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O Coletivo

08
Nov18

A Carta aberta a António Costa.

joão figueiredo

Um par de disclaimers. Primeiro, tenho amigos e conhecidos que sacrificam animais por motivos religiosos. Tenho outros que os criam e abatem, fazendo-o quer como ganha-pão, quer como forma de melhor controlarem o que comem. Estes últimos são geralmente movidos por razões culturais (gastronomia, ‘tradição’, etc.), éticas (encaram a pequena produção ao ar livre como um mal menor) ou pura e simplesmente económicas (a esmagadora maioria dos casos). Apesar disso, sou praticamente vegetariano durante grande parte do ano, mais por hábito e gosto do que por convicção moral – concedo – mas, ainda assim, sempre convicto de que quanto menos sofrimento e destruição causarmos aos seres vivos que nos rodeiam, tanto melhor. Não privo com caçadores nem aficionados (assumidos, pelo menos).

Segundo, não acho feliz o ataque que Manuel Alegre faz ao 'politicamente correto'. Não me parece que, pressionado, o ex-candidato presidencial conseguisse explicar ao certo como é que esta suposta categoria se distingue do ‘correto’, tout court. Agravando a situação, o ataque aos ‘social justice warriors’ defensores do suposto ‘politicamente correto’ é uma conhecida gateway drug da alt-rightque não convém promover. 

 

Carta aberta a António Costa.

 

Apesar de discordar completamente do timbre empregue, acabo por entender a gravidade do perigo ao qual Manuel Alegre alude nesta sua carta aberta, ainda que, na minha opinião, o poeta o denuncie de uma forma francamente ineficaz. Um homem branco, a vários níveis privilegiado, começar por lamentar o facto de sentir, por vezes, a sua “liberdade pessoal ameaçada” – isto não é maneira de cativar ninguém. Tanto mais que os homens brancos ressentidos que se agreguem em torno deste tipo e mensagem dificilmente se mobilizam a favor de qualquer agenda progressista, ou do apoio ao “pluralismo, [à] tolerância, [e ao] respeito pela opinião do outro”. Ou seja, a partir deste ataque ao espantalho do ‘politicamente correto’ não acredito que se chegue a lado nenhum.

 

E o que dizer do recurso, por duas vezes ao longo do texto, ao termo ‘a nossa civilização’? Que civilização? Nossa de quem? A civilização ‘Ocidental’? A civilização judaico-cristã? A ‘Portuguesa’ (é possível escrever ‘civilização portuguesa’ com a cara séria?)? A civilização Mediterrânica (faz qualquer sentido no singular?)? Será esta ‘nossa civilização’ à escala Peninsular ou, pelo contrário, Europeia? Sendo continental, restringe-se ao Ocidente e ao Sul, ou abarca também a Europa do Norte e/ou do Leste? E a herança Moçárabe, a Sefardita – é ‘nossa’? É ‘civilizada’?

 

Onde paramos? Incluímos no rol fantasias/fantasmagorias perigosas como a da ‘civilização luso-tropical’ de Gilberto Freyre? Não, com certeza que não, mas a verdade é que o que quer que seja que hoje passe por ‘a nossa civilização’ tem que acomodar elementos muito díspares, de todas estas áreas e contextos e ainda de muitos outros - extra-europeus, extra-mediterrânicos e extra-atlânticos - pois há cidadãos portugueses nascidos em todos os cantos do mundo, ou descendentes de pessoas oriundas de um sem número de contextos culturais. Não são os imigrantes e emigrantes parte fulcral da ‘nossa civilização’? A ‘nossa civilização’ é a da Hospitalidade, ou não o é de todo.    

 

Não me choca afetivamente que se legisle de forma discriminatória contra touradas e práticas cinegéticas que, aliás, são tão afastadas da minha redoma quotidiana que os seus nomes nada me dizem (“provas de Santo Huberto, largadas cinegéticas e cetraria” – do que se trata isto? vale a pena googlar?). Aliás, se escolhermos definir de forma míope a ‘nossa’ civilização como a ‘civilização judaico-cristã’, parece-me até que este ímpeto contra o sacrifício animal se enquadra perfeitamente dentro das suas correntes internas mais profundas, constantes e fortes (de acordo com a liturgia cristã, não substitui o ‘Cordeiro de Deus’ esse outro mais mundano, que um dia um anjo colocou no lugar de Isaac?).  

 

Preocupa-me muito, e nesse ponto é que concordo com Alegre, é que se defina ‘progresso civilizacional’ – um conceito que acredito vazio de sentido – como a depuração e purificação por decreto da ‘nossa civilização’ da Hospitalidade, até que esta coincida ponto por ponto com uma versão esclerótica e higienizada da ‘civilização judaico-cristã’, sem espaço para qualquer “pluralismo” significativo. Ou seja, que depois da proibição da caça se passe para a do sacrifício religioso, em terreiros e templos, ou mesmo para a restrição do abate nos açougues kosher e halal (como ativistas europeus não se coíbem de tentar fazer valer). Já no Brasil, o fervor com os direitos dos animais disfarça mal a cruzada racista e evangélica contra os sacrifícios nos terreiros das religiões Afro-brasileiras... Que desenvolvimentos esperar na 'Era' Bolsonaro?

 

Finalmente, preocupa-me também o impacto económico que Manuel Alegre refere, especialmente naquelas “regiões onde a empregabilidade e a atividade económica estão quase exclusivamente ligadas à caça”. Confesso porém que o destino das touradas e dos seus trabalhadores me deixam indiferente quase até ao fim. É apenas face aos impropérios daqueles que, nas redes sociais e nas caixas de comentários, torcem pela morte na arena dos toureiros e demais performers que me vejo forçado a reconhecer que qualquer vida humana – qualquer – se sobrepõe àquela de um animal.

 

Isto, mesmo sabendo que estes humanos aficionados seriam os primeiros a desobedecer às autoridades, provocando e desrespeitando qualquer decisão legislativa que pusesse em causa as suas práticas. Tal ímpeto legalista não só desgastaria o Estado de direito (multiplicando o ‘efeito Barrancos’), como nos proporcionaria a oportunidade de presenciar o espetáculo triste de lermos uma série de concidadãos, de bem e ‘defensores dos direitos dos animais’, a desejar pelas redes sociais afora a morte de homens. Esse é, de facto, o tipo de húmus sentimental de onde brotam bolsominions – não vale a pena ir por aí.