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O Coletivo

27
Nov18

Sintoma de mar

Wesley Correia

                            caetano moreno zeca tom.jpg   

A convite de Gabriel Póvoas, fui à casa de Caetano Veloso após o show Ofertório, uma das apresentações mais afetivas que tive a oportunidade de ver e sentir. Isso porque Zeca, Caetano, Tom e Moreno, durante o show – e os imagino assim, também, fora dos palcos – dão vazão a uma espécie de Amor primordial que se nos derrama e comove a todos na plateia, Amor primordial e genuíno, feito canto mais sentido do sabiá-laranjeira a anunciar a manhã livre de todos os dias. De modo que ali, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, estavam mais que pai e filhos ou irmãos ou compadres, estava, sobretudo, a força dos muitos vínculos possíveis que, uma vez conjugados, resultam na cena de beleza arrebatadora. E compondo o sentimento dos Quatro, ali havia, muito nítida, a presença da bondade rara de Rodrigo Veloso, o desapego e a entrega típicos de quem se retroalimenta da luz que lançada ao alto faz fulgurar um Recôncavo profundamente didático, e havia o Corpo sacro-mnemônico-magnético de Gil, Bethânia e Gal em unidade sensível, havia mesmo a presença mansa de d. Canô, tão querida, com seu mistério translúcido e o inconfundível sorriso de ternura, sentadinha no palco a contemplar, Seo Zezinho. Chorei, algumas vezes, durante o show e rezei agradecido pela existência da arte, por suas figurações múltiplas que vão desde a possibilidade de sublimar os medos e abrigar sonhos até a capacidade de se constituir como meio significativo de resistência, por exemplo, à nociva manifestação do ódio que recrudesce no Brasil atual onde se tem tido a pachorra de associar museus à pedofilia, dentre outros anacronismos lamentáveis como o que culminou no assassinato de Mestre Moa do Katendê, idealizador do Afoxé Badauê. Rezei agradecido por nossa capacidade musical  e por Sophia linda, minha filha mais velha, de 11 anos, a quem eu ninava cantando “Oração ao tempo” enquanto supunha que se inscrevia em sua tenra memória um resíduo amoroso; por minha Esther, a segunda filha, de encantadores 8 anos, que me ouviu, desde o nascimento, entoar por noites e noites  (ainda hoje o faço quando sinto que ela está crescendo rápido demais) a canção de Gilberto Gil, “Meu amigo, meu herói”. Se tivéssemos o terceiro filho, como Gigi desejava, se chamaria Laura e adormeceria nos meus braços ao som de “Certas canções”, de Milton Nascimento. Me fosse dado escolher, eu optaria por passar todo o tempo ao lado delas, vivendo só para elas, fazendo vitamina de banana ou farofinha de ovo para Sol, que normalmente se impressiona com o sabor dos alimentos que lhe preparo, amparando Tether nas suas primeiras patinadas, brincando de bonecas com uma, auxiliando a outra nas atividades escolares, inventando-lhes muitos contos para dormirem e tendo o merecimento de ouvi-las dizer, ao final de uma tarde prismática, que “a cabeça de papai é um jardim onde florescem histórias”, disponível para acolhê-las sempre quando das suas inseguranças, lembrando-lhes de que nessa vida não há um único mal sem remédio, velar seu sono de paz. Já não tenho dúvidas de que minhas filhas, minha mulher, minha família, me propiciam a conexão com o Sagrado que habita em mim: núcleo assaz indissolúvel no qual a ventura mais íntima se resguarda. Talvez, por força dessa vivência particular, eu estranhe tanto o fato de um número expressivo de homens negligenciar recorrentemente a experiência da paternidade, ou seja, uma temeridade que só mesmo algo tão estúpido quanto a mentalidade machista seria capaz de legar às relações em sociedade. Salvo engano, é no making of do DVD “Tempo, Tempo, Tempo, Tempo”, que a câmera fecha em Maria Bethânia, no