Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Coletivo

21
Nov18

Música, para começar

Wesley Correia

“Bohemian Rhapsody” (Bryan Singer, 2018) comete o mesmo equívoco de concepção da maioria dos filmes que se propõem a representar a trajetória de celebridades, especialmente as ligadas ao mundo da música. Consiste tal equívoco no relevo dado não à humanidade do sujeito representado, com todo o direito às ambiguidades e paradoxos de uma vida “real”, mas à mera conservação do mito em si, sem as variantes ou os abalos típicos de quem possui carne, osso e consciência, como que a garantir o interesse da indústria fonográfica e das academias de cinema ainda que isso venha implicar em uma limitação da recepção do público ao se ver diante de um roteiro reduzido a tão simplório e previsível esquema. Ora, não se pode oferecer soluções tão lineares, mesmo que se trate aqui de uma representação – sempre incômoda, reconheçamos, independente do modo pelo qual se processa – do Freddie Mercury, estrela da banda Queen, símbolo de inovação na música desde os anos 70, e que se dizia vítima da mais terrível forma de solidão. Esse sintoma profundamente significativo da biografia do homem-astro não pode ser negligenciado. De igual modo, sua excentricidade deve ser lida a partir de uma perspectiva afetiva e, mais do que isso, no caso da produção do filme, a imensa energia criativa cheia de muitas curvas que o F. Mercury possuía deveria ser tomada como método e não apenas como ingrediente performático, sofrível em alguns momentos.  Rami Malek, ator que dá vida ao astro até se esforça, mas se aproxima muito da caricatura (aliás, o que são aqueles seus olhos esverdeados?), mas nem o condeno, certamente lhe faltou uma melhor direção; o lip sync (sincronização labial) está impressionante, é realmente o melhor que já vi, diferente daqueles tapes quiméricos resultantes da desconexão entre a voz real do/da cantor/cantora e a articulação do/da ator/atriz em dublagens horrendas. A emoção fica por conta dos clássicos da banda (com algumas versões inéditas) que, durante o longa, nos trazem a memória de um algo muito especial e insólito: seja um perfume guardado na alma ou a lembrança de um amor.

Como gostei de ver a Lady Gaga, com aquela sua beleza tão peculiar, atuando e cantando em “Nasce uma estrela” (Bradley Cooper, 2018). Ao lado de Bradley Cooper, na pele do decadente astro de rock Jackson Maine, Gaga vive a talentosa e desconhecida cantora Ally. Juntos, formam um casal simpático e envolvente a despeito de caminharem em direções opostas: ele, cada vez mais afundado no álccol e na cocaína, ela, ascendendo na carreira enquanto tenta salvar o marido da auto-destruição. O longa acaba por dá vazão à espécie de maldição que, muitas vezes, os bastidores da fama guardam. Mesmo Ally, que não sofre de transtornos tão evidentes quanto o seu par romântico, se verá obrigada a realizar contra a vontade certas mudanças físicas e de personalidade que indicam um conflito de identidade que a artista terá de gerir no início da carreira. Em tudo, a Perda parece ser o preço pago para ter sucesso. A história é um clássico e conta com, pelo menos quatro versões no cinema: a primeira, de 1937, trouxe a doce Janet Gaynor no papel da atriz aspirante à fama; em 1954, foi a vez de Judy Garland, que com raros charme e elegância realizou a performance mais completa, a meu ver, bem à maneira dos musicais; a afinação perfeita de Barbra Streisand,  na versão de 1976, não deixa pra ninguém, finíssima emoção à flor da pele e a pura entrega de uma grandiosa artista multifacetada. Por enquanto, ainda é minha versão preferida.

1 comentário

Comentar post