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O Coletivo

06
Mar19

O Portugal que até existe

João Ferreira Dias

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Quando Joana Gorjão Henriques levantou, e muito bem, o véu do racismo em Portugal houve uma onda de reação puritana escandalizada. Uma mesma franja social alargada que mandou Mamadou Ba para a sua terra e que considera que a questão dos direitos lgbti são uma ditadura das minorias sobre uma maioria "tradicional", uma espécie de Portugal tecido na memória do Estado Novo, dos "bons costumes" e da decência. Ora, é aqui que tudo fica mais claro: a noção de sobreposição da maioria sobre a minoria, com supressão da última, é o pano de fundo do fascismo, não da Democracia. É bom que tenhamos isso presente. 

03
Mar19

Deus no Céu, Juízes na Terra

Rúben Gomes

A polémica em torno do juiz desembargador Neto de Moura era inevitável. Se não acontecesse agora e com ele seria noutro momento e com outro juiz. Este caso reflecte um sector que passou praticamente incólume à Revolução de Abril, onde uma enormidade de indivíduos com dificuldade em respeitar a liberdade dos outros não foi devidamente saneada. Esses indivíduos são juízes que gozam de estatuto especial advindo da separação de poderes democrática, onde o executivo e o legislativo não se podem imiscuir no judicial, não tendo ninguém acima deles que lhes limite o poder.
Neste contexto existe um juiz que age de acordo com o Código Penal de 1886, em sintonia com as suas convicções pessoais, defendendo tacitamente o apedrejamento de mulheres adúlteras e protegendo os seus agressores.
Displicente para com a violência doméstica, peca pela falta de acção. Porém, a acção que não tem enquanto profissional tem enquanto cidadão melindrado com os fazedores de opinião pública, incomplacentes com a sua inépcia, decidindo processá-los. 
O tumulto que o caso gerou gerou mais não deu do que uma simples advertência do Conselho Superior de Magistratura. Uma forma de impunidade que respalda os membros de uma classe profundamente corporativa que age na forma do seu umbigo.
Atendendo a esta infortuna realidade não estou certo que Bruno Nogueira, Joana Amaral Dias, Ricardo Araújo Pereira e Mariana Mortágua serão absolvidos. Por muita democracia que aleguemos que haja no nosso país, a realidade é Deus no Céu e Juízes na Terra. É péssimo mas é o que temos.

 

22
Jan19

Racismo ou Luta de Classes?

Flávio Gonçalves

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Os eventos que testemunhamos esta semana irão certamente fazer correr muita tinta imprensa e blogosfera fora, contudo, como já alertei também aquando da acusação semelhante formulada contra uma esquadra da PSP na Amadora, é de lamentar que um pouco por todo o lado tentem explicar recorrendo ao racismo problemas de fundo que são uma questão de classe, não se trata da cor da pele, trata-se do facto de serem pobres e economicamente desprotegidos!

 

Ou seja, fosse um bairro degradado no norte do país, na Madeira ou nos Açores, ou até na capital se forem membros de uma qualquer tribo urbana, o tratamento policial teria sido exactamente o mesmo embora as vítimas fossem brancas. Eu sei que este tipo de discurso (vulgo a minha "crença ideológica num outro modelo de sociedade, muitas vezes assente no privilégio doutrinário"), como recordou Mamadou Ba, "não salva quem todos os dias é violentado com o racismo", mas comportamentos como o de ontem e uma generalização quanto ao comportamento das forças policiais são erros que em França, Itália e Estados Unidos catapultaram as forças populistas de extrema-direita.

 

Este tipo de agitação social se tivesse ocorrido em vésperas das eleições, fossem elas Europeias ou Legislativas, certamente que teriam tido grande proveito eleitoral por parte de arrivistas do populismo como André Ventura, pois os extremos políticos tanto à esquerda como à direita precisam do racismo como de pão para a boca, ou já ninguém recorda o caso do Arrastão?

03
Dez18

Bolsonaro e o Índio

João Ferreira Dias

Por estes dias, Jair Bolsonaro proferiu um discurso sobre os índios brasileiros, defendendo que estes não são animais, pelo que não deveriam estar em reservas naturais, qual jardim zoológico. Esta apologia da integração urbana e social dos índios, sob um aparente arauto dos direitos humanos, que muito deve agradar aos bolsominions, esconde um projeto maior: o desmatamento da floresta amazónica. Convém recordar que Bolsonaro, por diversas vezes, afirmou que com ele o índio não teria mais um milímetro de terras. Este discurso foi aplaudido pela "bancada do boi", i.e., pelos políticos eleitos para fazer prevalecer os interesses dos grandes produtores de gado. Todos esfregam as mãos de contentes com o livre-trânsito do governo Bolsonaro para a destruição do pulmão do Planeta, crentes que o grave problema das alterações climáticas é uma armadilha ideológica petista e comunista contra o mercado. Com efeito, os factos são contraditórios com esta afirmação. Em rigor, as reservas representam a derradeira possibilidade dos índios preservarem o seu modus vivendi. Neste aspeto, como noutros, Bolsonaro incorpora o cowboyzeco do Oeste Selvagem, numa luta pela civilização da América contra os demónios indígenas. 

