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O Coletivo

26
Nov18

Banalização da tristeza

Rúben Gomes

O adjectivo que mais ouvi nos últimos dois dias foi "triste". Todas as vezes que o ouvi foi relativamente ao acordo entre a União Europeia e Theresa May para a saída do Reino Unido da comunidade. A palavra proferida em discursos empolados de políticos elitistas não me surpreendeu, contudo creio ser no mínimo inadequado que Judite de Sousa abra o noticiário qualificando a saída do Reino Unido da UE de "triste". Ou estou muito errado ou estamos perante o desrespeito à isenção e imparcialidade, que são princípios elementares que deveriam nortear o jornalismo?
Tornou-se, portanto, "politicamente correcto" ficar "triste" com a saída de um Estado-membro da UE. Sou um crítico do emprego do termo neste contexto. A minha concepção de tristeza abarca negatividades que destruam ou atravanque a vida das pessoas, tais como o aconteceu em Borba, Pedrogão Grande, as penas suspensas a senhores que tiveram contacto sexual com mulheres que disseram "não", a displicência e laxismos para com preconceitos que redundam em discriminações aviltantes de direitos e liberda
des fundamentais ou a salvação de bancos privados com o dinheiro dos contribuintes, pressionada pelo querido BCE, em detrimento da saúde, educação e segurança social da população.
Destarte, a minha tristeza cinge-se, neste momento, a quem morreu ou perdeu amigos e familiares na tragédia de Borba e aos estivadores e aos professores que clamam pelo respeito do governo português.

PS: Se a Grécia não tivesse implementado as medidas de austeridade que a União Europeia lhes pressionou a tomar e tivessem sido sido expulsos, tal como muitos sugeriram em 2015, Jean-Claude Juncker, Paulo Portas e Judite de Sousa ficariam tristes?