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O Coletivo

23
Abr19

EnaMorações brasileiras

João Ferreira Dias

O ministro da Justiça do Brasil, Sérgio Moro, de passagem por Portugal, declara que “Jair Bolsonaro é um sólido democrata. A democracia não está em risco no Brasil”. Não surpreende a declaração do ministro Sérgio Moro, ainda que as posições políticas de Bolsonaro contradigam as suas afirmações. A paixão que o atual presidente do Brasil nutre pela ditadura militar, o ódio racial e a homofobia que o habitam não conjugam com a Democracia. O que seria questionável é a razão pela qual Moro, um juiz que disse que jamais entraria na vida política, aceitou ser ministro neste governo, abdicando de princípios de clareza jurídica. Mas até isso tem a sua fundamentação: Sérgio Moro será candidato à presidência.

05
Abr19

Revisionismo à Brasileira

João Ferreira Dias

Depois de quase duas décadas de governos do PT e um período de governação resultante de um golpe, com Michel Temer, o governo de Jair Bolsonaro anunciou-se como aquele que acabaria com os tempos da ideologia. Como seria de esperar de quem faz este tipo de discurso, o mandato começou com uma enxurrada de programas ultra-ideológicos, desde o escola sem partido, ao alinhamento ultraliberal com programas de privatização, à captura de terras indígenas, sem esquecer o combate à diversidade sexual e de género. O quadro não ficaria completo sem um programa de revisionismo histórico, com a associação entre nazismo e socialismo, e agora com a maquilhagem da ditadura militar, suprimindo-se a ocorrência de um golpe militar e a entrada num período de ditadura. Esta limpeza da histórica constará dos livros didáticos distribuídos pelas crianças e jovens e será parte da campanha de formatação levada a cabo pelo Ministério da Educação (MEC)

11
Mar19

Neto de Moura somos todos nós

João Ferreira Dias

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Netos de Moura há muitos, afinal. Depois da legítima onda de contestação em relação aos acórdãos lavrados por aquele juiz, espelhando que os direitos das mulheres começam a ser objeto de maior relevância no espaço público, limitando, fortemente, o desnível da balança social a uma minoria, eis que agora, perante declarações do mesmo juiz acerca do casamento homossexual e do direito à adoção por tais casais, se levanta um bom punhado de moralistas. "Afinal até tem algum juízo", e coisas parecidas, são vociferadas em caixas de comentários, perfis, e cafés. Ora, se a essa disposição social homofóbica juntarmos as posições tomadas na sequência do chamado "caso Jamaica", temos um quadro social eminentemente conservador e preconceituoso. É o país onde se é a favor dos direitos das mulheres, mas onde se oferecem electrodomésticos pelo dia da mulher, que não suporta travestis, mas onde os homens se mascaram se mulheres, que não é racista, mas quem não está bem que vá para a sua terra, e onde ninguém tem nada contra os gays desde que eles não casem, não tenham filhos, nem andem de mão dada na rua.

06
Mar19

O Portugal que até existe

João Ferreira Dias

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Quando Joana Gorjão Henriques levantou, e muito bem, o véu do racismo em Portugal houve uma onda de reação puritana escandalizada. Uma mesma franja social alargada que mandou Mamadou Ba para a sua terra e que considera que a questão dos direitos lgbti são uma ditadura das minorias sobre uma maioria "tradicional", uma espécie de Portugal tecido na memória do Estado Novo, dos "bons costumes" e da decência. Ora, é aqui que tudo fica mais claro: a noção de sobreposição da maioria sobre a minoria, com supressão da última, é o pano de fundo do fascismo, não da Democracia. É bom que tenhamos isso presente. 

28
Fev19

A mensagem e o mensageiro

João Ferreira Dias

Um dos problemas da homofobia é que esvazia tudo à sua volta, produzindo teorias conspiratórias corporativistas e impossibilitando a reflexão dos conteúdos e contextos sociais adjacentes. Ora, é exatamente isso que veio a acontecer com a presença de Jean Wyllys em Portugal. O ex-deputado, exilado na Alemanha depois das ameaças por parte dos apoiantes de Bolsonaro, chegou a Portugal sob intenso destaque mediático, tendo-se tornado, rapidamente, alvo de inúmeras críticas, expondo a dimensão da homofobia e do conservadorismo puritano da sociedade portuguesa e da grande maioria dos imigrantes brasileiros em Portugal, devidamente formatados na esteira das igrejas evangélicas. Em resultado dessa propensão homofóbica da sociedade portuguesa, a mensagem de Jean Wyllys foi secundarizada e desacreditada, confundindo-se o mensageiro com a mensagem. Retirando a agenda LGBTI do ex-deputado, o testemunho direto de Wyllys é determinante, numa altura em que o fascismo ressignificado toma conta do cenário político brasileiro, extremando a sociedade a níveis mais profundos do que no período da ditadura militar. 