05
Nov18

(Des)convite à extrema-direita

Rúben Gomes

 

A pouco mais de seis meses das Eleições Europeias o Ifop divulgou uma sondagem sobre as mais recentes tendências de voto em França. 
A LREM, coligação entre o Republicains en Marche, de Emmanuel Macron e Modem, movimento democrático de Alain Bayrou, situa-se em meros 19%. Á sua frente já se encontra a Rassemblement Nacional (actual designação da Frente Nacional), liderada por Marine Le Pen, com 21%. Uma subida de 4% face à sondagem prévia.
Importa debruçar-nos sobre isto no dia em que começa a Web Summit, evento que desconvidou Marine Le Pen após a mossa gerada com o convite inicial. Ignorar ou hostilizar a extrema-direita não é solução, contudo há que considerá-la com mais lucidez, seriedade e prudência e menos histrionismo.
Ostracizar quem nos discorda, agindo ao arrepio do que está plasmado nas constituições dos Estados democráticos não costuma augurar os melhores desfechos. Se esta tendência não for revertida, receio chegar a Maio e dizer "se isto aconteceu não foi por falta de aviso"...

02
Nov18

Há Moro na costa

João Ferreira Dias

A escolha de Sérgio Moro para ministro da Justiça, tem sido interpretada, como sinal de vontade política de limpar a corrupção do Brasil, por parte do eleitorado de Bolsonaro, o qual vê no juiz responsável pela operação Lava-Jato e pela prisão de Lula um justiçeiro. O problema é que tendo sido uma prisão muito pouco transparente, sustentada numa suposta posse de um triplex que vem sendo mencionada desde a década de 1980, e numa altura em que o ex-presidente se posicionava para uma nova eleição, esta nomeação tem o condão de parecer uma gratificação pelos serviços prestados. Com efeito, esta leitura pode estar hiperbolizada por uma desconfiança, mas não deixa de ser válida, quando olhamos as escolhas ministeriais que já vão sendo mencionadas. Como o deputado federal Onyx Lorenzoni, que admitiu ter recebido suborno e que chefiará a Casa Civil. 

31
Out18

Luso-bolsonaristas, ei-los que surgem!

Flávio Gonçalves

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Fico um pouco apreensivo com este ambiente que a febre bolsonarista me fez detectar em Portugal, mas aparentemente os meus camaradas de partido e companheiros de viagem ideológica estão cegos para o que está mesmo à sua frente...

E não creio que se possam culpar as redes sociais, é mesmo a cegueira dos nossos políticos e um foco constante, negativo e desproporcional na imprensa, que ao longo da última década passou de redacções repletas de jornalistas de esquerda a redacções propriedade de capitalistas ligados aos partidos de direita que despediram os jornalistas (não só os de esquerda) e as encheram com criadores de conteúdos e estagiários curriculares.

E se a esquerda lusa se mantém cega para o que está mesmo à sua frente (aparentemente não saem da sua bolha algorítmica nas redes sociais nem leem os comentários dos leitores nas páginas dos vários jornais) já a direita aparenta estar atenta, depois de André Ventura já Santana LopesPaulo Portas vieram em socorro da respeitabilidade de Bolsonaro. São tempos perigosos estes, embora se tornem cada vez mais interessantes.

Sim, tem-nos safado o clubismo político que mantém o eleitor fidelizado aos PS e PSD, mas tal como o BE e o PAN surgiram e subiram, um dia destes surge-nos um populista aglutinador ou, suspeito, uma das personagens que já conhecemos, qual Bolsonaro que já anda na política brasileira há décadas, reinventa-se como anti-sistema e capta todo esse descontentamento e desconfiança! Duvido, mas já não o nego.

30
Out18

Sentiremos Falta da Srª Merkel

João Ferreira Dias

Nós que já fomos anti-merkelianos vamos viver um tempo, que já se anuncia, em que sentiremos a falta da ainda Chanceler alemã. Apesar dos namoricos de mercado e bancários da senhora, a mesma foi um tampão numa Alemanha a contas com o fantasma da história. A emergência dos fascismos reciclados e modernizados fará de Angela Merkel a derradeira figura democrática numa Europa a passos largos para o declínio. Convém não esquecer que a globalização já apresentou a sua fatura, e os desníveis sociais e económicos de coisas como a moeda única irresponsável trazem a reboque os radicalismos. Bolsonaro não se elegeu sozinho. Nem Viktor Orbán, entre outros.