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O Coletivo

29
Jan19

Nota sobre a má imprensa

Flávio Gonçalves

É curioso que a Grécia tenha reconhecido o governo de Maduro, mas a comunicação social portuguesa esteja a esquecer-se por completo de o noticiar. Uma legítima distracção, suponho. A Itália afastou-se também do ultimato da União Europeia a Maduro (originando uma crise no governo, o primeiro-ministro do Movimento 5 Estrelas ao lado de Maduro enquanto A Liga apoia Guaidó), suponho que eventualmente tal surja nos jornais portugueses... preocupa-me seriamente o estado da comunicação social em Portugal, mesmo muito, até porque é o que os nossos governantes e eleitores leem, acriticamente!

25
Jan19

Um último comentário sobre a Venezuela

Flávio Gonçalves

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A minha posição em relação à Venezuela é muito simples: Maduro é um governante extremamente incompetente e incapaz, fui o primeiro a denunciá-lo logo meses após o início do seu mandato - o que me retirou da lista de convidados habituais da embaixada da Venezuela em Portugal durante vários anos, onde era orador habitual - mas não é um ditador. O regime está assolado pela corrupção, que é endémica na América Latina e ali não será excepção, mas não é uma ditadura. As eleições que elegeram Maduro foram legítimas, a parte mais radical da oposição recusou concorrer e as entidades internacionais recusaram estar presentes, tal não lhes retira a legitimidade.

 

O povo padece com a incompetência de Maduro aliada às sanções e boicotes impostos pelo estrangeiro. Não sou comunista nem próximo do PCP, mas trabalhei em várias redacções, leio imensa imprensa russa, iraniana, da esquerda americana, britânica, castelhana, brasileira e canadiana e não consigo fingir não saber o que sei, olhar para o lado enquanto todos assumem mentiras como verdades e o mundo se divide em "bons e maus", por ser socialista democrático e genuíno defensor da liberdade não me posso fingir de autista, lamento que tal choque amigos, camaradas e provavelmente até familiares, mas é por as pessoas das camadas mais informadas da sociedade se calarem todos os dias - quando salta à vista as muitas falsidades que são tomadas como verdade - que o eleitorado vota cada vez mais em populistas tanto à esquerda como à direita e estamos perante um ressurgimento do fascismo (último reduto dos descontentes) um pouco por todo o mundo.

 

O Vontade Popular é um partido violento de extrema-direita com uma milícia armada que já assassinou dezenas de pessoas e feriu centenas, os restantes partidos da oposição afastaram-se inclusivamente deste, lá por a Internacional Socialista o reconhecer como membro não o torna em socialista democrático nem em centro esquerda, na IS estão também partidos curdos classificados como terroristas e o MPLA. Não voltarei a este tema, por muito que me magoe o estado e a injustiça do mundo - em boa parte graças ao analfabetismo político generalizado e ao mau serviço prestado pela comunicação social - o meu foco é Portugal, os portugueses e a Europa.

24
Jan19

Três apontamentos incómodos sobre a Venezuela

Flávio Gonçalves

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Tenho a dizer que não me surpreendeu, fui das primeiras vozes em Portugal a profetizar que Maduro, dada a sua inépcia em carregar o positivo legado de Hugo Chávez, acabaria mais cedo ou mais tarde por ser vítima de um golpe, fosse da oposição ou inclusivamente dos sectores chavistas descontentes. Mas estando ainda por desvendar o que aí vem, ocorrem-me três reflexões:

 

Primeira: que Maduro não tenha dado voz de prisão a Guaidó quando este manifestou a intenção de se auto-nomear presidente interino e pediu apoio internacional semanas antes, demonstra que o mesmo já recearia que essa ordem não fosse acatada pelas suas forças policiais?

 

Segunda: é interessante verificar que antes dos vários governos europeus se posicionarem (e alguns ainda não o fizeram) a porta-voz da União Europeia falou colectivamente por todos eles e, por inerência, todas as nações europeias reconheceram Guaidó como presidente interino da Venezuela. Não havendo um governo europeu de facto (para meu pesar), isto será legítimo e democrático?

 

Terceiro: um país não pode ter dois presidentes. Para lá da legitimidade constitucional de Maduro ou Guaidó, tratando-se de um golpe o próximo presidente de facto da Venezuela será quem detiver o monopólio da violência (ou seja, o apoio do Exército). Esperemos que a tempo de evitar uma guerra civil.

