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O Coletivo

04
Fev19

Ciências Sociais, o parente pobre da ciência

João Ferreira Dias

Em jeito de defesa pelas metas não cumpridas, afirma o Sr. Ministro da Ciência que em Portugal há já pleno emprego entre os doutorados e que é tempo de contratar doutorados estrangeiros. Não duvido da razoabilidade desta última afirmação nas áreas das engenharias. O problema é que o Sr. Ministro é um político, pelo que, nessa condição, não deve veicular cosmovisões próprias dos corredores do Instituto Superior Técnico, imaginando que a ciência se esgota nas paredes daquela instituição.

         Ora, este tipo de raciocínio inscreve-se num problema maior: o da perceção da utilidade da ciência e o da inscrição desta no quadro do capitalismo de mercado. A conversão da figura do investigador-doutorado em tarefeiro industrial ou empresarial não é uma solução que mantenha a ciência vitaminada nem é sustentável a longo prazo. À ciência não cabe apenas a solução da produção farmacêutica ou da execução tecnológica. É preciso que haja espaço para que a ciência seja ciência, isto é, que exista um campo de atuação da ciência como lugar de investigação e produção de conhecimento. Se isto é válido nas ditas ciências exatas, é gritante nas ciências sociais. Que espécie de executante ou tarefeiro pode ser um cientista social?

         São evidentes os efeitos económicos e políticos do paradigma de capitalismo de mercado vigente. O crescimento do populismo e da extrema-direita são reações políticas ao contexto global. Ora, o modelo político de natureza, chamemos-lhe, extremo-capitalista, tem efeitos na ciência, com a redução desta ao cálculo do lucro. As ciências sociais são, neste quadro, as mais visadas, pela sua incapacidade de gerar lucros diretos. A verdadeira “caça às bruxas” em todo o Ocidente tem tido forte reação do meio académico, mas em Portugal mantém-se um silêncio que não é um silêncio comprometido, mas de medo, de quem receia perder as últimas migalhas que são jogadas.

         A distração do tempo que vivemos pode licitar raciocínios deste tipo: “para que servem as ciências sociais?”. Mas porque motivo essa pergunta não é feita à investigação sobre as sociedades de formigas? Porque o entendimento das formas de organização das sociedades de formigas, ou outros animais, trazem novas formas de entender a organização social como princípio natural. Correto. Exatamente com as ciências sociais permitem entender as diferentes formas pelas quais as sociedades humanas, os grupos sociais mainstream e alternativos se organizam, as suas dinâmicas, lógicas discursivas, tipologias de linguagem, códigos de interação, ritos iniciáticos, de passagem, não-ditos sociais que configuram normas de socialização. O entendimento das diferentes tipologias sociais, dos múltiplos códigos de linguagem simbólica, religiosa, etc., são fundamentais para que teorias económicas ligadas aos comportamentos dos cidadãos possuam um elevado grau de aderência à realidade, para que não aconteçam casos como o do ex-ministro Vítor Gaspar, que afirmou não esperar que diante de políticas de austeridade houvesse uma contração do consumo.

         Políticas de inserção social, de combate à exclusão, medidas económicas, compreensão das dinâmicas do mercado de trabalho e do mercado de consumo, somente são possíveis graças às investigações das ciências sociais: a sociologia, a antropologia, a psicologia social, etc. Sem a ação das ciências sociais, dotadas de aparelho teórico produzido e depurado durante décadas, não é possível compreender e traduzir outras culturas, mudanças sociais em curso nas nossas próprias sociedades, entender os fenómenos sociais mais diversos. Sem a tradução das ciências sociais só sobram os discursos do racismo, da xenofobia, da homofobia, dos preconceitos vários. 

         Tudo isto para voltar ao princípio: é falsa a afirmação do Sr. Ministro. No que diz respeito ao emprego científico, quer na figura do investigador-doutorado quer do docente contratado, está tudo por fazer nas ciências sociais.

20
Jan19

O genro de Jerónimo

João Ferreira Dias

O povo costuma dizer que quem anda a chuva molha-se, e se é verdade que um político não é responsável pelos atos de familiares, não é menos verdade que um contrato entre a câmara de Loures, de gestão comunista, e o genro do líder do PCP é motivo quanto-baste para torcer o nariz. O PCP reage voltando a foice à TVI, uma atitude descabida e apressada que não abona em favor do partido, particularmente quando é tão ávido de casos jornalísticos que evidenciem os males do capitalismo e dos demais partidos. No mundo da política tudo se move por esferas de interesses e há sempre uma mão amiga aqui e acolá. É o que Brasil se chama de fator "QI", isto é, "quem indica". 

