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O Coletivo

12
Dez18

O amante de Bolsonaro

Wesley Correia

O ator Marcio Garcia beija Jair Bolsonaro.jpg

 

O amante – condição, a princípio, de quem ama – e a amante de Bolsonaro buscavam, desde algum tempo, quem lhes pudesse dar voz ao pensamento tosco, ao espírito pusilânime e à moral rasa. Tentaram, primeiro, eleger como presidente o Aécio Neves, que está na iminência de ser preso novamente, desta vez por receber R$110 milhões de propina do grupo J&F. Foram derrotados nas eleições de 2014, mas jamais aceitaram o resultado, o que culminou no golpe político-midiático-judiciário que destituiu Dilma Rousseff da presidência da república em 2016 e fragilizou a jovem democracia brasileira. Com o neto do Tancredo Neves chafurdado no lamaçal da corrupção, os amantes de Bolsonaro transferiram o clamor para o desequilibrado capitão reformado do exército (conhecido pelas barbaridades que proferiu ao longo de mais de duas décadas de vida pública), porque nele encontraram a personificação do conjunto dos seus sentimentos mais caros, a saber: ódio racial, anticlassismo, misoginia, intolerância, violências e preconceitos de toda ordem. Agora, com os recentes escândalos de corrupção envolvendo a assessoria da família do presidente eleito, os amantes de Bolsonaro imploram para que se tenha cautela (nem parecem os raivosos que até ontem não admitiam o menor desvio de comportamento) até a assunção do “Mito”. Tal postura evidencia a lógica de que nunca se indignaram, esses amantes, com a roubalheira endógena na política brasileira, o que os indignou, de fato, foi a implementação/consolidação de políticas efetivas voltadas à mobilidade sócio-econônica das classes populares, entre os anos de 2003 e 2016. Jamais a elite brasileira decadente, filha de escravagistas e latifundiários tão bem treinados na arte de explorar, poderia aceitar, por exemplo, a regulamentação dos direitos das empregadas domésticas, signo de maior equivalência com o trabalho escravo ou a expansão da Rede Federal de Ensino, que democratizou o acesso à formação em níveis técnicos e superior no interior do país; o amante de Bolsonaro odeia o Bolsa Família por acreditar que o auxílio torna os pobres preguiçosos, entretanto nunca lhe causou espécie a assimétrica distribuição de renda no Brasil, com os milhares de miseráveis famintos a mendigar nas megalópoles ou morrendo à mingua nas zonas agrárias, nem se interessam pelo que significa a estagnação do país na 79º posição de IDH, no ranking 2018, da ONU. Ele, o amante, muito deslumbrado com seu amado disposto a matar para salvaguardar os privilégios de sua classe, não se interessa pela interpretação da dimensão histórica dos fatos e, se mostra algum interesse, é para deturpá-la, defendendo que não houve colonização ou ditadura militar no Brasil e assim seguem proferindo um sem número de leviandades. À amante de Bolsonaro, pouco importa se o programa Mais Médicos deu alguma sobrevida às populações habitantes em áreas de difícil acesso e que, por essa razão, foram condenadas a amargar o abandono do estado e a total indiferença dos deuses da clínica; o que importa à amante é que o Brasil não vire uma Cuba, nem uma Venezuela, que sua bandeira auriverde não se torne vermelha, que seu país – onde não há racismo – possa, enfim, vencer o comunismo do PT de Lula. Os amantes de Bolsonaro alegam que as críticas ao futuro presidente é recalque, puro boicote à governabilidade, e endossam a aplicação de um liberalismo nocivo e entreguista da nação às economias mais poderosas do globo. Não se preocupam com o agravamento da crise que essa condução econômica descabida pode gerar, mas gozam ao ver os generais fardados abocanhando os ministérios e parecem entusiastas da ministra dos Direitos Humanos e pastora neopentecostal, Damares Alves, cuja grande aposta será a aprovação de uma emenda que já anda a ser chamada de “Bolsa Estupro”, ou seja, uma mulher violada que não abortar o filho gerado durante a violação, receberá do governo um salário mínimo até que o rebento complete 18 anos. Certamente, para a pastora-ministra e para as pessoas que a seguem, parir o filho do estupro é a vontade de Deus... o crime e o trauma que se impõem a vítima não merecem atenção. Os amantes de Bolsonaro, tanto quanto ele próprio, mereciam o cargo vitalício de gestão da desfaçatez.