Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O Coletivo

24
Fev19

'amores pós-coloniais'

joão figueiredo

A saudade impossibilita o amor, e a existência agoniada nessa condição de impossibilidade é a grande contribuição de Portugal para o mundo.

 

'amores pós-coloniais' existe num estado de tensão hermética, questionando o modo de articulação entre o micro das relações pessoais e o macro do racismo institucionalizado, entre a herança colonial que permeia a nossa sociedade e o amor que vivemos sempre de forma íntima.

 

Apesar da quase totalidade da duração da peça ser dedicada a representar os dilemas que se colocam, quer aos interpretes, quer a 16 dos entrevistados cujas estórias de vida deram origem ao argumento – focando-se, portanto, no nível micro –, o tom é sempre um de cepticismo em relação à agência que conseguimos ter a esta escala. A peça é um constante questionamento quanto à operacionalidade desta escolha, especialmente tendo como horizonte a militância anti-racista.

 

Ao longo da apresentação, André Amálio e Tereza Havlícková expressam o seu desejo de perceber se é possível falar de amor vivendo sob a constelação pós-colonial ou se, através da experiência do amor, é possível escapar aos constrangimentos e coletes de forças que herdamos do colonialismo e nos deformam a subjectividade.

 

Se o inicio de 'amores pós-coloniais', marcado pela afirmação de que “o amor é uma revolução”, parece apontar para uma resposta optimista e 'clean' que, na minha opinião, daria à peça um timbre exageradamente 'soixante-huitard', o final evita esse desfecho, através de uma 'performance' intensa de uma cena de violência doméstica por parte do duo criativo da Hotel Europa, e da inserção de uma citação lapidar de bell hooks.

 

bell hooks aponta definitivamente para o macro, para a necessidade de mudar as coisas ao nível social, transcendental, estatal, comunitário – como quisermos classificar o 'lá em cima' – antes de qualquer mudança significativa poder ser vivida 'cá em baixo'. Por outras palavras, adiando as condições de um 'Amor' não adulterado para um tempo verdadeiramente pós-colonial, humano que chegue para estas poderem florir.

 

E o que é que se faz entretanto? Lutar pela chegada rápida desse ‘eschaton’ é a via que se oferece – já não estamos portanto a seguir mantra “o amor é uma revolução”, mas sim o “apenas a revolução possibilitará o Amor”.

 

Sobre tudo isto, tenho apenas mais um par de reflexões, quer resultam de ter partido para ‘amores pós-coloniais’ com duas bagagens meta-textuais.

 

A primeira, as críticas que lhe haviam sido feitas pelo público de um evento da Acesso Cultura, e que se prendiam, parece-me, com a sua estética representativa/documental. A segunda, a notícia de que na sessão em que houve discussão com os autores/actores, o público havia articulando críticas luso-tropicalistas completamente desnecessárias (suspiro).

 

1) Começando pelo fim. A peça veicula uma mensagem difícil de digerir. A erosão do optimismo 'soixante-huitard' que, sendo apontado no inicio como possível saída, é desconstruído e substituído por um apelo à luta interseccional pelas condições de um amor pós-colonial futuro – esta erosão não deve deixar de incomodar uma geração mais velha que vê em 68 uma espécie de ‘fim da história’.

A ideia de que não basta 'amar', que é preciso lutar pela revolução e que, enquanto fazemos essa luta, nem sequer podemos ter a alegria, o paliativo, de viver um 'Amor' (porque as condições macro não o permitem), é de um realismo duro – duro como o relacionamento que, de entre os 16 testemunhos, se destacou mais como ‘exemplo de vida’: um relacionamento entre uma mulher negra que enquadra toda a sua realidade através do prisma do racismo, como estratégia continua de emancipação e auto-afirmação, e um homem branco constantemente a tentar perceber e cercear o seu próprio privilégio, como medida de contenção e de sobriedade. Esta parece ser uma tarefa de Sísifo, mesmo quando acreditamos plenamente nas suas recompensas.

 

« Se é este o caminho para o 'Amor' até que ocorra uma mudança macro, então que esta chegue rápido! », torna-se uma resposta expectável. Contudo, esta mudança macro é difícil de visualizar, de tornar tangível (mesmo que apenas conceptualmente), e como tal, de concretizar. Por um lado o 'amor' micro não basta, não torna o 'Amor' possível, por outro a revolução macro é um caminho cujos contornos não se vislumbram...

