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O Coletivo

30
Jan19

A Ofendida

Orlando Figueiredo

Ainda a propósito do meu artigo A Ofensa, publicado no dia 27 de janeiro neste blogue, gostaria de acrescentar mais alguns aspetos que sustentam a minha posição de que o comportamento de Marcelo é ofensivo para os Portugueses.
Neto Moura é o juiz desembargador do Tribunal da Relação do Porto que, em outubro de 2017, redigiu um acórdão que atenuou a pena aplicada a um homem que agrediu a sua mulher de forma brutal e violenta, pelo facto de esta ter relações extraconjugais, ou, nas palavras do juiz, ser adúltera. No acórdão, Neto Moura sustenta-se na bíblia e no código penal de 1886, para justificar a sua posição (ambos, documentos contemporâneos e fiáveis, que, como bem sabemos, respeitam os Direitos Humanos e, em particular, os Direitos das Mulheres!) Saliente-se que, desde 1974, que o adultério deixou de ser considerado atenuante para crimes conjugais – a culpa é do 25 de Abril, claro. No acórdão (disponível aqui) pode ler-se:
“há sociedades em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte”, e que o adultério da mulher é “um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem”.
No dia 29 de janeiro, assistia ao 18|20 (o serviço noticioso da RTP3) quando me foram arremessadas as palavras sábias de Ricardo Serrano, advogado de defesa de Neto Moura, que passo a transcrever:
Censura-se um magistrado judicial por [ter feito] referências [a] expressões da bíblia. Mas, curiosamente, somos o mesmo país que temos o presidente [Minúscula minha, pois não me parece que este presidente o seja com maiúscula] da República que beija a mão ao papa ou ao bispo.
Julgo que fica bem evidente como o inaceitável comportamento de Marcelo é tudo menos neutro e que as consequências de ceder, por muito pouco que seja, ao patriarcado católico e aos absurdos religiosos, poderá ter consequências graves para uma sociedade democrática e igualitária.
Como em muitos outras situações em Portugal, a vítima foi a julgamento e considerada culpada. A vítima é, de facto, múltiplas vezes ofendida. Ofendida pelos agressores, ofendida pelo juiz, ofendida pelo advogado de defesa e ofendida por um presidente da República incapaz de separar os atos oficiais e o papel de representante dos Portugueses, das suas fantasias religiosas.

Ler mais sobre este assunto aqui.
 
 

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