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O Coletivo

14
Dez18

A Linguagem Amiga dos Animais

João Ferreira Dias

Vivemos um tempo de extremismos e pequenas causas identitárias, resultantes de bolhas  construídas por nichos sociais onde a realidade é fragmentada e, por essa razão, as suas causas são hiperbolizadas. As causas humanitárias estruturais e fraturantes são secundarizadas, vista de dentro da bolha confortável e causídica. Prova disso é a forma como o legítimo combate pelos direitos dos animais deslizou para lutas de natureza patética, como a proposta da PETA, embandeirada pelo PAN, de alteração de expressões idiomáticas e outras formas de vocábulos populares, como "pegar o touro pelos cornos", que deveria passar a "pegar a rosa pelos espinhos". O problema desta proposta é que desvaloriza o sentido cultural e o peso das expressões. A metáfora de coragem e empenho que remete para o pegar de um touro pelos chifres é bem distinta da imagem de apanhar uma flor pelos espinhos. Em segundo lugar, o peso jurídico das palavras deve ser medido. Se uma tourada coloca em questão a integridade física dos animais em favor de um espetáculo, o uso de expressões na linguagem corrente não infere na vida animal. Qualquer humorista dirá que chamar vaca a uma vaca não o ofende, não como o faria no caso de uma mulher. Porque as palavras têm um peso e uma utilidade social. E não, não é pelo uso das expressões que se descarrila para a prática dos atos, porque eu não conheço ninguém que use a expressão "pegar o touro pelos cornos" que tenha, alguma vez, participado de uma tourada, ou que use, por exemplo, "matar dois coelhos de uma cajadada" que sequer tenha um cajado ou até visto um coelho ao vivo.