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O Coletivo

21
Nov18

Não há céu que chegue para as vítimas de tanta tragédia

Rúben Gomes

Na tarde do dia 5 de Março de 2001, frequentava o 3ºano de escolaridade, quando à semelhança das outras turmas a minha professora mobilizou a turma para ir ter ao pátio central da Escola dos Caliços. Chegados lá, a professora Ercília explicou-nos tratar-se de uma homenagem às vítimas de uma tragédia que tinha ocorrido na tarde do dia anterior. Fizemos um minuto de silêncio, lamentámos a ocasião que ali nos trouxe e, com a típica ingenuidade de uma criança de 8 anos, desejei que aquelas pessoas fossem para o céu.
17 anos, 8 meses e 15 dias depois, acordo, desloco-me para a sala estremunhado, ligo o computador, acesso alguns dos sites de notícias que considero fidedignos e percebo que o alarido que desatenciosamente reparei na minha televisão na noite anterior (para bem da minha sanidade física e mental adquiri um certo cepticismo e estoicismo relativamente às notícias que os canais sensacionalistas emitem como se estivessem a anunciar que a minha casa está em chamas) era realmente uma tragédia.
Após ouvir os depoimentos da generalidade dos agentes atinentes ao contexto do aluimento da estrada que faz a ligação entre os concelhos de Borba e Vila Viçosa, corroborei algumas das ideias que tenho relativamente à vivência das pessoas do interior do meu país.
Ter um traste como António Anselmo na presidência da Câmara Municipal de Borba é um azar dos Távoras. O empenho em esquivar-se das responsabilidades, endossando-as para outrem, é maior que a compaixão que devia ter para com os seus munícipes. António Anselmo cumpre o segundo mandato na autarquia de Borba, sendo que nas eleições autárquicas do ano passado o seu Movimento Unidos por Borba (movimento independente de dissidentes do PS) alcançou uma maioria absoluta – 3 em 5 vereadores – que lhe permite governar totalitária e despreocupadamente.
As suas primeiras afirmações em que confessava não esperar que tamanha tragédia fosse acontecer, pois acreditava estar tudo bem é de gravidade atroz. Para além da total displicência para com os estudos que o notificavam do risco que a infraestrutura representava, se hipoteticamente esses estudos não existissem, António Anselmo deveria sabe-lo na mesma através do diálogo com os seus munícipes que diariamente utilizavam a estrada e se queixavam da mesma amiúde. Estamos perante o protótipo do presidente de Câmara Municipal que de Segunda a Sexta-Feira passa as manhas e as tardes enfiado num gabinete e que aos Sábados e aos Domingos vai passear para Évora ou Lisboa, enviesando-o de conhecer a realidade dos seus munícipes, da qual está conspicuamente divorciado.
Borba, à semelhança da generalidade das terras do interior do país, é uma terra onde por factores de vária ordem a população está vetada ao esquecimento, confinadas ao isolamento. Os pingos de atenção que recebem é nas campanhas eleitorais onde de tempos a tempos aparecem políticos flausinos única e exclusivamente interessados em angariar votos. Ou então, quando de lá é natural algum concorrente de reality-show ou jogador de futebol. Ou, quando acontece algum fenómeno anormal, tal como esta tragédia.
As gerações mais jovens que ocupam muitas das profissões do sector terciário, vivem coagidas pelas elites locais que ou são proprietárias ou ocupam os cargos de chefia das empresas da região. Quem ousar levar a cabo alguma dissonância ao poder instituído, incorre na pena de ser afastado do seu trabalho ou ser ostracizado. A esse aspecto soma-se a falta de vontade autêntica em dinamizar as regiões, potenciando novos postos de emprego, condições de habitabilidade, incremento de serviços públicos. Ocasiona-se o êxodo rural que leva os jovens para as grandes cidades em busca de oportunidades, regressando estes aos fins-de-semana, férias ou feriados para visitar os pais, tios e avós que ficam na província.
Destarte estou redundantemente ciente que não devemos tomar a vida no eixo Parque das Nações – Cascais como a realidade de todo o país, não me integrando no grupo dos cosmopolitas que altaneira e arrogantemente acham que sabem o que é a vida na província só porque lá param 5 minutos para tomar uma bica ou abastecer o veículo no meio dos trajectos das suas escapadinhas de fim-de-semana.
Os autarcas do interior que asseveram a falta de moralidade e consciência das elites intelectuais e pequeno-burguesas de Lisboa, Porto ou Coimbra para opinarem sobre a realidade dos seus concelhos têm a razão do seu lado. Contudo, essa razão acarreta uma dupla obrigação moral de apoiar activamente as suas populações, de modo a mitigar as discrepâncias que as afastam das do litoral.
António Anselmo, Manuel Condenado – presidente da Câmara Municipal de Vila Viçosa – e Valdemar Alves – presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande – são exemplos de autarcas do interior que falharam clamorosamente no cumprimento dos seus deveres, que deveriam ser norteados pelo superior interesse dos seus munícipes. Para além da falta de humildade e de escrúpulos e cobardia, são chico-espertos que acham que ludibriam o país inteiro do mesmo modo que enganam quotidianamente as suas populações.
Desconhecendo o modo como as crianças estão a homenagear nas escolas (se estiverem) as vítimas da tragédia do aluimento da estrada de Borba, ficaria satisfeito se no futuro fosse evitável este ciclo de chorar sobre o leite derramado. Não há céu que chegue para as vítimas de tanta tragédia.