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O Coletivo

05
Nov18

Salários no Feminino

João Ferreira Dias

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Todos nós, pelo menos os que não possuem a deficiência de caráter de se rever no novo presidente brasileiro, legitimamente ficámos incomodados com os seus comentários racistas, homofóbicos e misóginos, dando-nos por satisfeitos por Portugal ser uma sociedade diferente. Ora, sucede que não o é. Sabemos que, afinal, temos uma sociedade profundamente racista, mas cujos contornos não se manifestam ao nível dos comportamentos diretos de larga escala. Quer isto dizer que os brandos costumes portugueses permanecem, com um racismo marinado, suave, mas que está lá. Isto para dizer que a misoginia da sociedade brasileira, de larga escala, como o racismo e a homofobia, não lhe são , e que deste lado do Atlântico se reproduzem. Jair Bolsonaro sempre defendeu que, por princípio, as mulheres devem receber salários inferiores aos homens. Revoltante? Sim, mas não diferente daquilo que é praticado em Portugal. A disparidade salarial entre homens e mulheres, para as mesmas funções, é de tal ordem, que, feitas as contas, as mulheres trabalham dois meses de graça. Em pleno séc. XXI, num tempo em que se pressupõe a existência de sociedades equilibradas, onde o género, a etnia, a religião, não distingam as pessoas, a verdade é que continuamos com problemas estruturais por resolver. Séculos de estratificação social, de disparidade nos direitos entre homens e mulheres, deixaram marcas profundas no Ocidente. A pretensa inferioridade da mulher, herdada de um pensamento judaico-cristão ligado aos tabus do sangue e de linhagem, continua a produzir os seus efeitos. Se queremos viver em sociedades mais justas precisamos resolver isto de uma vez por todas.