momento em que o coral da Igreja da Purificação canta a música “Ofertório” e a cantora pode ser vista em lágrimas. Nessa hora, meu saudoso Babalorixá Arlindo de Xangô, que a admirava com certa devoção, assim observava: “Wesley, ela chora em gratidão pelas coisas simples desta vida, chora em reverência por se saber amada, sentimento que dinheiro algum pode comprar.” E eu refletia em silêncio assim como faço agora, confiante na incrível capacidade que nos é dada de fortalecer as redes de afeto para não sucumbirmos ante as sombras. A casa de Caetano, no Rio Vermelho, permite uma visão singular da infinita Paciência, que sintoma de mar é espera. Foi ali, mirando a pele cintilante e eternamente movediça das águas deste Atlântico Sul, ali, sentindo vibrar na carne das águas da Paciência esta África mítica que nós, aqui dos trópicos, adoramos inventar, foi ali no fresco calor da rebentação que se interpôs entre Yemanjá e eu a imagem de minha mãe: a memória ligeira foi encontra-la na minha infância, em Cruz das Almas, retornando exausta de um dia inteiro de trabalho na fábrica de charutos, com sua anágua indefectível, seu lenço de cabeça, a paixão desmedida guardada no coração de operária, ouvindo ainda o apito da fábrica que suspendia a cidade com o agudo alucinante, que meu espírito traduzia como sinal da volta de minha mãe para perto de nós, minha mãe impregnada pelo cheiro da folha seca de fumo voltava, finalmente, para sua nossa casa e eu podia ter esperanças novamente. Minha mãe considera que Caetano foi ficando muito bonito com o passar do Tempo, a senhora que estava sentada atrás de mim, na Concha, cetamente acha o mesmo, tanto que reiterou a constatação muitas vezes durante o show. Em casa, Tom veloso nos recebeu ao Gabriel Povoas e a mim com muita gentileza. Sinto nele e no seu irmão Zeca Veloso um senso de retidão imenso, parecem sempre muito concentrados, ligados, para além da vinculação biológica, pelo amor à música que faz a vida valer a pena. Moreno Veloso porta uma pureza luminosa e é tão sereno que basta estar perto dele para sentir a leveza de sua presença como se ali confluíssem o carinho, a fé, a empatia e a capacidade de amar indistintamente; impossível estar ao lado dele e não se sentir tocado por seu espírito grandioso cheio da melhor e mais fina energia. Paula Lavigne é tenaz e bonita: Obá resplandece em seus olhos quando ela ajeita os belos cabelos prateados do amado, equilibrando-o em tudo, ou quando se preocupa em recepcionar tão gentilmente cada um dos convidados; Obá conhece o esforço dos empreendimentos dela, sabe que o êxito é seu merecimento. E Caetano é que é toda a delicadeza do mundo, bordada pelas mãos do vento ornado de mistérios prolongáveis. Quanta dignidade há neste homem, na sua vida pessoal, na sua carreira, na sua constante atualidade, no seu envelhecimento! Eu levei meu livro, “Íntimo Vesúvio”, com a esperança de entregar-lhe, mas me faltou coragem, não obstante tenha tido oportunidade de fazê-lo. Além da timidez excessiva, quase patológica, que o racismo me legou, tenho profundo respeito pela pessoa do artista – a quem a garantia do direito à vida particular é tantas vezes vilipendiada – e temo importuná-lo ainda que minimamente. Por isso, não gosto de tietar ninguém, mas é difícil manter-se incólume quando se está ao lado de alguém cuja obra parece ter subsidiado toda a sua trajetória até aqui, cuja obra parece mesmo confundir-se com ela dando estofo à sua subjetividade mais particular, alguém de quem não se pode prescindir porque a capacidade criativa te foi capaz de salvar e embalar nas travessias, de te ensinar a lição luminosa dos afetos, alguém que se tem tão próximo e tão bom e tão necessário quanto um pai deveria ser sempre.

 

 

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