 

Esta situação é conducente a estados de melancolia, de sofrimento pela impotência própria, que em Portugal tendem sempre para a acédia (nada fazer, nada mudar, não se inscrever, não escrever) ou para a saudade. E sim, a saudade por cá é luso-tropical.

 

A saudade é uma auto-ilusão, uma fuga mental para um passado em que projectamos o que nos parece difícil ou impossível de obter no futuro: um 'Amor' pós-colonial. A saudade é inimiga da luta, e é, claro, o maior obstáculo ao ‘Amor’. Que a performance de violência doméstica tenha sido despoletada por uma situação de saudade melancólica ("porque não me disseste para entrar em tua casa naquela noite, em que demos o primeiro beijo? porque não me deste uma memória perfeita?") parece-me o ponto alto da peça, quer em sentido afectivo, quer conceptual.

 

2 ) Quanto às críticas que foram feitas à peça na discussão com o público durante o evento da Acesso Cultura. Devo dizer que as achei construtivas e que, se não consigo imediatamente dar-lhes uma resposta, se me falha a solução, isso só as torna mais valiosas.

 

Essencialmente, pareceu-me – mas não quero cair no próprio acto que foi criticado repetindo-o aqui (acto de "dar voz" aos outros) – que a critica se prendeu com o facto do mecanismo documental/representativo da peça substituir as pessoas entrevistadas por interpretes. Esta é uma crítica ao formato, mais do que ao conteúdo.

 

Digo-o não para a menorizar, mas apenas para sublinhar a minha falta total de bagagem técnica, artística e científica para a interpelar. Não sei que formato opor ao teatro documental, enquanto melhor solução para o dilema em mãos, porque dos formalismos e da filosofia do teatro não percebo nada.

 

Resta-me traçar o paralelo com a área dos museus etnográficos (o clássico puxar a brasa à minha sardinha, desculpem). O paradigma pós-representacional nestas instituições dita o envolvimento das comunidades, em vez da exposição de peças que as simbolizem ou que teçam discursos sobre essas mesmas comunidades. Transportando para o contexto do teatro, temos paralelos com o teatro comunitário? Não sei. Será que trazendo alguns dos 16 entrevistados para o palco, em vez dos interpretes, a 'crise de representação' se diluía? Não sei. Será que o problema é apenas um de legitimidade (ou seja, serem brancos os directores/autores)? Nesse caso, seria necessária uma direcção artística/autoria mais inclusiva? Não sei.

 

'amores pós-coloniais' aborda a questão da representação, através do prisma doloroso dos zoos humanos. os actores assumem que estão, porque a sua profissão nessa situação os coloca, numa posição com pontos de contacto (ainda que ténues) com aquela das mulheres e homens exibidos: o público está ali para os ver, ser entretido (será que a analogia escapa a um olhar mais crítico?). Por este prisma, trazer alguns dos 16 entrevistados para o palco não pioraria a situação? Mais uma vez, a resposta a estes dilemas, a existir, parece ecoar o dictum de bell hooks, e depender de mudanças macro, que tornariam possíveis um outro 'Amor' e um outro 'Teatro'...

 

Concluindo. Como resistir à melancolia se o acesso ao nosso objecto de desejo, um 'Amor' e um 'Teatro' verdadeiramente pós-colonial, se encontra diferido para fora do nosso alcance temporal?

 

A entrega à luta parece ser o único remédio. Nesse sentido parece-me essencial partir de bell hooks, e resistir à tentação de manter a análise e a intervenção no nível micro, interpessoal.

 

Se houve algo que aprendemos com os anos pesados e sufocantes da 'troika' foi que os poderes instalados vão sempre querer desviar a nossa atenção para o micro, o interpessoal (as pessoas que 'gastaram acima das posses', fizeram 'férias nas caraíbas', compraram o 'carro alemão', e 'jantaram fora' é que criaram a crise bancária…), de forma a nos fazer sentir a todos igualmente culpados de participarmos no descalabro internacional, enquanto banqueiros se safam com roubos de milhões…

 

Quanto ao racismo parece-me que está em curso uma manobra semelhante, por parte dos negacionistas mais articulados: se nos ficarmos sempre por discutir a ignorância (de que todos padecemos) ou a má educação (em que todos caímos, por vezes), numa chegamos a perguntar porque não temos professores universitários negros, ou acção afirmativa consequente na política e no ensino, acesso à habitação, etc…

 

'amores pós-coloniais', apesar de começar no micro, termina com bell hooks, termina apontando a necessidade de lutar pela redefinição do macro. fico ansioso pela próxima peça.