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O Coletivo

19
Dez18

Crer no quê?

Wesley Correia

Médium João de Deus, detido por denúncias de estupro.png

A fé e o universo de possibilidades que ela mobiliza em termos espirituais constituem recurso potente no enfrentamento da doença, seja em níveis emocionais, existenciais ou físicos. Aqui, fé está sendo considerada em seu sentido mais amplo e profundo de modo a desvincular-se da ideia de religiosidade enquanto instância histórica. Muito embora nos custe fazer tal distinção, tanto por força do imaginário religioso e cultural a nos envolver quanto pelo fato de as religiões terem assumido, em muitos momentos, a pauta das patologias, uma melhor compreensão didática do fenômeno exigirá essa capacidade de pensá-las – a fé e a religião – como elementos distintos, que não estabelecem, necessariamente, relação de interdependência. A princípio, importa saber o que há na fé, do ponto de vista constitutivo, que a torna capaz de estruturar o sujeito, de organizá-lo e de promover nele uma cura radical, como se na realização mínima da fé ali também algum nível de cura começasse a operar, como se fé e cura constituíssem uma unidade poderosa e monumental, somente possível pela força do Desejo. Nesse sentido, pode-se admitir que uma pessoa acometida pelo câncer, por exemplo, alguém verdadeiramente crente na cura do seu carcinoma, mas que veio a óbito em razão da doença, morreu curado, pois a enfermidade, neste caso, passa a ter papel secundário, perdendo cena para a decisiva reconfiguração subjetiva que a base triangular (FÉ – DESEJO – CURA) pode legar ao indivíduo, gerando o fenômeno que classificaremos como ganho positivo originário do adoecer. Por outro lado, não se deve tratar a questão unilateralmente, considerando-se apenas a fé endógena, uma vez que comporta muitas variáveis. Sobre isso, há casos interessantes. Lembro especialmente de um, narrado por minha esposa que é psicóloga hospitalar e atua em Paliação; trata-se do caso de um grupo de pacientes que participou de uma experiência num determinado hospital: o grupo foi dividido em dois e, sem que soubessem, um deles recebia orações diárias; ao final de três meses, esse grupo apresentou visível avanço no quadro clínico em relação ao grupo placebo. O resultado dessa pesquisa nos ajuda a pensar na ligação entre processo curativo e desejo externo no sentido de considerar a existência de mecanismos externos capazes de realizar uma espécie de cura compulsória. Em perspectiva religiosa, a cura pela fé encontra equivalências e o milagre, popularizado pelo cristianismo, é um exemplo disso, a despeito de o próprio Cristo ter realizado, segundo consta nos evangelhos do novo testamento, uma quantidade bem pontual de milagres. O fato é que muitos líderes religiosos, ao se proclamarem como canal de manifestação do poder sobrenatural, acabam por se tornar um análogo divino; se usarem de sedução para manipular os que recorrem à sua força – e  que o fazem, não raro, no calor do desespero – podem criar terríveis armadilhas aos que nele creem. Desde a última semana, temos acompanhando com perplexidade o caso do médium brasileiro João de Deus, internacionalmente conhecido por seus supostos atendimentos espirituais, sobre o qual pesam, até o presente momento, mais de 500 denúncias de assédio sexual feitas por mulheres, não só no Brasil, mas também em outros países. Fico enjoado só de pensar que alguém seja capaz de aproveitar do estado de vulnerabilidade psicofísica das pessoas para satisfazer suas perversões. Entretanto, devo dizer que a gravíssima ocorrência não me causa estranhamento porque está em questão a natureza corruptível do homem mediante a vaidade. Em minha busca por auto-compreensão, no tempo em que eu perseguia a cura sem inferir que era justamente a presença dos sintomas que me diziam que eu estava vivo e que era preciso seguir, me deparei com doutrinas e práticas religiosas muito diversas: dos kardecistas aos mórmons, dos adventistas aos católicos, dos neopentecostais aos testemunhas de jeová, dos islamitas aos xamãs, dos budistas aos de Axé, e em todas elas senti algo substancialmente positivo, um princípio de altruísmo sem proselitismos ou maniqueísmos vazios, um princípio de empatia, de garantia da dignidade a todo ser vivente, razão pela qual chamo atenção para o perigo de que os crimes de determinados sacerdotes recaiam sobre sua religião, qualquer que seja ela. Nesta minha errância mística, testemunhei fatos impressionantes que, muitas vezes, fizeram fraquejar minha inclinação racionalista, esse hábito que tenho de pensar sobre tudo e de sempre fazer associações de conteúdo a partir de esquemas mentais. Respeito, também, a negação da religião, que deve exigir a mesma disposição para a crença que têm os religiosos e, de igual modo, respeito a descrença (se for possível tê-la, do que tenho cá minhas dúvidas) em qualquer dimensão para além da material. Meu psiquiatra diz que seu deus é a ciência e um aluno, outro dia, me revelou que era ateu. Eu quis saber a que ele recorria em momentos de maior necessidade, quando a realidade concreta parece não ser capaz de nos dar as respostas que procuramos e, prontamente, ele me respondeu que meditava. Para mim, tanto o psiquiatra quanto o aluno realizam, cada qual à sua maneira, uma profissão de fé, porquanto não deixam de projetar ou transcender em relação aos recursos pelos quais optaram. O fato é que, hoje, procuro exercitar a fé a partir da crença em uma divindade que me habita muito particular e intimamente, que me conforma em tudo porque só no meu sagrado mais guardado é que pode se manifestar. Ou seja, o poder dessa divindade pessoal e idiossincrática vem do fato de ela ter nascido do que fui, do que sou e do que serei. Energia suprema que nasce de mim e para mim, que me espelha na medida que eu a reflito e confronto: carbono primordial. Por hora, minha intuição diz que seremos tudo aquilo que desejarmos.