Ora, isto lembra-nos que partidos hipermoralistas ficam à mercê dos acontecimentos, incapazes de contornar factos e pior, incapazes de fazer mea culpa ou ver mal em causa própria. Nada disto é simpático para o PCP e permite-nos teorizar que entre um comunista e um capitalista a diferença é a oportunidade. 

05
Jan19

A pouca Begonha da JS

João Ferreira Dias

À falta de outra opção, Maria Begonha foi eleita líder da Juventude Socialista (JS). Ora, sabendo que as chamadas "jotas" dos vários partidos funcionam como programa de estágio e formação para futuros políticos de carreira, cai muito mal ao maior partido do centro-esquerda ter a sua juventude liderada por alguém que viu o seu nome envolvido em escândalos como de falso título de mestre, com avenças atribuídas por ajuste direto em autarquias socialistas de cerca de 140 mil euros em quatro anos. As suspeitas foram até ao uso de meios públicos por apoiantes da sua candidatura, numa história que envolve o transporte de militantes num minibus de uma junta de freguesia presidida pelo PS. Os contornos são demasiadamente "cabeludos" para não terem sido objeto de profundo escrutínio. De suspeitas em suspeitas, de aprendizado e sobrevivência de jogos de poder e de corredor político, vão-se construindo os deputados e ministros de amanhã. 

Convém lembrar que a sensação de impunidade e recusa de escrutínio que marca a vida política passim tem estado na origem da adesão popular aos movimentos de extrema-direita, atrelada à narrativa de que os políticos dos partidos tradicionais são todos corruptos. Não é com casos como este que esta disposição popular é invertida. Lamentável. 

18
Dez18

A greve dos enfermeiros e os sindicatos

João Ferreira Dias

As greves constituem-se mecanismos legais (agora, e por agora) de garante da luta sindical por melhores condições laborais por parte de vários setores profissionais. É uma ferramenta político-social de largo impacto no quotidiano, em particular quando a greve advém de setores que interferem, diretamente, no fluxo diário da sociedade, como é o caso dos transportes públicos. A sua eficácia depende, precisamente, do poder de desestabilizar a ordem social. 

Ora, o problema das greves, ou melhor, dos sindicatos, é a forma como estes estão permeáveis à influência partidária. Nesse capítulo, o PCP é o partido cuja força eleitoral depende, sobremaneira, dos movimentos sindicais. Não é por acaso que a estrutura destes é controlada por militantes comunistas, os quais estabelecem um rácio de não-militantes que podem ocupar cargos diretivos dos sindicatos. Não sendo uma desonestidade, por razões históricas ligadas à emergência do PCP, a verdade é que se trata de um controlo sobre os sindicatos que lhes retira mobilidade ideológica. É por isso que as greves ocorrem em momentos estratégicos para a vida eleitoral, porque são o garante da existência sociológica do PCP, razão pela qual a aliança Sindicatos-PCP é tão forte e determinante na vida comum. 

A presente greve dos enfermeiros contém os mesmos contornos, tratando-se da primeira greve e primeiro movimento sindical umbiligado à direita, concretamente ao PSD. Ora, só esse facto diz muito do contexto desta greve, numa altura em que a maioria das reivindicações dos enfermeiros portugueses (que, reconheça-se, têm condições laborais muito precárias quando comparados com outros países europeus; todavia, o mesmo acontece com outras profissões) foram já suprimidas. Nesse sentido, encontramos um processo de aproveitamento estratégico e eleitoral do PSD, que ao estar em risco de desagregação encontra nos processos de sobrevivência do PCP uma possibilidade de galvanização de uma franja profissional e eleitoral.  A situação particular dos enfermeiros e a névoa dúbia que comporta é reforçada pelo financiamento. Pela primeira vez, uma greve é financiada em sistema de crowdfunding, tornando-se um processo anónimo que permite camuflar interesses políticos subjacentes. O cenário, portanto, não é transparente nem simpático. No meio da legitima luta seria ideal despartidarizar os sindicatos. Digo eu. 

