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O Coletivo

03
Dez18

Bolsonaro e o Índio

João Ferreira Dias

Por estes dias, Jair Bolsonaro proferiu um discurso sobre os índios brasileiros, defendendo que estes não são animais, pelo que não deveriam estar em reservas naturais, qual jardim zoológico. Esta apologia da integração urbana e social dos índios, sob um aparente arauto dos direitos humanos, que muito deve agradar aos bolsominions, esconde um projeto maior: o desmatamento da floresta amazónica. Convém recordar que Bolsonaro, por diversas vezes, afirmou que com ele o índio não teria mais um milímetro de terras. Este discurso foi aplaudido pela "bancada do boi", i.e., pelos políticos eleitos para fazer prevalecer os interesses dos grandes produtores de gado. Todos esfregam as mãos de contentes com o livre-trânsito do governo Bolsonaro para a destruição do pulmão do Planeta, crentes que o grave problema das alterações climáticas é uma armadilha ideológica petista e comunista contra o mercado. Com efeito, os factos são contraditórios com esta afirmação. Em rigor, as reservas representam a derradeira possibilidade dos índios preservarem o seu modus vivendi. Neste aspeto, como noutros, Bolsonaro incorpora o cowboyzeco do Oeste Selvagem, numa luta pela civilização da América contra os demónios indígenas. 

23
Nov18

As Universidades e os Radicais de Esquerda

João Ferreira Dias

"As universidades estão cheias de radicais de esquerda", assim se faz o teaser de uma longa entrevista a Jordan B. Peterson, catedrático e guru do YouTube, concedida ao Jornal "Público". É verdade que mundo de hoje está cheio de gurus, uma reconfiguração da clássica figura messiânica. Tratam-se de pessoas que são capazes de preencher o desejo de liderança e do conforto de ser seguidor que muitas religiões ajudaram a construir. A ascensão destes gurus, numa era em que as pessoas têm maior informação e escolaridade, é sintomático de vivermos em sociedades líquidas, em que o fluxo de imagens e informação é de tal ordem que não é possível filtrar convenientemente. Onde o excesso de informação equivale à ausência da mesma. Ao mesmo tempo, a rutura com formas clássicas de religião vem, igualmente, fazendo emergir este modelo de gurus não-religiosos, que suprimem a catequese, ensinando como pensar e sentir. 

À parte disso, duas notas importantes. Um: não se faz jornalismo pegando numa frase não desenvolvida e usando-a como título. Tal comportamento, de enorme falta de zelo e deontologia profissional, revela uma tentativa de condicionamento do leitor. Dois: pegando, a título de exemplo, na Antropologia, sabemos que enquanto a disciplina foi teórica e metodologicamente elaborada a partir de padrões culturais eurocêntricos, i.e., enquanto foi elaborada pela escola anglo-saxónica conservadora, a única coisa que foi capaz de produzir foi o racismo biológico, a leitura enviesada das culturas não-ocidentais, e uma conceção evolucionista das mesmas. As ciências sociais, precisam, portanto, de uma postura de Esquerda, de uma capacidade de romper com paradigmas, com molduras teóricas, com modelos metodológicos, e reinventar-se, dando passos em direção às linguagens culturais locais, de modo a que cada vez mais seja possível evitar perdas de tradução. 

20
Nov18

Touros, IVA e Civilização

João Ferreira Dias

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A carta aberta de Manuel Alegre a António Costa, a resposta do Primeiro-Ministro, e as cambalhotas que o ex-presidenciável e poeta tem dado com o tema são produto de uma má condução do assunto ab initio. As temáticas fiscais e civilizacionais não podem estar associadas. É do domínio fiscal as taxas e impostos aplicados sobre atividades de natureza económica, enquanto que à civilização diz respeito um conjunto de memórias, valores e costumes construídos socialmente e que conferem sentido de pertença e coesão a um grupo mais ou menos alargado de pessoas. 

Assim, o ponto de partida é entender de que forma se pretende, neste Orçamento de Estado, avaliar e enquadrar legalmente a prática tauromáquica. Se o foro do problema é de natureza fiscal, então, perante o facto da tourada ser tutela da Cultura, concebida como um espetáculo,  a taxa aplicada deve ser concordante com os demais espetáculos culturais, sejam os concertos ou o circo. Neste aspeto não pode haver dúvidas. 