22
Jan19

Racismo ou Luta de Classes?

Flávio Gonçalves

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Os eventos que testemunhamos esta semana irão certamente fazer correr muita tinta imprensa e blogosfera fora, contudo, como já alertei também aquando da acusação semelhante formulada contra uma esquadra da PSP na Amadora, é de lamentar que um pouco por todo o lado tentem explicar recorrendo ao racismo problemas de fundo que são uma questão de classe, não se trata da cor da pele, trata-se do facto de serem pobres e economicamente desprotegidos!

 

Ou seja, fosse um bairro degradado no norte do país, na Madeira ou nos Açores, ou até na capital se forem membros de uma qualquer tribo urbana, o tratamento policial teria sido exactamente o mesmo embora as vítimas fossem brancas. Eu sei que este tipo de discurso (vulgo a minha "crença ideológica num outro modelo de sociedade, muitas vezes assente no privilégio doutrinário"), como recordou Mamadou Ba, "não salva quem todos os dias é violentado com o racismo", mas comportamentos como o de ontem e uma generalização quanto ao comportamento das forças policiais são erros que em França, Itália e Estados Unidos catapultaram as forças populistas de extrema-direita.

 

Este tipo de agitação social se tivesse ocorrido em vésperas das eleições, fossem elas Europeias ou Legislativas, certamente que teriam tido grande proveito eleitoral por parte de arrivistas do populismo como André Ventura, pois os extremos políticos tanto à esquerda como à direita precisam do racismo como de pão para a boca, ou já ninguém recorda o caso do Arrastão?

11
Jan19

Europeias 2019: o início de uma Europa populista?

Flávio Gonçalves

Europa.jpgVoteWatch divulgou anteontem a sua projecção mais recente quanto às eleições Europeias de 2019, estimando que os eurodeputados nacionalistas, neo-fascistas, neo-nazis, populistas de direita e derivados venham a obter cerca de 25% dos assentos do Parlamento Europeu, tornando-se na segunda maior força.

 

Não deixa de ser curioso que uma estrutura pensada para unir a Europa e evitar novas guerras e ressurgimentos fascistas após 1945, esteja na prática a servir como plataforma para os mesmos e, a este ritmo, corremos o risco de um dia vir a ter um Parlamento Europeu com uma maioria absoluta de extrema-direita e, quiçá, uma Comissão Europeia que acabe por democraticamente impor o que em 1945 as armas não conseguiram.

 

Claro está que a natureza dos nacionalismos da direita europeia evitam que a médio prazo sejam uma ameaça, pois existe uma enorme hostilidade entre os eurogrupos parlamentares populistas das várias nações europeias e dificilmente chegarão a acordo entre si (por norma chegam a acordo com conservadores e liberais nas suas respectivas nações, e certamente manterão a tendência no Parlamento Europeu). 

 

Na realidade serão mais de 25% dos eurodeputados, uma vez que a VoteWatch se cingiu aos partidos que integram eurogrupos parlamentares reconhecidamente de extrema-direita e olvidou de incluir nesta estimativa outros populistas e nacionalistas da Hungria, Dinamarca e Finlândia (que me ocorrem de cor, certamente existem mais) que estão integrados no Partido Popular Europeu e noutros eurogrupos centristas. 2019 aparenta mesmo ser um ano de viragem para a política europeia, mantendo-se para já Portugal como única excepção após o sucesso do Vox em Espanha.

 

A imprensa portuguesa aparentemente bem se tem esforçado para criar um ambiente propício ao florescimento de um partido populista nas lusas terras, mas para já sem grande sucesso. A ver vamos qual será a popularidade de André Ventura, pessoalmente - como efectuei com Marinho e Pinto - já ando a firmar apostas de almoços e jantares em como, dada a natureza do eleitorado português, não irá conseguir eleger nem um único deputado. A ver vamos.

14
Nov18

Revista académica para ideias polémicas?

Flávio Gonçalves

 

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Noticiou-se há dias que vários académicos de todo o mundo se preparam para lançar uma nova revista que tem a peculiaridade de permitir que os ensaios publicados sejam anónimos. A dar a cara por este novo projecto está Jeff McMahan, professor de Filosofia Moral na Universidade de Oxford. Diz ele que o clima hoje em dia, tanto dentro como fora das universidades, impõe demasiada auto-censura e assim os ilustres e desconhecidos estudiosos poderão publicar os seus ensaios e estudos sem receio de perseguição.

