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O Coletivo

23
Nov18

As Universidades e os Radicais de Esquerda

João Ferreira Dias

"As universidades estão cheias de radicais de esquerda", assim se faz o teaser de uma longa entrevista a Jordan B. Peterson, catedrático e guru do YouTube, concedida ao Jornal "Público". É verdade que mundo de hoje está cheio de gurus, uma reconfiguração da clássica figura messiânica. Tratam-se de pessoas que são capazes de preencher o desejo de liderança e do conforto de ser seguidor que muitas religiões ajudaram a construir. A ascensão destes gurus, numa era em que as pessoas têm maior informação e escolaridade, é sintomático de vivermos em sociedades líquidas, em que o fluxo de imagens e informação é de tal ordem que não é possível filtrar convenientemente. Onde o excesso de informação equivale à ausência da mesma. Ao mesmo tempo, a rutura com formas clássicas de religião vem, igualmente, fazendo emergir este modelo de gurus não-religiosos, que suprimem a catequese, ensinando como pensar e sentir. 

À parte disso, duas notas importantes. Um: não se faz jornalismo pegando numa frase não desenvolvida e usando-a como título. Tal comportamento, de enorme falta de zelo e deontologia profissional, revela uma tentativa de condicionamento do leitor. Dois: pegando, a título de exemplo, na Antropologia, sabemos que enquanto a disciplina foi teórica e metodologicamente elaborada a partir de padrões culturais eurocêntricos, i.e., enquanto foi elaborada pela escola anglo-saxónica conservadora, a única coisa que foi capaz de produzir foi o racismo biológico, a leitura enviesada das culturas não-ocidentais, e uma conceção evolucionista das mesmas. As ciências sociais, precisam, portanto, de uma postura de Esquerda, de uma capacidade de romper com paradigmas, com molduras teóricas, com modelos metodológicos, e reinventar-se, dando passos em direção às linguagens culturais locais, de modo a que cada vez mais seja possível evitar perdas de tradução. 

16
Nov18

a Arte da desverdade

joão figueiredo

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Conforme André Gide ironizou nos seus Prétextes (1903), é de bom tom a cada trinta anos recuperar o argumento filosófico que Ephraim Lessing formulou no século XVIII sobre a estátua de ‘Laocoonte e os seus filhos’, quer seja para o reafirmar – com mais ou menos plágio –, quer contrariar. A verdade é que G. E. Lessing (1729-1781) não tem tido um grande culto entre nós, sendo preciso recorrer ao mercado editorial brasileiro para podermos ter acesso, em português, a uma tradução do seu Laocoonte, ou Sobre As Fronteiras Da Pintura E Da Poesia (1766) – sendo as edições brasileiras relativamente recentes (1998, 2011).

 

É uma pena ser difícil aceder a esta obra. Não só porque assim fica facilitada a tarefa dos seus adeptos menos escrupulosos, como pelo facto de, pelo menos de acordo com Jacques Rancière, em Laocoonte, ou Sobre As Fronteiras Da Pintura E Da Poesia haver sido “demonstrada, de uma vez por todas” a “autonomia da arte das palavras, da arte das formas visíveis e de todas as outras artes” (o destino das imagens, p. 57).

 

Resumindo de forma brutal um raciocínio complexo, podemos dizer que Lessing demonstra neste ensaio que a descrição que Virgílio fez do sofrimento de Laocoonte na Eneida não obedeceu aos mesmos parâmetros que se colocaram perante o escultor grego da peça ‘Laocoonte e os seus filhos’, redescoberta em Roma em 1506 e hoje exposta no Vaticano. Segundo Lessing, esta divergência de critérios advém da autonomia das artes, e não de uma hipotética decadência civilizacional de Roma face à Grécia Antiga, o que explica porque o épico latino nos narra sem qualquer pejo os urros de dores que Laocoonte bradou aos céus enquanto era trucidado por duas serpentes marinhas, ao passo que o mármore da estátua helénica testemunha um corpo tenso, mas de rosto sereno.