14
Dez18

A Linguagem Amiga dos Animais

João Ferreira Dias

Vivemos um tempo de extremismos e pequenas causas identitárias, resultantes de bolhas  construídas por nichos sociais onde a realidade é fragmentada e, por essa razão, as suas causas são hiperbolizadas. As causas humanitárias estruturais e fraturantes são secundarizadas, vista de dentro da bolha confortável e causídica. Prova disso é a forma como o legítimo combate pelos direitos dos animais deslizou para lutas de natureza patética, como a proposta da PETA, embandeirada pelo PAN, de alteração de expressões idiomáticas e outras formas de vocábulos populares, como "pegar o touro pelos cornos", que deveria passar a "pegar a rosa pelos espinhos". O problema desta proposta é que desvaloriza o sentido cultural e o peso das expressões. A metáfora de coragem e empenho que remete para o pegar de um touro pelos chifres é bem distinta da imagem de apanhar uma flor pelos espinhos. Em segundo lugar, o peso jurídico das palavras deve ser medido. Se uma tourada coloca em questão a integridade física dos animais em favor de um espetáculo, o uso de expressões na linguagem corrente não infere na vida animal. Qualquer humorista dirá que chamar vaca a uma vaca não o ofende, não como o faria no caso de uma mulher. Porque as palavras têm um peso e uma utilidade social. E não, não é pelo uso das expressões que se descarrila para a prática dos atos, porque eu não conheço ninguém que use a expressão "pegar o touro pelos cornos" que tenha, alguma vez, participado de uma tourada, ou que use, por exemplo, "matar dois coelhos de uma cajadada" que sequer tenha um cajado ou até visto um coelho ao vivo. 

03
Dez18

Bolsonaro e o Índio

João Ferreira Dias

Por estes dias, Jair Bolsonaro proferiu um discurso sobre os índios brasileiros, defendendo que estes não são animais, pelo que não deveriam estar em reservas naturais, qual jardim zoológico. Esta apologia da integração urbana e social dos índios, sob um aparente arauto dos direitos humanos, que muito deve agradar aos bolsominions, esconde um projeto maior: o desmatamento da floresta amazónica. Convém recordar que Bolsonaro, por diversas vezes, afirmou que com ele o índio não teria mais um milímetro de terras. Este discurso foi aplaudido pela "bancada do boi", i.e., pelos políticos eleitos para fazer prevalecer os interesses dos grandes produtores de gado. Todos esfregam as mãos de contentes com o livre-trânsito do governo Bolsonaro para a destruição do pulmão do Planeta, crentes que o grave problema das alterações climáticas é uma armadilha ideológica petista e comunista contra o mercado. Com efeito, os factos são contraditórios com esta afirmação. Em rigor, as reservas representam a derradeira possibilidade dos índios preservarem o seu modus vivendi. Neste aspeto, como noutros, Bolsonaro incorpora o cowboyzeco do Oeste Selvagem, numa luta pela civilização da América contra os demónios indígenas. 

23
Nov18

As Universidades e os Radicais de Esquerda

João Ferreira Dias

"As universidades estão cheias de radicais de esquerda", assim se faz o teaser de uma longa entrevista a Jordan B. Peterson, catedrático e guru do YouTube, concedida ao Jornal "Público". É verdade que mundo de hoje está cheio de gurus, uma reconfiguração da clássica figura messiânica. Tratam-se de pessoas que são capazes de preencher o desejo de liderança e do conforto de ser seguidor que muitas religiões ajudaram a construir. A ascensão destes gurus, numa era em que as pessoas têm maior informação e escolaridade, é sintomático de vivermos em sociedades líquidas, em que o fluxo de imagens e informação é de tal ordem que não é possível filtrar convenientemente. Onde o excesso de informação equivale à ausência da mesma. Ao mesmo tempo, a rutura com formas clássicas de religião vem, igualmente, fazendo emergir este modelo de gurus não-religiosos, que suprimem a catequese, ensinando como pensar e sentir. 