 

Nesrine Malik já reagiu negativamente nas páginas do Guardian, pela minha parte estou extremamente curioso, afinal que raios irão publicar ali de tão polémico que já não tenhamos visto no Canal História ou em revistas académicas como as Mankind Quarterly, Journal of Social, Political, and Economic Studies e Journal of Indo-European Studies, todas pagas pelo famoso Pioneer Fund (resquício da World Anti-Communist League) e todas ainda em publicação.

 

Por exemplo, num dos exemplares do Journal of Social, Political, and Economic Studies que tive a oportunidade de consultar recordo carinhosamente um ensaio onde se dedicavam a explicar a crise económica em Itália, Grécia e Portugal com base em estudos de Quoficiente de Inteligência e factores genéticos dos cidadãos da Europa do Sul quando comparados com os da Europa do Norte... (não sei se os neo-nazis portugueses leem estas revistas genuinamente neo-nazis, mas talvez devessem).

 

É mais provável que estes académicos anónimos queiram publicar os seus estudos e ensaios polémicos em revistas que não tenham laços já conhecidos a estudos craniais e eugénicos ou a maluquinhos dos OVNIs. Aparentemente vão publicar ensaios que irão irritar tanto à esquerda como à direita, pela minha parte tenho curiosidade, é quase certo que pelo menos o primeiro número devo comprar. Se souber como, afinal, a coisa é tão anónima que nem o título da revista divulgaram...

11
Nov18

Exército Europeu? Ontem já era tarde!

Flávio Gonçalves

Embora discorde por completo das razões apontadas por Macron (a meu ver a Rússia não é ameaça para a Europa desde o fim da URSS, é até provavelmente um parceiro militar e comercial mais fiável que os EUA), concordo em absoluto que a Europa precisa do seu próprio Exército, não só precisamos de um Exército como urge delinearmos também uma política externa própria (alheia aos interesses que nos impingem dos EUA, entenda-se) e outras miudezas como a criação do Estado Social Europeu antes que União Europeia imploda de vez (sim, a federalização da Europa). Ainda sobre a minha discordância para com a argumentação de Macron, diz ele que a Rússia é que é a ameaça, contudo quem não gostou da ideia da Europa criar um Exército foram os EUA...

06
Nov18

Chegou o "Polígrafo"

Flávio Gonçalves

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Ainda há dias desabafava no Twitter que hoje em dia a imprensa já nem cumpre com os cinco preceitos base do jornalismo de qualidade: Quem? O quê? Quando? Onde? Porquê? Preocupa-me a frequência cada vez maior de notícias alarmistas e de teor duvidoso na comunicação social portuguesa, e não me refiro apenas à dezena ou mais de portais de notícias falsas para os quais o Diário de Notícias já nos alertou, refiro-me mesmo àquelas que saem na imprensa dita "de referência". Pois bem, acabou de chegar ao mercado um novo jornal digital, o Polígrafo, que se assume como "o primeiro jornal português de fact-checking". Estou extremamente curioso, pela amostra que já li promete ser algo promissor e inovador ao efectuar uma tarefa que antes era obrigatória em todas as redacções, a de confirmar os factos por trás das notícias!

 

É que pessoalmente irritam-me "notícias" como a das diferenças de ordenado entre géneros em Portugal, só para mero exemplo de tema que até já foi abordado aqui neste blogue numa perspectiva correcta - caso se prove ser factual a dita notícia. É que caso julgue não ser necessário um jornal que publique factos, permita-me pedir que recorde o que afirmei no primeiro parágrafo: Quem? O quê? Quando? Onde? Porquê? O dito estudo divulgado na imprensa não menciona nem áreas geográficas nem as ditas carreiras onde ocorre a dita diferença de ordenados. São as mulheres e os homens da limpeza? São os bancários e as bancárias? Os professores e as professoras? Caixas de supermercado? Vigilantes? São os profissionais liberais (que na verdade nem deviam entrar nestas contas)? Quem? Onde?

