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O Coletivo

22
Out18

Afectos indesejáveis

Rúben Gomes

 

A despeito das habituais lacunas do “Prós e Contras”, a emissão da passada Segunda-Feira trouxe-nos um debate sobre um tema de absoluta pertinência para a sociedade portuguesa. Apresentaram-se argumentos válidos parte a parte, tanto pelos convidados como pelos intervenientes da plateia.
Não escondo a minha inestimável admiração pela historiadora Raquel Varela que já havia abordado a questão no programa “O Último Apaga a Luz”, onde participa semanalmente na RTP 3, e traçou uma correcta conjuntura histórica e social do tema. Desnudou alguns dos motivos pelos quais o movimento #Metoo não é levado mais a sério, entre eles o elitismo, o reaccionarismo e a disseminação de um clima de guerra dos sexos.
Adiante interveio proficuamente no debate um participante de nome Daniel Cardoso, doutorado em Ciências da Comunicação, professor na Universidade Lusófona de Lisboa e investigador de media e género, que explicou o modo como o ser humano é formatado desde tenra idade para obsequiar e obedecer quem nos é mais velho e/ou exerce uma posição hierarquicamente superior. Deu o exemplo da pressão familiar exercida sobre as crianças para que estas beijem os seus avós, mesmo contra a sua vontade. Esse acto de violência coercitiva que impõe uma intimidade física indesejável está forte e inegavelmente presente no crescimento das crianças portuguesas e estrangeiras que não recebem a melhor educação no que concerne às blandícias a familiares. Dever-lhes-ia ser ensinado que os afectos devem ser naturais, espontâneos, e acima de tudo voluntários, podendo ser manifestados por beijos na face, apertos de mão, palavras doces e outros gestos de carinho e atenção. Se uma criança abster-se de beijar os avós cingindo o seu cumprimento à verbalização de um “Olá” ou “Bom dia” provavelmente será considerada mal-educada, desagradará os pais e avós e possivelmente será castigada. Uma falta de compreensão e violência para com os sentimentos das crianças que aprendem desde logo como as pessoas que os cercam podem ser injustas.
Defendo que as relações interpessoais, familiares e sociais, carecem de séria reflexão e de um processo educativo com tónica na individualidade de cada um. Destarte desmisticar-se-ão representações sociais anacrónicas, os cidadãos serão mais empoderados, sendo mais capazes de zelar pela sua auto-determinação e dignidade.
Enquanto estivermos presos a paradigmas coercitivos fruto de sociedades patriarcais, paternalistas e retrógradas, problemas como o assédio continuarão a ocorrer com uma frequência indesejável.