracia não está em risco no Brasil”. Não surpreende a declaração do ministro Sérgio Moro, ainda que as posições políticas de Bolsonaro contradigam as suas afirmações. A paixão que o atual presidente do Brasil nutre pela ditadura militar, o ódio racial e a homofobia que o habitam não conjugam com a Democracia. O que seria questionável é a razão pela qual Moro, um juiz que disse que jamais entraria na vida política, aceitou ser ministro neste governo, abdicando de princípios de clareza jurídica. Mas até isso tem a sua fundamentação: Sérgio Moro será candidato à presidência.

10
Abr19

Habemus um novo partido político

A woman in politics

Foi hoje avançado pela imprensa e já confirmado por André Ventura (nas suas redes sociais) a aceitação por parte do Tribunal Constitucional do novo partido político "Chega". Passam, assim, a existir 24 partidos políticos legalizados em Portugal.

 

No entanto, ainda não se sabe se o Partido Chega irá concorrer às eleições Europeias, porque quase, de forma simultânea, o Tribunal Constitucional rejeitara a coligação “Europa Chega”, que juntava o movimento Chega (que ainda não era partido), o Partido Popular Monárquico e o Partido Cidadania e Democracia Cristã. O Partido Chega podia concorrer (após a aceitação sair em DR), mas como o prazo para a entrega da lista de candidatos às Europeias termina na próxima semana, seria uma corrida em contra-relógio.

 

Tic tac...

 

05
Abr19

Revisionismo à Brasileira

João Ferreira Dias

Depois de quase duas décadas de governos do PT e um período de governação resultante de um golpe, com Michel Temer, o governo de Jair Bolsonaro anunciou-se como aquele que acabaria com os tempos da ideologia. Como seria de esperar de quem faz este tipo de discurso, o mandato começou com uma enxurrada de programas ultra-ideológicos, desde o escola sem partido, ao alinhamento ultraliberal com programas de privatização, à captura de terras indígenas, sem esquecer o combate à diversidade sexual e de género. O quadro não ficaria completo sem um programa de revisionismo histórico, com a associação entre nazismo e socialismo, e agora com a maquilhagem da ditadura militar, suprimindo-se a ocorrência de um golpe militar e a entrada num período de ditadura. Esta limpeza da histórica constará dos livros didáticos distribuídos pelas crianças e jovens e será parte da campanha de formatação levada a cabo pelo Ministério da Educação (MEC)

12
Mar19

A semana que decide o Brexit

A woman in politics

A data oficial do Brexit é a 29 de março e o que acontecerá até lá será puro entretenimento para os amantes de política (à falta de melhor descrição).

Esta semana, mais concretamente, será pródiga em acontecimentos. Vejamos.

Hoje foi votado o novo acordo de Theresa May, e caso fosse aprovado, a saída do Reino Unido da UE dar-se-ia dentro do previsto. Contudo, já sabemos que o acordo foi votado e foi rejeitado, e passamos então à fase de votação relativa a uma saída sem acordo.

Essa votação ocorrerá amanhã (13 de março) e caso seja aprovada os britânicos sairão de facto a 29 de março (embora sem acordo), e navegarão por águas mais turvas do que se previa.

Por outro lado, se for rejeitada passamos à fase de votação, que ocorrerá a 14 de março, para adiamento do Brexit. Novamente, se a votação for rejeitada há uma saída a 29 de março (sem acordo), e se for aprovada o Brexit será adiado...

Para quando e com que propósito é o que falta saber. Mas nem os britânicos sabem...

