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O Coletivo

04
Dez18

Apagar as luzes não basta

Orlando Figueiredo

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No passado domingo, a Marcha pelo Clima saiu às ruas de Bruxelas. Na verdade, foram duas marchas, uma pedestre e outra de bicicleta. Apesar do mau tempo, de acordo com a RTBF, cerca de 65 000 manifestantes percorreram as ruas da petite ceinture  bruxelense (estrada circular que contém o centro urbano da cidade) em dois sentidos. As marchas saíram da Gare do Norte, onde chegaram mais de 40 000 pessoas oriundas da Bélgica e de algumas regiões fronteiriças que se juntaram aos 25 000 que os aguardavam em Bruxelas. Os ciclistas seguiram em direção à região noroeste da cidade e os pedestres tomaram o caminho mais curto por sudeste. O reencontro fez-se no Parque do Cinquentenário onde os protestos, as palavras de ordem a música e a dança continuaram. O francês, o neerlandês e o inglês dominavam as palavras de ordem dos cartazes. As bandeiras dos partidos ecologistas Verts, Groenen e Green eram quase omnipresentes. Os animalistas e veganos também marcaram a sua presença, bem como numerosas instituições de defesa do ambiente, entre as quais se destaca a Greenpeace. Algumas bandeiras do movimento LGBTQ, com a palavra PEACE escrita a branco no meio do fundo colorido, também estiveram presentes.

No meio de tanto azáfama e confusão, um cartaz chamou-me a atenção. Numa tradução livre podia lêr-se: “Apagar as luzes e reduzir o aquecimento não basta. É necessário envolver os industriais”. Não posso estar mais de acordo. De facto, apagar as luzes e reduzir o aquecimento, não só não chega, como é irrelevante. Mais do que uma medida prática de combate ao aumento das emissões de dióxido de carbono, a abordagem moralista da poupança e da redução, serve apenas para enganar tolos (assumindo o papel das papas e dos bolos) e para aliviar consciências que, apesar de preocupadas e reivindicativas, se sentem inábeis na consecução dos seus objetivos. Outra área onde esta abordagem ganha terreno é na educação. Poupar, água, luz, gás... é suficientemente apolítico para ser trazido para a sala de aula. Simplesmente, o apolítico, também é político, pelo que deixa de fora, mas este não é assunto para agora.

O combate às emissões de dióxido de carbono, à destruição de habitats e às causas que levam a problemas ecológicos sérios, passa pela adoção de tecnologias e saberes científicos que permitam à humanidade adequar os consumos de energia às suas necessidades reduzindo o impacto no ecossistema global.

É certo que os modos de produção e consumo, em particular os modos capitalistas de produção e consumo, e a sua externalização de custos, têm particular importância. Contudo, e apesar da fama que têm, parece que o impacto é mais a nível social que ecológico. Todavia, uma abundante disponibilidade de energia limpa, permitiria reformas tecnológicas importantes, capazes de manter padrões de vida elevados nas regiões onde já estão implantados, alargá-los a regiões em desenvolvimento e promover uma distribuição da riqueza mais justa e equitativa.

Apagar a luz não basta. Nunca bastou e nunca bastará. É impossível reduzir os consumos de uma sociedade em desenvolvimento, com uma população a aumentar e uma necessidade de energia crescente. É por isso que não se pode deixar a investigação científica e tecnológica exclusivamente nas mãos dos privados e das grandes empresas, nem rejeitar tecnologias baseados em preconceitos acrónicos e tecnologicamente ultrapassados. Mas isso, será, talvez, motivo para outro artigo.