Em segundo lugar, a matéria civilizacional diz respeito à forma como a tauromaquia é socialmente percebida, e não pode estar sob a alçada de dialéticas cidade/campo. Quer isto dizer que não podemos tomar como universal o princípio civilizacional alavancado a determinados clusters sociais, sejam eles urbanos ou rurais. Todavia, este postulado, importante, não esgota o problema. Se recordarmos que em 1836, durante o reinado de D. Maria II, as touradas foram proibidas, consideradas por aquela pouco civilizadas e desajustadas à moral do reino, estamos diante de uma problema de longo-termo que não pode ser circunscrito a uma Nova Era do PAN e da esquerda portuguesa não conservadora, pelo que temos matéria para um amplo debate social e eventualmente um referendo.

Contudo, a própria possibilidade do referendo é dilemática. Deveremos sufragar todos os temas fraturantes? É possível que em todos os assuntos a voz da maioria seja a voz da razão? Sabemos que um referendo não se desacompanha de inúmeras tomadas de posição partidárias, religiosas e de movimentos cívicos-ideológicos. Será um referendo, alguma vez, um exercício verdadeiramente livre e consciente? Num mundo tomado pelas fake news e pela manipulação mediatizada temos um eleitorado verdadeiramente informado e coerente? E não fazer o referendo não será negar a voz ao cidadão que só encontra espaço de ação política por meio do (mero e pouco inclusivo) voto? 

Por fim, como articular tradição e ciência? A ciência comprova que os animais têm uma capacidade cognitiva e emocional superior àquela que supúnhamos. Sabendo que um touro sofre física e psicologicamente com a prática tauromáquica, podemos continuar a concebe-la como um espetáculo porque diz respeito à «tradição»? E a tradição, não é, afinal, como provam os historiadores e antropólogos, uma invenção com o sentido de criar homogeneidade e continuidade sociais? Se aceitarmos o argumento da tradição não seremos coniventes com práticas de genocídio? Não seriam aceitáveis as lutas de gladiadores? 

O debate não é fácil, mas requer capacidade de repensar e rever costumes e perceções de espetáculo e dor. A título pessoal não aprecio as touradas. Considero que à luz da ciência cognitiva animal, a tauromaquia representa uma tortura com o intuito exclusivo de proporcionar diversão a terceiros, não comportando, assim, causa razoável para a sua existência. As tradições renovam-se, reinventam-se, reciclam-se. É possível continuar uma cultura do touro, tão enraizada nas vidas das gentes do Portugal, sem precisar de passar pelo espetáculo tortuoso dos animais. Nesse capítulo, os desfiles do gado e as largadas de touros são práticas que perpetuam esse legado histórico do viver do campo, sem com isso comportarem tortura. É, pois, possível encontrar um meio-termo nesta equação, haja disponibilidade de todas as partes. 

12
Nov18

Os eixos das RI brasileiras

João Ferreira Dias

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As relações internacionais brasileiras, ao longo da história, foram sendo articuladas em diferentes eixos, reformuladas e reorientadas quer em função de programas ideológicos, necessariamente, tendo por base fatores económicos e geoestratégicos abrangentes. As relações comerciais atlânticas foram essenciais na consolidação do país e, mesmo no pós-independência, permaneceram importantes ao nível económico. Esquecidas durante uma parte do século XIX, e primeiras décadas do século XX, voltado o país ao desnevolvimentismo europeísta, com enfoque no branqueamento social, foram mais tarde retomadas com a emergência de potências africanas. Num mundo cada vez mais multipolar, o Brasil soube relacionar-se no quadro das RI com outras potências emergentes, formando os BRICS, mas valorizando o eixo da Mercosul.

Com uma nova presidência em vista, percebe-se, desde já, que as relações abaixo do Equador não farão parte das prioridades do Planalto. O Brasil que se segue posiciona o seu eixo de relações no continente norte-americano. Diversos fatores justificam essa opção, mas todos se resumem ao plano ideológico-cultural. As elites brasileiras, bem como a classe média, sempre se reviu nos EUA. Mas jamais o fizeram face ao Canadá. As similitudes históricas e as opções tomadas pelos norte-americanos vão ao encontro do modelo idealizado pelos grupos mais previlegiados da sociedade brasileira. A própria exclusão social e racial encontrada pelos americanos para "resolver" o problema dos ex-escravos teve a sua replicação no Brasil. Com a vitória de Trump, observou-se uma Trumpização de Bolsonaro e do seu eleitorado. Ambos venceram com base em soundbites que agradavam ao eleitoral cristão evangélico, de baixa escolaridade, e ao eleitorado de classe média e alta conservadores, machistas e que preferem um modelo social estratificado. Ambos são presidentes do clamor pelas armas, da misoginia e do racismo. É natural, que a partilha de circunstâncias históricas e o referencial civilizacional que os EUA representam para o Brasil justifique este voltar, quase exclusivo, para os EUA e a sua agenda. A continência feita por Bolsonaro à bandeira norte-americana ou a importância dada a Israel (com a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém), são provas disso mesmo. Para os EUA será vantajoso. Representa uma vigilância permanente sobre a Venezuela e a possibilidade de entrada da indústria do armamento e automóvel em força no Brasil. Para o Brasil há a esperança de algum apoio económico e de flexibilidade na entrada dos seus nos EUA.

