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O Coletivo

02
Nov18

Há Moro na costa

João Ferreira Dias

A escolha de Sérgio Moro para ministro da Justiça, tem sido interpretada, como sinal de vontade política de limpar a corrupção do Brasil, por parte do eleitorado de Bolsonaro, o qual vê no juiz responsável pela operação Lava-Jato e pela prisão de Lula um justiçeiro. O problema é que tendo sido uma prisão muito pouco transparente, sustentada numa suposta posse de um triplex que vem sendo mencionada desde a década de 1980, e numa altura em que o ex-presidente se posicionava para uma nova eleição, esta nomeação tem o condão de parecer uma gratificação pelos serviços prestados. Com efeito, esta leitura pode estar hiperbolizada por uma desconfiança, mas não deixa de ser válida, quando olhamos as escolhas ministeriais que já vão sendo mencionadas. Como o deputado federal Onyx Lorenzoni, que admitiu ter recebido suborno e que chefiará a Casa Civil. 

31
Out18

A evolução do discurso Bolsonaro

Francisco Chaveiro Reis

 

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Tendo tão distintivos companheiros de blogue nem me atrevo a supor que posso acrescentar algo ao debate Bolsonaro mas trabalhando em comunicação não resisto a partilhar esta bela matéria da revista Piauí. Nela vemos a evolução (sim, podemos usar Bolsonaro e evolução na mesma frase) do discurso do Presidente eleito (custa escrever) do Brasil. Percebemos que o discurso vai suavizando o que dá uma certa ideia de que, como Trump, nem tudo deve ser levado à letra. Será Bolsonaro apenas mais uma piada sem graça ou vai de facto ser o ditador que promete?

31
Out18

Luso-bolsonaristas, ei-los que surgem!

Flávio Gonçalves

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Fico um pouco apreensivo com este ambiente que a febre bolsonarista me fez detectar em Portugal, mas aparentemente os meus camaradas de partido e companheiros de viagem ideológica estão cegos para o que está mesmo à sua frente...

E não creio que se possam culpar as redes sociais, é mesmo a cegueira dos nossos políticos e um foco constante, negativo e desproporcional na imprensa, que ao longo da última década passou de redacções repletas de jornalistas de esquerda a redacções propriedade de capitalistas ligados aos partidos de direita que despediram os jornalistas (não só os de esquerda) e as encheram com criadores de conteúdos e estagiários curriculares.

E se a esquerda lusa se mantém cega para o que está mesmo à sua frente (aparentemente não saem da sua bolha algorítmica nas redes sociais nem leem os comentários dos leitores nas páginas dos vários jornais) já a direita aparenta estar atenta, depois de André Ventura já Santana LopesPaulo Portas vieram em socorro da respeitabilidade de Bolsonaro. São tempos perigosos estes, embora se tornem cada vez mais interessantes.

Sim, tem-nos safado o clubismo político que mantém o eleitor fidelizado aos PS e PSD, mas tal como o BE e o PAN surgiram e subiram, um dia destes surge-nos um populista aglutinador ou, suspeito, uma das personagens que já conhecemos, qual Bolsonaro que já anda na política brasileira há décadas, reinventa-se como anti-sistema e capta todo esse descontentamento e desconfiança! Duvido, mas já não o nego.

29
Out18

Está Portugal imune a um Bolsonaro?

João Ferreira Dias

As eleições brasileiras têm de soar o alarme de forma estridente. Não apenas pela virada ideológica que representam, mas pela forma como foi possível eleger um candidato de extrema-direita graças a uma task force entre os meios de comunicação social conservadores, as igrejas evangélicas e uma fortíssima manipulação do eleitorado pelas redes sociais, através de uma fabricação e difusão brutal de fake news, um grave crime eleitorado extremamente difícil de mapear e controlar. Tudo junto, foi capaz de gerar um clima de histeria que produziu uma onda irracional junto de um eleitorado escolarizado e informado, mas que não é imune a uma manipulação mediática bem articulada. Este fenómeno será capaz de incentivar os movimentos de extrema-direita, em emergência por todo o mundo, a realizarem aguerridas campanhas de manipulação do eleitorado conservador e permeável. E se acharmos que no sossego dos nossos lares europeus estamos imunes à vitória de um candidato homofóbico, racista, misógino e pró-ditadura, então andamos a descansar na almofada em demasia, desvalorizando o poder da manipulação. Se nos dermos ao trabalhos de ler as caixas de comentários dos jornais, em particular nas suas páginas oficiais no Facebook, teremos de lidar com o horror de ver o número elevado de portugueses favoráveis ao discurso de Bolsonaro, numa onda anti-vermelho, como se o perigo comunista pairasse no ar. Portanto, Portugal não é um paraíso democrático anti-fascista, é um país onde o fascismo está no armário, como estava no Brasil. O que falta é uma figura carismática e um grupo de interesses na sua eleição. Até lá estamos descansados, mas não podemos dormir, porque a democracia é frágil e precisa ser defendida a cada instante. 

