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O Coletivo

12
Nov18

Os eixos das RI brasileiras

João Ferreira Dias

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As relações internacionais brasileiras, ao longo da história, foram sendo articuladas em diferentes eixos, reformuladas e reorientadas quer em função de programas ideológicos, necessariamente, tendo por base fatores económicos e geoestratégicos abrangentes. As relações comerciais atlânticas foram essenciais na consolidação do país e, mesmo no pós-independência, permaneceram importantes ao nível económico. Esquecidas durante uma parte do século XIX, e primeiras décadas do século XX, voltado o país ao desnevolvimentismo europeísta, com enfoque no branqueamento social, foram mais tarde retomadas com a emergência de potências africanas. Num mundo cada vez mais multipolar, o Brasil soube relacionar-se no quadro das RI com outras potências emergentes, formando os BRICS, mas valorizando o eixo da Mercosul.

Com uma nova presidência em vista, percebe-se, desde já, que as relações abaixo do Equador não farão parte das prioridades do Planalto. O Brasil que se segue posiciona o seu eixo de relações no continente norte-americano. Diversos fatores justificam essa opção, mas todos se resumem ao plano ideológico-cultural. As elites brasileiras, bem como a classe média, sempre se reviu nos EUA. Mas jamais o fizeram face ao Canadá. As similitudes históricas e as opções tomadas pelos norte-americanos vão ao encontro do modelo idealizado pelos grupos mais previlegiados da sociedade brasileira. A própria exclusão social e racial encontrada pelos americanos para "resolver" o problema dos ex-escravos teve a sua replicação no Brasil. Com a vitória de Trump, observou-se uma Trumpização de Bolsonaro e do seu eleitorado. Ambos venceram com base em soundbites que agradavam ao eleitoral cristão evangélico, de baixa escolaridade, e ao eleitorado de classe média e alta conservadores, machistas e que preferem um modelo social estratificado. Ambos são presidentes do clamor pelas armas, da misoginia e do racismo. É natural, que a partilha de circunstâncias históricas e o referencial civilizacional que os EUA representam para o Brasil justifique este voltar, quase exclusivo, para os EUA e a sua agenda. A continência feita por Bolsonaro à bandeira norte-americana ou a importância dada a Israel (com a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém), são provas disso mesmo. Para os EUA será vantajoso. Representa uma vigilância permanente sobre a Venezuela e a possibilidade de entrada da indústria do armamento e automóvel em força no Brasil. Para o Brasil há a esperança de algum apoio económico e de flexibilidade na entrada dos seus nos EUA.