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O Coletivo

23
Nov18

As Universidades e os Radicais de Esquerda

João Ferreira Dias

"As universidades estão cheias de radicais de esquerda", assim se faz o teaser de uma longa entrevista a Jordan B. Peterson, catedrático e guru do YouTube, concedida ao Jornal "Público". É verdade que mundo de hoje está cheio de gurus, uma reconfiguração da clássica figura messiânica. Tratam-se de pessoas que são capazes de preencher o desejo de liderança e do conforto de ser seguidor que muitas religiões ajudaram a construir. A ascensão destes gurus, numa era em que as pessoas têm maior informação e escolaridade, é sintomático de vivermos em sociedades líquidas, em que o fluxo de imagens e informação é de tal ordem que não é possível filtrar convenientemente. Onde o excesso de informação equivale à ausência da mesma. Ao mesmo tempo, a rutura com formas clássicas de religião vem, igualmente, fazendo emergir este modelo de gurus não-religiosos, que suprimem a catequese, ensinando como pensar e sentir. 

À parte disso, duas notas importantes. Um: não se faz jornalismo pegando numa frase não desenvolvida e usando-a como título. Tal comportamento, de enorme falta de zelo e deontologia profissional, revela uma tentativa de condicionamento do leitor. Dois: pegando, a título de exemplo, na Antropologia, sabemos que enquanto a disciplina foi teórica e metodologicamente elaborada a partir de padrões culturais eurocêntricos, i.e., enquanto foi elaborada pela escola anglo-saxónica conservadora, a única coisa que foi capaz de produzir foi o racismo biológico, a leitura enviesada das culturas não-ocidentais, e uma conceção evolucionista das mesmas. As ciências sociais, precisam, portanto, de uma postura de Esquerda, de uma capacidade de romper com paradigmas, com molduras teóricas, com modelos metodológicos, e reinventar-se, dando passos em direção às linguagens culturais locais, de modo a que cada vez mais seja possível evitar perdas de tradução.