28
Out18

Hillary e Lula, equívocos de timming

João Ferreira Dias

A poucas horas de vermos o Brasil se tornar um país que elegeu um presidente assumidamente homofóbico, racista, misógino e fascista, uma última consideração sobre o processo de suicídio do PT. Quando o Partido Democrata decidiu ignorar o apelo do seu eleitorado e de importantes figuras do partido, varrendo Bernie Sanders para debaixo do tapete, para apresentar Hillary Clinton como candidata a Presidente dos Estados Unidos, partiu do erróneo princípio de que o eleitorado democrata seguiria em massa a escolha. Não tomou em conta a perceção generalizada de que Hillary se apresentava como a candidata dos interesses de Wall Street, dos vícios do poder político e das suas promiscuidades com o poder económico. Em consequência disso, levou uma valente tareia, pois uma parte do seu eleitorado, confiante que uma figura como Trump jamais seria eleito, votou no atual presidente dos EUA como protesto contra o autismo do Partido Democrata. As consequências políticas foram as que conhecemos. 

Similar erro cometeu o PT. Mergulhado num clima de suspeição -- com uma imprensa que gritou os escândalos de corrupção do seus deputados e outros membros e que falou baixo da corrupção dos demais partidos --, o PT, em toda a sua arrogância de quem está no poder, insistiu em manter como candidato presidencial Lula da Silva. Ainda que esteja inocente, não é democraticamente saudável nem politicamente sustentável apresentar um candidato nestas circunstâncias. No estado atual, caberia ao PT ter apresentado desde logo Fernando Haddad como candidato e ter defendido, de forma clara e transparente, a investigação interna e a reforma partidária. Construir um novo PT em torno de Haddad, valorizando os méritos do passado e apontando o dedo e punindo os erros também, teria valido ao partido uma outra confiança popular. Os erros estratégicos pagam-se caro. E o PT sacrificou a Democracia em nome de uma dinâmica interna típica dos partidos comunistas. 

28
Out18

Na véspera do Apocalipse brasileiro

Flávio Gonçalves

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Admito ter sido dos menos alarmados com a ascensão de Jair Bolsonaro nas eleições brasileiras, pessoalmente sempre julguei que na segunda volta estariamos agora a decidir entre Ciro Gomes (a opção que ideologicamente mais me agrada) e Fernando Haddad. Mesmo após a derrota de Ciro, não me incomodou sobremaneira as notícias sobre Bolsonaro, já trabalhei em jornais e estou familiarizado com os exageros do clic bait.

Alarmei-me tardiamente, só quando este apareceu num discurso aos seus apoiantes a ameaçar a futura oposição de esquerda "com a prisão ou o exílio" é que assumiu ao que vem, falou da esquerda de modo geral, não falou dos marginais ou dos "corruptos" petralhas, e o seu eleitorado nem assim vacilou, tanto é que já me mentalizei que muito provavelmente será ele o próximo presidente do Brasil.

A meu ver existem vários factores a colaborar para o desaparecimento do centro-esquerda a nível mundial, mas no caso do Brasil há um desfasamento assustador entre a intelectualidade de esquerda e os anseios dos brasileiros comuns, cansados de crime, fome e insegurança, os meus camaradas no lado oposto do Atlântico não compreenderam que quanto mais sairam à rua, quanto mais protestaram histericamente, mais Bolsonaro subiu nas intenções de voto? 

Estando numa árvore provavelmente não conseguiam vislumbrar a floresta, deste lado também Jorge Almeida Fernandes deu pelo grave erro táctico. Só nos resta aguardar e pensar no combate daqui a quatro anos, isto se houver eleições daqui a quatro anos... seja qual for o resultado, será mais por desmérito da esquerda do que por mérito do bolsonarismo!

25
Out18

Abstenção Cristas

João Ferreira Dias

 

A propósito das eleições brasileiras, cuja votação da segunda volta decorrerá este domingo, a líder do CDS-PP, Assunção Cristas declara que se estivesse na condição de eleitora optaria pela abstenção, um verdadeiro pecado para uma mulher católica. Poderia invocar, aqui, a frase de Martin Luther King sobre o silêncio dos bons, mas nem creio que seja o caso. O que temos é muito mais revelador e perigoso. Das duas uma, ou Cristas não tem consciência do que está em causa com estas eleições brasileiras, colocado o país nos extremos entre a ditadura e a democracia, o que é uma falha enquanto líder de um partido elegível e possíveis relações diplomáticas, ou então sabe perfeitamente o que se está a passar e é simpatizante dos populismos de extrema-direita que estão em curso nas mais variadas geografias. Seja qual for o caso, Cristas sai sempre mal na fotografia. 

23
Out18

Impugnar a candidatura de Bolsonaro?

João Ferreira Dias

Se acho Bolsonaro uma criatura abjecta? Sim. Se acho que a sua ascensão representa um perigo grave para a frágil democracia brasileira? Sim. Se acho que o seu discurso sempre foi claro e que este deveria ter sido travado muito antes de ganhar o relevo que ganhou ? Sim. Se acho que deve ser afastado, neste momento, das eleições por esse mesmo discurso? Não. Não apenas porque seria entendido uma medida desesperada do eleitorado do PT, como ainda um ato político que agravaria de forma incontrolável a situação, abrindo as hostilidades para a guerra civil.