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O Coletivo

02
Jun19

Eleições: dois desejos e uma sugestão

Flávio Gonçalves

Tenho um desejo utópico para as próximas eleições, que a imprensa e televisões escrutinem e nos expliquem os programas eleitorais dos partidos, que os cidadãos sejam finalmente elucidados quanto ao poder e repercussão do seu voto, que os jornalistas dos jornais, revistas e televisões informem os eleitores em vez de especular com um populismo que cá não pega.

Tenho um desejo distópico para as próximas eleições, e já o tenho defendido ao longo dos anos em vários artigos de opinião tanto na imprensa açoriana como portuguesa: torne-se o voto obrigatório e penalize-se quem não vá votar com uma multa simbólica de 20€, se querem protestar o regime que votem nulo ou em branco, se lhes é indiferente que paguem o preço dessa indiferença uma vez que ao longo de séculos muitos morreram pelo seu direito a votar.

Tenho uma sugestão democrática para as próximas eleições, atribuir meio dia de folga sem perda de rendimentos a todo o cidadão que vá votar. Um incentivo realista e democrático, mais que esperar que os jornalistas façam o seu trabalho ou que o governo torne o voto em obrigatório. É uma alteração legislativa simples, embora descreia que o meu partido (PS) e o outro (PSD) a apliquem dado o risco que esse novo eleitorado poderá constituir a votar em massa em pequenos partidos extraparlamentares e a irritação que pagar meio dia e subsídio de almoço aos trabalhadores constituirá para o patronato luso, cuja mentalidade esclavagista rivaliza mesmo com a dos empresários dos EUA.

05
Nov18

(Des)convite à extrema-direita

Rúben Gomes

 

A pouco mais de seis meses das Eleições Europeias o Ifop divulgou uma sondagem sobre as mais recentes tendências de voto em França. 
A LREM, coligação entre o Republicains en Marche, de Emmanuel Macron e Modem, movimento democrático de Alain Bayrou, situa-se em meros 19%. Á sua frente já se encontra a Rassemblement Nacional (actual designação da Frente Nacional), liderada por Marine Le Pen, com 21%. Uma subida de 4% face à sondagem prévia.
Importa debruçar-nos sobre isto no dia em que começa a Web Summit, evento que desconvidou Marine Le Pen após a mossa gerada com o convite inicial. Ignorar ou hostilizar a extrema-direita não é solução, contudo há que considerá-la com mais lucidez, seriedade e prudência e menos histrionismo.
Ostracizar quem nos discorda, agindo ao arrepio do que está plasmado nas constituições dos Estados democráticos não costuma augurar os melhores desfechos. Se esta tendência não for revertida, receio chegar a Maio e dizer "se isto aconteceu não foi por falta de aviso"...

01
Nov18

O futuro celta

Rúben Gomes

 

Na passada semana não foi só a democracia brasileira que esteve em jogo. Houve também eleições na região alemã de Hesse, na república caucasiana da Geórgia e na República da Irlanda. No caso irlandês, foram duas as votações: a do referendo de revogação do crime de “blasfémia” e as eleições presidenciais.

A jornada eleitoral irlandesa, que decorreu na sexta-feira e teve os seus resultados oficiais divulgados durante o fim-de-semana, contou com uma participação de apenas 44% dos 3,2 milhões de eleitores inscritos. Um problema de abstenção maior que o nosso (nas últimas eleições presidenciais, em Janeiro de 2016, a taxa de participação foi de 48,66% do eleitorado).

Embora muitos irlandeses desconhecessem o delito de “blasfémia”, este constava na Constituição nacional, prevendo multas até 25.000 euros. Com 65% de votos favoráveis e 35% contra, a sua revogação vem no seguimento de um debate público onde unanimemente, nos partidos políticos, nos diversos sociais e até na Igreja Católica, se considerou a blasfémia um conceito anacrónico, não havendo razão para existir.

O resultado obtido no referendo fomenta uma Irlanda mais secular e de maior compaixão, sendo este um país devotamente católico. Paulatinamente a Irlanda caminha rumo a Estado mais laico, moderno e liberal, havendo uma série de conquistas, também obtidas por via de referendo, que marcaram o país nos últimos anos. Em 1996, numa votação renhida, com 50,28% de votos a favor, legalizou-se o divórcio; em 2015, aprovou-se a legalização do casamento homossexual, com 62,1% dos votos; e, ainda este ano, em Maio, a interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas, com 66,4% de votos a favor. Para breve, a aguardar marcação, está um referendo para a revogação da cláusula da Constituição que refere que o lugar da mulher é no lar. Ainda bem que o sufrágio decorrerá na Irlanda e não no Brasil (peço desculpa pela comparação, mas não resisto…), pois se fosse lá o resultado que é esperado naquela ilha europeia possivelmente seria outro.

A outra votação – a das eleições presidenciais – confirmou a reeleição do veterano líder trabalhista, Michael Higgins, com 56% dos votos, tal como já indicavam as sondagens. Aos 77 anos, era o candidato natural do “sistema”, tendo sido apoiado nestas eleições pelo Fine Gael, Fianna Fáil, Partido Trabalhista, entre outros partidos de esquerda e centro-esquerda. Antigo ministro da Cultura e chefe de Estado desde 2011, Higgins acompanhou a recuperação da Irlanda da crise económica, tendo expressado amiúde uma eloquente mensagem de optimismo e esperança ao seu povo.

Infelizmente a campanha para as presidenciais não foi lustrosa, pois o que se verificou foram os candidatos oponentes a Michael Higgings – Peter Casey ou Liadh Ni Riada, por exemplo – a cingirem as suas exposições públicas a críticas mesquinhas ao alegado despesismo do seu adversário, ao invés de debaterem questões relevantes como alterações climáticas, inclusão social, belicismos ou a sustentabilidade da economia.

Agora que a eleição está ganha, Higgins, que no seu discurso de vitória afirmou a sua pretensão de cumprir o mandato com humildade, deve continuar a fazer as suas viagens de Dublin a Belfast de avião, contudo deve optar pela Ryanair. É mais económico, apoia uma empresa do seu país e está em contacto directo com o seu povo. Se tiver dificuldades em fazê-lo pode ligar ao seu congénere Marcelo (também a braços com o mesmo problema após a sua presidência ter gasto meio milhão de euros em horas extraordinárias), que este explica-lhe efusiva e desveladamente como o fazer.