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O Coletivo

01
Mar19

Can You Ever Forgive Me?

Francisco Chaveiro Reis

Lee Israel (1939-2014) foi uma escritora norte-americana com alguns pontos altos na carreira. Mas tornou-se conhecida pelo seu ponto mais baixo: a falsificação e venda de cartas de escritores famosos. É esse ponto baixo que a, até aqui, entediante comediante (não que não tenha piada mas o mesmo papel ad eternum, cansa) Melissa McCarthy retrata. Num papel que lhe valeu a nomeação para o Óscar de Melhor Atriz, McCarthy mostra Israel como sendo alguém que gostava de manter a distância de todos os seres vivos à exceção da sua gata; que tinha uma relação distante com a higiene e próxima com o álcool e cujo único interesse parecia ser o de escrever biografias, mais por medo de expor a sua voz do que por real vocação. Numa altura em que já ganhou algum dinheiro com a sua nova actividade, Israel conhece o prostituto inglês Jack Hock (Richard E. Grant), que se torna no seu único amigo e no seu cúmplice, expondo um lado mais carinhoso de Israel que com o esquema, acabou por se mostrar uma exímia escritora, absorvendo quase todos os tiques da escrita de nomes maiores da literatura. E se Isarel viveu nestes tempos os seus dias mais felizes, esta é a interpretação mais feliz da carreira de McCarthy.

05
Nov18

Freddie como nunca o viu

Francisco Chaveiro Reis

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Depois de ler críticas que esmagavam o filme, fui ver Bohemian Rapsody com cautela e apreensão. Até aqui, tinha visto as fotografias de Malek como Mercury e tinha ficado espantado. Tinha visto o trailer, que ainda mais água na boca me fez. Não tirando o mérito do conhecimento aos críticos, a verdade é que gostei muito do biopic de Freddie Mercury e dos seus Queen e que me parece que Malek é um ótimo Mercury. Se tenho curiosidade de ver Sacha Baron Cohen na pele de Mercury? Sim. Se gostava de ver uma versão mais crua da vida dos Queen? Sim. Se a versão que temos disponível falha redondamente? Não. Bohemian Rapsody é uma homenagem a Mercury, conta uma história da grandeza dos Queen e de como os outros três elementos não eram apenas ornamentais e fá-lo de forma subtil, não esfregando o consumo de droga ou as orgias na nossa cara, sendo quase um filme de família sobre uma das bandas da primeira divisão do Olimpo do rock. E isso não tem mal algum.

 

Rami Malek mostra-nos um Freddie Mercury ainda à procura da sua identidade mas com a certeza de que era diferente e dono de um talento vocal único. Adolescente, conhece Brian May (Gwilym Lee) e Roger Taylor (Bem Hardy) e com a inclusão de John Deacon (Joseph Mazzello, o “puto” do primeiro Jurassic Park) acabam por nascer os Queen. É já como artistas reconhecidos que o filme nos mostra um dos segmentos mais interessantes do filme, quando nasce, numa quinta remota, o álbum/obra-prima A Night at the Opera. A cumplicidade, o génio e os métodos pouco ortodoxos são um mimo para os fãs de música. O fim, com a atuação de uma vida num Wembley repleto por altura do Live Aids de 1985 é outro ponto alto, pela mística e pela reconstituição perfeita do mítico estádio. Pelo meio, Freddie, o homem. O homem que se quer distanciar da família que não o entende; que se apaixona e casa com uma mulher e vai percebendo que tem outra preferência; o homem de excessos sexuais, narcóticos e alcoólicos e o homem à beira do fim que quer deixar a sua marca. Que me perdoem aqueles que sabem que a música A não foi composta naquele ano ou que Freddie não tinha bigode no concerto B mas eu gostei. Muito.

01
Nov18

1964, hoje

Francisco Chaveiro Reis

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Dr. Estranhoamor (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb), filho da mente genial de Stanley Kubrick, nascido em 1964, é um dos filmes mais atuais que conheço. Nele, temos o não menos genial Peter Sellers (o da Pantera Cor de Rosa) a fazer três papéis centrais numa trama que anda à volta da Guerra Fria e da guerra atómica (faz parte da história do cinema a cena em que a bomba é cavalgada). Um dos papeis é Dr. Strangelove, um nazi reformado cujos olhos brilham na expetativa do uso da bomba atómica. No filme, a democracia é posta em segundo plano e poucos têm um enorme poder militar. Ring a bell?