05
Nov18

Salários no Feminino

João Ferreira Dias

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Todos nós, pelo menos os que não possuem a deficiência de caráter de se rever no novo presidente brasileiro, legitimamente ficámos incomodados com os seus comentários racistas, homofóbicos e misóginos, dando-nos por satisfeitos por Portugal ser uma sociedade diferente. Ora, sucede que não o é. Sabemos que, afinal, temos uma sociedade profundamente racista, mas cujos contornos não se manifestam ao nível dos comportamentos diretos de larga escala. Quer isto dizer que os brandos costumes portugueses permanecem, com um racismo marinado, suave, mas que está lá. Isto para dizer que a misoginia da sociedade brasileira, de larga escala, como o racismo e a homofobia, não lhe são , e que deste lado do Atlântico se reproduzem. Jair Bolsonaro sempre defendeu que, por princípio, as mulheres devem receber salários inferiores aos homens. Revoltante? Sim, mas não diferente daquilo que é praticado em Portugal. A disparidade salarial entre homens e mulheres, para as mesmas funções, é de tal ordem, que, feitas as contas, as mulheres trabalham dois meses de graça. Em pleno séc. XXI, num tempo em que se pressupõe a existência de sociedades equilibradas, onde o género, a etnia, a religião, não distingam as pessoas, a verdade é que continuamos com problemas estruturais por resolver. Séculos de estratificação social, de disparidade nos direitos entre homens e mulheres, deixaram marcas profundas no Ocidente. A pretensa inferioridade da mulher, herdada de um pensamento judaico-cristão ligado aos tabus do sangue e de linhagem, continua a produzir os seus efeitos. Se queremos viver em sociedades mais justas precisamos resolver isto de uma vez por todas. 

04
Nov18

A Tauromaquia

João Ferreira Dias

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Noticia-se que os socialistas se distanciam da nova Ministra da Cultura nesta matéria. Eis um tema que possui esquinas eleitorais. Evidentemente que não se espera que o CDS defenda o fim das touradas. Afinal, faz parte do conjunto de atavismos culturais que compõem a mundividência daquele partido. Aceita-se. No PS a coisa é um bocado diferente, porque o partido congrega muitos gostos políticos, formando um guarda-chuva ideológico ao centro-esquerda, mais à esquerda ou mais à direita, consoante o tom. Respeito os aficionados da coisa. Pessoalmente não aprecio. Somente não me parece um argumento de peso, em favor da perpetuação da prática tauromáquica, a referência como "tradição"/"costume". Não apenas porque as tradições se inventam, como basta recordar que a escravatura era uma tradição/costume, ou queimar judeus. Quem se levanta em defesa da tauromaquia precisa seguir outro caminho argumentativo. Ou reinventar a tourada. A escravatura também foi reinventada na exclusão social. Portanto, convém ser capaz de reinventar num sentido mais humanista.

 

02
Nov18

Há Moro na costa

João Ferreira Dias

A escolha de Sérgio Moro para ministro da Justiça, tem sido interpretada, como sinal de vontade política de limpar a corrupção do Brasil, por parte do eleitorado de Bolsonaro, o qual vê no juiz responsável pela operação Lava-Jato e pela prisão de Lula um justiçeiro. O problema é que tendo sido uma prisão muito pouco transparente, sustentada numa suposta posse de um triplex que vem sendo mencionada desde a década de 1980, e numa altura em que o ex-presidente se posicionava para uma nova eleição, esta nomeação tem o condão de parecer uma gratificação pelos serviços prestados. Com efeito, esta leitura pode estar hiperbolizada por uma desconfiança, mas não deixa de ser válida, quando olhamos as escolhas ministeriais que já vão sendo mencionadas. Como o deputado federal Onyx Lorenzoni, que admitiu ter recebido suborno e que chefiará a Casa Civil. 