04
Fev19

Ciências Sociais, o parente pobre da ciência

João Ferreira Dias

Em jeito de defesa pelas metas não cumpridas, afirma o Sr. Ministro da Ciência que em Portugal há já pleno emprego entre os doutorados e que é tempo de contratar doutorados estrangeiros. Não duvido da razoabilidade desta última afirmação nas áreas das engenharias. O problema é que o Sr. Ministro é um político, pelo que, nessa condição, não deve veicular cosmovisões próprias dos corredores do Instituto Superior Técnico, imaginando que a ciência se esgota nas paredes daquela instituição.

         Ora, este tipo de raciocínio inscreve-se num problema maior: o da perceção da utilidade da ciência e o da inscrição desta no quadro do capitalismo de mercado. A conversão da figura do investigador-doutorado em tarefeiro industrial ou empresarial não é uma solução que mantenha a ciência vitaminada nem é sustentável a longo prazo. À ciência não cabe apenas a solução da produção farmacêutica ou da execução tecnológica. É preciso que haja espaço para que a ciência seja ciência, isto é, que exista um campo de atuação da ciência como lugar de investigação e produção de conhecimento. Se isto é válido nas ditas ciências exatas, é gritante nas ciências sociais. Que espécie de executante ou tarefeiro pode ser um cientista social?

         São evidentes os efeitos económicos e políticos do paradigma de capitalismo de mercado vigente. O crescimento do populismo e da extrema-direita são reações políticas ao contexto global. Ora, o modelo político de natureza, chamemos-lhe, extremo-capitalista, tem efeitos na ciência, com a redução desta ao cálculo do lucro. As ciências sociais são, neste quadro, as mais visadas, pela sua incapacidade de gerar lucros diretos. A verdadeira “caça às bruxas” em todo o Ocidente tem tido forte reação do meio académico, mas em Portugal mantém-se um silêncio que não é um silêncio comprometido, mas de medo, de quem receia perder as últimas migalhas que são jogadas.

         A distração do tempo que vivemos pode licitar raciocínios deste tipo: “para que servem as ciências sociais?”. Mas porque motivo essa pergunta não é feita à investigação sobre as sociedades de formigas? Porque o entendimento das formas de organização das sociedades de formigas, ou outros animais, trazem novas formas de entender a organização social como princípio natural. Correto. Exatamente com as ciências sociais permitem entender as diferentes formas pelas quais as sociedades humanas, os grupos sociais mainstream e alternativos se organizam, as suas dinâmicas, lógicas discursivas, tipologias de linguagem, códigos de interação, ritos iniciáticos, de passagem, não-ditos sociais que configuram normas de socialização. O entendimento das diferentes tipologias sociais, dos múltiplos códigos de linguagem simbólica, religiosa, etc., são fundamentais para que teorias económicas ligadas aos comportamentos dos cidadãos possuam um elevado grau de aderência à realidade, para que não aconteçam casos como o do ex-ministro Vítor Gaspar, que afirmou não esperar que diante de políticas de austeridade houvesse uma contração do consumo.

         Políticas de inserção social, de combate à exclusão, medidas económicas, compreensão das dinâmicas do mercado de trabalho e do mercado de consumo, somente são possíveis graças às investigações das ciências sociais: a sociologia, a antropologia, a psicologia social, etc. Sem a ação das ciências sociais, dotadas de aparelho teórico produzido e depurado durante décadas, não é possível compreender e traduzir outras culturas, mudanças sociais em curso nas nossas próprias sociedades, entender os fenómenos sociais mais diversos. Sem a tradução das ciências sociais só sobram os discursos do racismo, da xenofobia, da homofobia, dos preconceitos vários. 

         Tudo isto para voltar ao princípio: é falsa a afirmação do Sr. Ministro. No que diz respeito ao emprego científico, quer na figura do investigador-doutorado quer do docente contratado, está tudo por fazer nas ciências sociais.

20
Jan19

O genro de Jerónimo

João Ferreira Dias

O povo costuma dizer que quem anda a chuva molha-se, e se é verdade que um político não é responsável pelos atos de familiares, não é menos verdade que um contrato entre a câmara de Loures, de gestão comunista, e o genro do líder do PCP é motivo quanto-baste para torcer o nariz. O PCP reage voltando a foice à TVI, uma atitude descabida e apressada que não abona em favor do partido, particularmente quando é tão ávido de casos jornalísticos que evidenciem os males do capitalismo e dos demais partidos. No mundo da política tudo se move por esferas de interesses e há sempre uma mão amiga aqui e acolá. É o que Brasil se chama de fator "QI", isto é, "quem indica". 

Ora, isto lembra-nos que partidos hipermoralistas ficam à mercê dos acontecimentos, incapazes de contornar factos e pior, incapazes de fazer mea culpa ou ver mal em causa própria. Nada disto é simpático para o PCP e permite-nos teorizar que entre um comunista e um capitalista a diferença é a oportunidade. 

