Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O Coletivo

01
Nov18

O futuro celta

Rúben Gomes

 

Na passada semana não foi só a democracia brasileira que esteve em jogo. Houve também eleições na região alemã de Hesse, na república caucasiana da Geórgia e na República da Irlanda. No caso irlandês, foram duas as votações: a do referendo de revogação do crime de “blasfémia” e as eleições presidenciais.

A jornada eleitoral irlandesa, que decorreu na sexta-feira e teve os seus resultados oficiais divulgados durante o fim-de-semana, contou com uma participação de apenas 44% dos 3,2 milhões de eleitores inscritos. Um problema de abstenção maior que o nosso (nas últimas eleições presidenciais, em Janeiro de 2016, a taxa de participação foi de 48,66% do eleitorado).

Embora muitos irlandeses desconhecessem o delito de “blasfémia”, este constava na Constituição nacional, prevendo multas até 25.000 euros. Com 65% de votos favoráveis e 35% contra, a sua revogação vem no seguimento de um debate público onde unanimemente, nos partidos políticos, nos diversos sociais e até na Igreja Católica, se considerou a blasfémia um conceito anacrónico, não havendo razão para existir.

O resultado obtido no referendo fomenta uma Irlanda mais secular e de maior compaixão, sendo este um país devotamente católico. Paulatinamente a Irlanda caminha rumo a Estado mais laico, moderno e liberal, havendo uma série de conquistas, também obtidas por via de referendo, que marcaram o país nos últimos anos. Em 1996, numa votação renhida, com 50,28% de votos a favor, legalizou-se o divórcio; em 2015, aprovou-se a legalização do casamento homossexual, com 62,1% dos votos; e, ainda este ano, em Maio, a interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas, com 66,4% de votos a favor. Para breve, a aguardar marcação, está um referendo para a revogação da cláusula da Constituição que refere que o lugar da mulher é no lar. Ainda bem que o sufrágio decorrerá na Irlanda e não no Brasil (peço desculpa pela comparação, mas não resisto…), pois se fosse lá o resultado que é esperado naquela ilha europeia possivelmente seria outro.

A outra votação – a das eleições presidenciais – confirmou a reeleição do veterano líder trabalhista, Michael Higgins, com 56% dos votos, tal como já indicavam as sondagens. Aos 77 anos, era o candidato natural do “sistema”, tendo sido apoiado nestas eleições pelo Fine Gael, Fianna Fáil, Partido Trabalhista, entre outros partidos de esquerda e centro-esquerda. Antigo ministro da Cultura e chefe de Estado desde 2011, Higgins acompanhou a recuperação da Irlanda da crise económica, tendo expressado amiúde uma eloquente mensagem de optimismo e esperança ao seu povo.

Infelizmente a campanha para as presidenciais não foi lustrosa, pois o que se verificou foram os candidatos oponentes a Michael Higgings – Peter Casey ou Liadh Ni Riada, por exemplo – a cingirem as suas exposições públicas a críticas mesquinhas ao alegado despesismo do seu adversário, ao invés de debaterem questões relevantes como alterações climáticas, inclusão social, belicismos ou a sustentabilidade da economia.

Agora que a eleição está ganha, Higgins, que no seu discurso de vitória afirmou a sua pretensão de cumprir o mandato com humildade, deve continuar a fazer as suas viagens de Dublin a Belfast de avião, contudo deve optar pela Ryanair. É mais económico, apoia uma empresa do seu país e está em contacto directo com o seu povo. Se tiver dificuldades em fazê-lo pode ligar ao seu congénere Marcelo (também a braços com o mesmo problema após a sua presidência ter gasto meio milhão de euros em horas extraordinárias), que este explica-lhe efusiva e desveladamente como o fazer.