30
Out18

Sentiremos Falta da Srª Merkel

João Ferreira Dias

Nós que já fomos anti-merkelianos vamos viver um tempo, que já se anuncia, em que sentiremos a falta da ainda Chanceler alemã. Apesar dos namoricos de mercado e bancários da senhora, a mesma foi um tampão numa Alemanha a contas com o fantasma da história. A emergência dos fascismos reciclados e modernizados fará de Angela Merkel a derradeira figura democrática numa Europa a passos largos para o declínio. Convém não esquecer que a globalização já apresentou a sua fatura, e os desníveis sociais e económicos de coisas como a moeda única irresponsável trazem a reboque os radicalismos. Bolsonaro não se elegeu sozinho. Nem Viktor Orbán, entre outros.

29
Out18

Está Portugal imune a um Bolsonaro?

João Ferreira Dias

As eleições brasileiras têm de soar o alarme de forma estridente. Não apenas pela virada ideológica que representam, mas pela forma como foi possível eleger um candidato de extrema-direita graças a uma task force entre os meios de comunicação social conservadores, as igrejas evangélicas e uma fortíssima manipulação do eleitorado pelas redes sociais, através de uma fabricação e difusão brutal de fake news, um grave crime eleitorado extremamente difícil de mapear e controlar. Tudo junto, foi capaz de gerar um clima de histeria que produziu uma onda irracional junto de um eleitorado escolarizado e informado, mas que não é imune a uma manipulação mediática bem articulada. Este fenómeno será capaz de incentivar os movimentos de extrema-direita, em emergência por todo o mundo, a realizarem aguerridas campanhas de manipulação do eleitorado conservador e permeável. E se acharmos que no sossego dos nossos lares europeus estamos imunes à vitória de um candidato homofóbico, racista, misógino e pró-ditadura, então andamos a descansar na almofada em demasia, desvalorizando o poder da manipulação. Se nos dermos ao trabalhos de ler as caixas de comentários dos jornais, em particular nas suas páginas oficiais no Facebook, teremos de lidar com o horror de ver o número elevado de portugueses favoráveis ao discurso de Bolsonaro, numa onda anti-vermelho, como se o perigo comunista pairasse no ar. Portanto, Portugal não é um paraíso democrático anti-fascista, é um país onde o fascismo está no armário, como estava no Brasil. O que falta é uma figura carismática e um grupo de interesses na sua eleição. Até lá estamos descansados, mas não podemos dormir, porque a democracia é frágil e precisa ser defendida a cada instante. 

28
Out18

Hillary e Lula, equívocos de timming

João Ferreira Dias

A poucas horas de vermos o Brasil se tornar um país que elegeu um presidente assumidamente homofóbico, racista, misógino e fascista, uma última consideração sobre o processo de suicídio do PT. Quando o Partido Democrata decidiu ignorar o apelo do seu eleitorado e de importantes figuras do partido, varrendo Bernie Sanders para debaixo do tapete, para apresentar Hillary Clinton como candidata a Presidente dos Estados Unidos, partiu do erróneo princípio de que o eleitorado democrata seguiria em massa a escolha. Não tomou em conta a perceção generalizada de que Hillary se apresentava como a candidata dos interesses de Wall Street, dos vícios do poder político e das suas promiscuidades com o poder económico. Em consequência disso, levou uma valente tareia, pois uma parte do seu eleitorado, confiante que uma figura como Trump jamais seria eleito, votou no atual presidente dos EUA como protesto contra o autismo do Partido Democrata. As consequências políticas foram as que conhecemos. 

Similar erro cometeu o PT. Mergulhado num clima de suspeição -- com uma imprensa que gritou os escândalos de corrupção do seus deputados e outros membros e que falou baixo da corrupção dos demais partidos --, o PT, em toda a sua arrogância de quem está no poder, insistiu em manter como candidato presidencial Lula da Silva. Ainda que esteja inocente, não é democraticamente saudável nem politicamente sustentável apresentar um candidato nestas circunstâncias. No estado atual, caberia ao PT ter apresentado desde logo Fernando Haddad como candidato e ter defendido, de forma clara e transparente, a investigação interna e a reforma partidária. Construir um novo PT em torno de Haddad, valorizando os méritos do passado e apontando o dedo e punindo os erros também, teria valido ao partido uma outra confiança popular. Os erros estratégicos pagam-se caro. E o PT sacrificou a Democracia em nome de uma dinâmica interna típica dos partidos comunistas.