À parte disso, duas notas importantes. Um: não se faz jornalismo pegando numa frase não desenvolvida e usando-a como título. Tal comportamento, de enorme falta de zelo e deontologia profissional, revela uma tentativa de condicionamento do leitor. Dois: pegando, a título de exemplo, na Antropologia, sabemos que enquanto a disciplina foi teórica e metodologicamente elaborada a partir de padrões culturais eurocêntricos, i.e., enquanto foi elaborada pela escola anglo-saxónica conservadora, a única coisa que foi capaz de produzir foi o racismo biológico, a leitura enviesada das culturas não-ocidentais, e uma conceção evolucionista das mesmas. As ciências sociais, precisam, portanto, de uma postura de Esquerda, de uma capacidade de romper com paradigmas, com molduras teóricas, com modelos metodológicos, e reinventar-se, dando passos em direção às linguagens culturais locais, de modo a que cada vez mais seja possível evitar perdas de tradução. 

20
Nov18

Touros, IVA e Civilização

João Ferreira Dias

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A carta aberta de Manuel Alegre a António Costa, a resposta do Primeiro-Ministro, e as cambalhotas que o ex-presidenciável e poeta tem dado com o tema são produto de uma má condução do assunto ab initio. As temáticas fiscais e civilizacionais não podem estar associadas. É do domínio fiscal as taxas e impostos aplicados sobre atividades de natureza económica, enquanto que à civilização diz respeito um conjunto de memórias, valores e costumes construídos socialmente e que conferem sentido de pertença e coesão a um grupo mais ou menos alargado de pessoas. 

Assim, o ponto de partida é entender de que forma se pretende, neste Orçamento de Estado, avaliar e enquadrar legalmente a prática tauromáquica. Se o foro do problema é de natureza fiscal, então, perante o facto da tourada ser tutela da Cultura, concebida como um espetáculo,  a taxa aplicada deve ser concordante com os demais espetáculos culturais, sejam os concertos ou o circo. Neste aspeto não pode haver dúvidas. 

Em segundo lugar, a matéria civilizacional diz respeito à forma como a tauromaquia é socialmente percebida, e não pode estar sob a alçada de dialéticas cidade/campo. Quer isto dizer que não podemos tomar como universal o princípio civilizacional alavancado a determinados clusters sociais, sejam eles urbanos ou rurais. Todavia, este postulado, importante, não esgota o problema. Se recordarmos que em 1836, durante o reinado de D. Maria II, as touradas foram proibidas, consideradas por aquela pouco civilizadas e desajustadas à moral do reino, estamos diante de uma problema de longo-termo que não pode ser circunscrito a uma Nova Era do PAN e da esquerda portuguesa não conservadora, pelo que temos matéria para um amplo debate social e eventualmente um referendo.

Contudo, a própria possibilidade do referendo é dilemática. Deveremos sufragar todos os temas fraturantes? É possível que em todos os assuntos a voz da maioria seja a voz da razão? Sabemos que um referendo não se desacompanha de inúmeras tomadas de posição partidárias, religiosas e de movimentos cívicos-ideológicos. Será um referendo, alguma vez, um exercício verdadeiramente livre e consciente? Num mundo tomado pelas fake news e pela manipulação mediatizada temos um eleitorado verdadeiramente informado e coerente? E não fazer o referendo não será negar a voz ao cidadão que só encontra espaço de ação política por meio do (mero e pouco inclusivo) voto? 

Por fim, como articular tradição e ciência? A ciência comprova que os animais têm uma capacidade cognitiva e emocional superior àquela que supúnhamos. Sabendo que um touro sofre física e psicologicamente com a prática tauromáquica, podemos continuar a concebe-la como um espetáculo porque diz respeito à «tradição»? E a tradição, não é, afinal, como provam os historiadores e antropólogos, uma invenção com o sentido de criar homogeneidade e continuidade sociais? Se aceitarmos o argumento da tradição não seremos coniventes com práticas de genocídio? Não seriam aceitáveis as lutas de gladiadores? 

O debate não é fácil, mas requer capacidade de repensar e rever costumes e perceções de espetáculo e dor. A título pessoal não aprecio as touradas. Considero que à luz da ciência cognitiva animal, a tauromaquia representa uma tortura com o intuito exclusivo de proporcionar diversão a terceiros, não comportando, assim, causa razoável para a sua existência. As tradições renovam-se, reinventam-se, reciclam-se. É possível continuar uma cultura do touro, tão enraizada nas vidas das gentes do Portugal, sem precisar de passar pelo espetáculo tortuoso dos animais. Nesse capítulo, os desfiles do gado e as largadas de touros são práticas que perpetuam esse legado histórico do viver do campo, sem com isso comportarem tortura. É, pois, possível encontrar um meio-termo nesta equação, haja disponibilidade de todas as partes. 