05
Jan19

A pouca Begonha da JS

João Ferreira Dias

À falta de outra opção, Maria Begonha foi eleita líder da Juventude Socialista (JS). Ora, sabendo que as chamadas "jotas" dos vários partidos funcionam como programa de estágio e formação para futuros políticos de carreira, cai muito mal ao maior partido do centro-esquerda ter a sua juventude liderada por alguém que viu o seu nome envolvido em escândalos como de falso título de mestre, com avenças atribuídas por ajuste direto em autarquias socialistas de cerca de 140 mil euros em quatro anos. As suspeitas foram até ao uso de meios públicos por apoiantes da sua candidatura, numa história que envolve o transporte de militantes num minibus de uma junta de freguesia presidida pelo PS. Os contornos são demasiadamente "cabeludos" para não terem sido objeto de profundo escrutínio. De suspeitas em suspeitas, de aprendizado e sobrevivência de jogos de poder e de corredor político, vão-se construindo os deputados e ministros de amanhã. 

Convém lembrar que a sensação de impunidade e recusa de escrutínio que marca a vida política passim tem estado na origem da adesão popular aos movimentos de extrema-direita, atrelada à narrativa de que os políticos dos partidos tradicionais são todos corruptos. Não é com casos como este que esta disposição popular é invertida. Lamentável. 

18
Dez18

A greve dos enfermeiros e os sindicatos

João Ferreira Dias

As greves constituem-se mecanismos legais (agora, e por agora) de garante da luta sindical por melhores condições laborais por parte de vários setores profissionais. É uma ferramenta político-social de largo impacto no quotidiano, em particular quando a greve advém de setores que interferem, diretamente, no fluxo diário da sociedade, como é o caso dos transportes públicos. A sua eficácia depende, precisamente, do poder de desestabilizar a ordem social. 

Ora, o problema das greves, ou melhor, dos sindicatos, é a forma como estes estão permeáveis à influência partidária. Nesse capítulo, o PCP é o partido cuja força eleitoral depende, sobremaneira, dos movimentos sindicais. Não é por acaso que a estrutura destes é controlada por militantes comunistas, os quais estabelecem um rácio de não-militantes que podem ocupar cargos diretivos dos sindicatos. Não sendo uma desonestidade, por razões históricas ligadas à emergência do PCP, a verdade é que se trata de um controlo sobre os sindicatos que lhes retira mobilidade ideológica. É por isso que as greves ocorrem em momentos estratégicos para a vida eleitoral, porque são o garante da existência sociológica do PCP, razão pela qual a aliança Sindicatos-PCP é tão forte e determinante na vida comum. 

A presente greve dos enfermeiros contém os mesmos contornos, tratando-se da primeira greve e primeiro movimento sindical umbiligado à direita, concretamente ao PSD. Ora, só esse facto diz muito do contexto desta greve, numa altura em que a maioria das reivindicações dos enfermeiros portugueses (que, reconheça-se, têm condições laborais muito precárias quando comparados com outros países europeus; todavia, o mesmo acontece com outras profissões) foram já suprimidas. Nesse sentido, encontramos um processo de aproveitamento estratégico e eleitoral do PSD, que ao estar em risco de desagregação encontra nos processos de sobrevivência do PCP uma possibilidade de galvanização de uma franja profissional e eleitoral.  A situação particular dos enfermeiros e a névoa dúbia que comporta é reforçada pelo financiamento. Pela primeira vez, uma greve é financiada em sistema de crowdfunding, tornando-se um processo anónimo que permite camuflar interesses políticos subjacentes. O cenário, portanto, não é transparente nem simpático. No meio da legitima luta seria ideal despartidarizar os sindicatos. Digo eu. 

14
Dez18

A Linguagem Amiga dos Animais

João Ferreira Dias

Vivemos um tempo de extremismos e pequenas causas identitárias, resultantes de bolhas  construídas por nichos sociais onde a realidade é fragmentada e, por essa razão, as suas causas são hiperbolizadas. As causas humanitárias estruturais e fraturantes são secundarizadas, vista de dentro da bolha confortável e causídica. Prova disso é a forma como o legítimo combate pelos direitos dos animais deslizou para lutas de natureza patética, como a proposta da PETA, embandeirada pelo PAN, de alteração de expressões idiomáticas e outras formas de vocábulos populares, como "pegar o touro pelos cornos", que deveria passar a "pegar a rosa pelos espinhos". O problema desta proposta é que desvaloriza o sentido cultural e o peso das expressões. A metáfora de coragem e empenho que remete para o pegar de um touro pelos chifres é bem distinta da imagem de apanhar uma flor pelos espinhos. Em segundo lugar, o peso jurídico das palavras deve ser medido. Se uma tourada coloca em questão a integridade física dos animais em favor de um espetáculo, o uso de expressões na linguagem corrente não infere na vida animal. Qualquer humorista dirá que chamar vaca a uma vaca não o ofende, não como o faria no caso de uma mulher. Porque as palavras têm um peso e uma utilidade social. E não, não é pelo uso das expressões que se descarrila para a prática dos atos, porque eu não conheço ninguém que use a expressão "pegar o touro pelos cornos" que tenha, alguma vez, participado de uma tourada, ou que use, por exemplo, "matar dois coelhos de uma cajadada" que sequer tenha um cajado ou até visto um coelho ao vivo.