 

A escultura, ou qualquer outro meio artístico perene e visualmente explícito, não pode imortalizar um momento de dor extrema, sob pena de desumanizar as vítimas e seus carrascos, impossibilitando qualquer empatia e compaixão por ambos – explica-nos Lessing. O mesmo não se passa no domínio da poesia, prosa ou mesmo do teatro, porque a natureza efémera das representações físicas ou mentais orquestradas por estas artes evita a fixação ou cristalização grotesca e nauseante da dor dos outros.

 

Os jornalistas do Correio da Manhã são, entre nós, aqueles que mais uso fazem das ilações que podem ser retiradas desta teoria, desumanizando num ritmo fabril. Contudo, um sindicato da PSP também explorou as potencialidades do método. Quem em pleno século XVIII adivinharia que os insights da crítica da Arte um dia se aplicariam tão bem à esfera da política e negócios… Contudo, não é para comentar estes abusos, agora em contraciclo mediático, que mobilizo o argumento de Laocoonte

 

Quero recuperar Lessing para defender, ao longo dos próximos posts, que as fake news são uma forma de Arte, com autonomia em relação às restantes, e uma genealogia que as aproxima mais dos jogos de computador (video games) e das palavras cruzadas dos jornais, do que da prosa jornalística ou reportagem fotográfica. Assim, espero mostrar que muita da atual perplexidade em relação a este fenómeno advém da sua má classificação (sempre como notícia, como texto ou como imagem), podendo ser evitada se percebermos quais os limites internos e as regras de funcionamento próprias desta forma de expressão artística. A análise do fenómeno das fake news deve ser conduzida pela especulação estética, não epistemológica.

06
Nov18

Chegou o "Polígrafo"

Flávio Gonçalves

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Ainda há dias desabafava no Twitter que hoje em dia a imprensa já nem cumpre com os cinco preceitos base do jornalismo de qualidade: Quem? O quê? Quando? Onde? Porquê? Preocupa-me a frequência cada vez maior de notícias alarmistas e de teor duvidoso na comunicação social portuguesa, e não me refiro apenas à dezena ou mais de portais de notícias falsas para os quais o Diário de Notícias já nos alertou, refiro-me mesmo àquelas que saem na imprensa dita "de referência". Pois bem, acabou de chegar ao mercado um novo jornal digital, o Polígrafo, que se assume como "o primeiro jornal português de fact-checking". Estou extremamente curioso, pela amostra que já li promete ser algo promissor e inovador ao efectuar uma tarefa que antes era obrigatória em todas as redacções, a de confirmar os factos por trás das notícias!

 

É que pessoalmente irritam-me "notícias" como a das diferenças de ordenado entre géneros em Portugal, só para mero exemplo de tema que até já foi abordado aqui neste blogue numa perspectiva correcta - caso se prove ser factual a dita notícia. É que caso julgue não ser necessário um jornal que publique factos, permita-me pedir que recorde o que afirmei no primeiro parágrafo: Quem? O quê? Quando? Onde? Porquê? O dito estudo divulgado na imprensa não menciona nem áreas geográficas nem as ditas carreiras onde ocorre a dita diferença de ordenados. São as mulheres e os homens da limpeza? São os bancários e as bancárias? Os professores e as professoras? Caixas de supermercado? Vigilantes? São os profissionais liberais (que na verdade nem deviam entrar nestas contas)? Quem? Onde?

 

Estes estudos atirados assim para o ar sem dados concretos com os quais as pessoas se identifiquem no mundo real, acumulados levam ao descrédito da imprensa e depois, PUM, olha um Bolsonaro eleito por milagre, mêdeus, como é que isto aconteceu? Portanto, o Polígrafo promete vir a dar que falar e espero vê-lo continuar a escrutinar muitas das "notícias" e afirmações erróneas que pululam um pouco por todo o lado na imprensa portuguesa, como constatamos logo numa primeira visita.