 

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11
Mar19

Neto de Moura somos todos nós

João Ferreira Dias

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Netos de Moura há muitos, afinal. Depois da legítima onda de contestação em relação aos acórdãos lavrados por aquele juiz, espelhando que os direitos das mulheres começam a ser objeto de maior relevância no espaço público, limitando, fortemente, o desnível da balança social a uma minoria, eis que agora, perante declarações do mesmo juiz acerca do casamento homossexual e do direito à adoção por tais casais, se levanta um bom punhado de moralistas. "Afinal até tem algum juízo", e coisas parecidas, são vociferadas em caixas de comentários, perfis, e cafés. Ora, se a essa disposição social homofóbica juntarmos as posições tomadas na sequência do chamado "caso Jamaica", temos um quadro social eminentemente conservador e preconceituoso. É o país onde se é a favor dos direitos das mulheres, mas onde se oferecem electrodomésticos pelo dia da mulher, que não suporta travestis, mas onde os homens se mascaram se mulheres, que não é racista, mas quem não está bem que vá para a sua terra, e onde ninguém tem nada contra os gays desde que eles não casem, não tenham filhos, nem andem de mão dada na rua.

06
Mar19

O Portugal que até existe

João Ferreira Dias

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Quando Joana Gorjão Henriques levantou, e muito bem, o véu do racismo em Portugal houve uma onda de reação puritana escandalizada. Uma mesma franja social alargada que mandou Mamadou Ba para a sua terra e que considera que a questão dos direitos lgbti são uma ditadura das minorias sobre uma maioria "tradicional", uma espécie de Portugal tecido na memória do Estado Novo, dos "bons costumes" e da decência. Ora, é aqui que tudo fica mais claro: a noção de sobreposição da maioria sobre a minoria, com supressão da última, é o pano de fundo do fascismo, não da Democracia. É bom que tenhamos isso presente. 

01
Mar19

Carnaval, what else?

A woman in politics

Vem aí o fim de semana de Carnaval e vamos lá estereotipar um pouco.

 

Há 3 tipos clássicos de pessoas no Carnaval. 1) As que vão de férias para o estrangeiro e partilham 1001 fotos para assegurar que toda a gente sabe (e continuam a postar mesmo quando chegam de férias não vá alguém não ter visto). 2) As que passam um ano inteiro a pensar no que vão vestir nesta data, mas mesmo assim é inevitável, os homens acabam quase sempre por vestir-se de mulheres (a quem possa interessar a moda este ano parece que são os macacões vermelhos e máscara da La Casa de Papel). 3) As que aproveitam para usufruir da arte de nada fazer (verdadeiros especialistas em “couch potato”).

 

Bem meus caros... Gostaria de informar que o meu Carnaval é muitíssimo interessante... Mas, não. Faço mesmo parte do terceiro grupo.

 

Se fazem parte da minha tribo, e gostam minimamente de política, recomendo-vos o filme Vice de Adam McKay, com Christian Bale, Steve Carell, Amy Adams e Sam Rockwell nos principais papéis.

 

O filme retrata a história de Dick Cheney, vice-presidente de Geoge W. Bush, e para resumir, o tipo é um mafioso, e Christian Bale um monstro da representação. Eis o trailer:

 

 

28
Fev19

A mensagem e o mensageiro

João Ferreira Dias

Um dos problemas da homofobia é que esvazia tudo à sua volta, produzindo teorias conspiratórias corporativistas e impossibilitando a reflexão dos conteúdos e contextos sociais adjacentes. Ora, é exatamente isso que veio a acontecer com a presença de Jean Wyllys em Portugal. O ex-deputado, exilado na Alemanha depois das ameaças por parte dos apoiantes de Bolsonaro, chegou a Portugal sob intenso destaque mediático, tendo-se tornado, rapidamente, alvo de inúmeras críticas, expondo a dimensão da homofobia e do conservadorismo puritano da sociedade portuguesa e da grande maioria dos imigrantes brasileiros em Portugal, devidamente formatados na esteira das igrejas evangélicas. Em resultado dessa propensão homofóbica da sociedade portuguesa, a mensagem de Jean Wyllys foi secundarizada e desacreditada, confundindo-se o mensageiro com a mensagem. Retirando a agenda LGBTI do ex-deputado, o testemunho direto de Wyllys é determinante, numa altura em que o fascismo ressignificado toma conta do cenário político brasileiro, extremando a sociedade a níveis mais profundos do que no período da ditadura militar.