12
Nov18

Os eixos das RI brasileiras

João Ferreira Dias

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As relações internacionais brasileiras, ao longo da história, foram sendo articuladas em diferentes eixos, reformuladas e reorientadas quer em função de programas ideológicos, necessariamente, tendo por base fatores económicos e geoestratégicos abrangentes. As relações comerciais atlânticas foram essenciais na consolidação do país e, mesmo no pós-independência, permaneceram importantes ao nível económico. Esquecidas durante uma parte do século XIX, e primeiras décadas do século XX, voltado o país ao desnevolvimentismo europeísta, com enfoque no branqueamento social, foram mais tarde retomadas com a emergência de potências africanas. Num mundo cada vez mais multipolar, o Brasil soube relacionar-se no quadro das RI com outras potências emergentes, formando os BRICS, mas valorizando o eixo da Mercosul.

Com uma nova presidência em vista, percebe-se, desde já, que as relações abaixo do Equador não farão parte das prioridades do Planalto. O Brasil que se segue posiciona o seu eixo de relações no continente norte-americano. Diversos fatores justificam essa opção, mas todos se resumem ao plano ideológico-cultural. As elites brasileiras, bem como a classe média, sempre se reviu nos EUA. Mas jamais o fizeram face ao Canadá. As similitudes históricas e as opções tomadas pelos norte-americanos vão ao encontro do modelo idealizado pelos grupos mais previlegiados da sociedade brasileira. A própria exclusão social e racial encontrada pelos americanos para "resolver" o problema dos ex-escravos teve a sua replicação no Brasil. Com a vitória de Trump, observou-se uma Trumpização de Bolsonaro e do seu eleitorado. Ambos venceram com base em soundbites que agradavam ao eleitoral cristão evangélico, de baixa escolaridade, e ao eleitorado de classe média e alta conservadores, machistas e que preferem um modelo social estratificado. Ambos são presidentes do clamor pelas armas, da misoginia e do racismo. É natural, que a partilha de circunstâncias históricas e o referencial civilizacional que os EUA representam para o Brasil justifique este voltar, quase exclusivo, para os EUA e a sua agenda. A continência feita por Bolsonaro à bandeira norte-americana ou a importância dada a Israel (com a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém), são provas disso mesmo. Para os EUA será vantajoso. Representa uma vigilância permanente sobre a Venezuela e a possibilidade de entrada da indústria do armamento e automóvel em força no Brasil. Para o Brasil há a esperança de algum apoio económico e de flexibilidade na entrada dos seus nos EUA.

05
Nov18

Salários no Feminino

João Ferreira Dias

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Todos nós, pelo menos os que não possuem a deficiência de caráter de se rever no novo presidente brasileiro, legitimamente ficámos incomodados com os seus comentários racistas, homofóbicos e misóginos, dando-nos por satisfeitos por Portugal ser uma sociedade diferente. Ora, sucede que não o é. Sabemos que, afinal, temos uma sociedade profundamente racista, mas cujos contornos não se manifestam ao nível dos comportamentos diretos de larga escala. Quer isto dizer que os brandos costumes portugueses permanecem, com um racismo marinado, suave, mas que está lá. Isto para dizer que a misoginia da sociedade brasileira, de larga escala, como o racismo e a homofobia, não lhe são , e que deste lado do Atlântico se reproduzem. Jair Bolsonaro sempre defendeu que, por princípio, as mulheres devem receber salários inferiores aos homens. Revoltante? Sim, mas não diferente daquilo que é praticado em Portugal. A disparidade salarial entre homens e mulheres, para as mesmas funções, é de tal ordem, que, feitas as contas, as mulheres trabalham dois meses de graça. Em pleno séc. XXI, num tempo em que se pressupõe a existência de sociedades equilibradas, onde o género, a etnia, a religião, não distingam as pessoas, a verdade é que continuamos com problemas estruturais por resolver. Séculos de estratificação social, de disparidade nos direitos entre homens e mulheres, deixaram marcas profundas no Ocidente. A pretensa inferioridade da mulher, herdada de um pensamento judaico-cristão ligado aos tabus do sangue e de linhagem, continua a produzir os seus efeitos. Se queremos viver em sociedades mais justas precisamos resolver isto de uma vez por todas.