 

Estes estudos atirados assim para o ar sem dados concretos com os quais as pessoas se identifiquem no mundo real, acumulados levam ao descrédito da imprensa e depois, PUM, olha um Bolsonaro eleito por milagre, mêdeus, como é que isto aconteceu? Portanto, o Polígrafo promete vir a dar que falar e espero vê-lo continuar a escrutinar muitas das "notícias" e afirmações erróneas que pululam um pouco por todo o lado na imprensa portuguesa, como constatamos logo numa primeira visita.

03
Nov18

Sólo fértil para a direita radical

Flávio Gonçalves

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Como realcei anteriormente, as eleições no Brasil fizeram com que me apercebesse de uma realidade portuguesa que estava mesmo aqui à tona (nas redes sociais e caixas de comentários dos jornais), mas que ignorava e que, aparentemente, a esquerda portuguesa também parece ignorar - embora seja tão analítica no caso brasileiro.

 

Houve algum destaque para os comentários de Manuel Alegre, em cuja campanha presidencial colaborei, quanto à tauromaquia, mas os críticos aparentam não compreender que Alegre não se referia meramente às touradas, a sua afirmação sobre "este tipo de intolerância" criar Bolsonaros dirigia-se a uma esquerda surda e histérica, moralista das causinhas minoritárias que só interessam a 0,1% da população, que teima em persistir no seu erro.

 

Alegre, como Costa, Corbyn, Zizek e outros - menos do que seria de esperar - sentem sobre si a responsabilidade política e a memória histórica da esquerda não-histérica, e esta responsabilidade passa por ter o sangue frio necessário para compreender porque é que o centro-esquerda está a perder votos para a extrema-direita em todo o mundo. Ou terei sido o único a comparar os resultados eleitorais de ano para ano e a notar no padrão de que onde os partidos socialistas perderam votos, estes migraram para os populistas?

 

Os Bolsonaros não surgem de um momento para o outro sem um solo fértil, e quando lemos disparates como os de Rui Pena Pires, alertando que "Portugal precisa desesperadamente de imigrantes para combater falta de mão-de-obra", não precisamos de ser licenciados em Sociologia para compreender que com uma taxa de desemprego nos 7%, este tipo de afirmação é mais um alarmismo a favor do solo fértil para cá surgir um Bolsonaro ou uma Le Pen. As vagas que estão por preencher precisam é de ORDENADOS DIGNOS, não precisam de escravizar imigrantes!

 

A esquerda histérica bem pode preocupar-se com as causas de 0,1% da população, mas a esquerda séria, estatal, democrática, plural e trabalhista tem que se preocupar muito mais com os 90% da população cuja principal preocupação é chegar ao fim do mês com dinheiro para comer, pagar as contas e o empréstimo. Ou como digo sempre, leiam menos Soros e mais Zizek! Menos teoria e mais realismo prático e pragmático!

31
Out18

Luso-bolsonaristas, ei-los que surgem!

Flávio Gonçalves

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Fico um pouco apreensivo com este ambiente que a febre bolsonarista me fez detectar em Portugal, mas aparentemente os meus camaradas de partido e companheiros de viagem ideológica estão cegos para o que está mesmo à sua frente...

E não creio que se possam culpar as redes sociais, é mesmo a cegueira dos nossos políticos e um foco constante, negativo e desproporcional na imprensa, que ao longo da última década passou de redacções repletas de jornalistas de esquerda a redacções propriedade de capitalistas ligados aos partidos de direita que despediram os jornalistas (não só os de esquerda) e as encheram com criadores de conteúdos e estagiários curriculares.

E se a esquerda lusa se mantém cega para o que está mesmo à sua frente (aparentemente não saem da sua bolha algorítmica nas redes sociais nem leem os comentários dos leitores nas páginas dos vários jornais) já a direita aparenta estar atenta, depois de André Ventura já Santana LopesPaulo Portas vieram em socorro da respeitabilidade de Bolsonaro. São tempos perigosos estes, embora se tornem cada vez mais interessantes.

Sim, tem-nos safado o clubismo político que mantém o eleitor fidelizado aos PS e PSD, mas tal como o BE e o PAN surgiram e subiram, um dia destes surge-nos um populista aglutinador ou, suspeito, uma das personagens que já conhecemos, qual Bolsonaro que já anda na política brasileira há décadas, reinventa-se como anti-sistema e capta todo esse descontentamento e desconfiança! Duvido, mas já não o nego.