Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O Coletivo

16
Nov18

a Arte da desverdade

joão figueiredo

8673468268_94f10c0535_b.jpg

 

Conforme André Gide ironizou nos seus Prétextes (1903), é de bom tom a cada trinta anos recuperar o argumento filosófico que Ephraim Lessing formulou no século XVIII sobre a estátua de ‘Laocoonte e os seus filhos’, quer seja para o reafirmar – com mais ou menos plágio –, quer contrariar. A verdade é que G. E. Lessing (1729-1781) não tem tido um grande culto entre nós, sendo preciso recorrer ao mercado editorial brasileiro para podermos ter acesso, em português, a uma tradução do seu Laocoonte, ou Sobre As Fronteiras Da Pintura E Da Poesia (1766) – sendo as edições brasileiras relativamente recentes (1998, 2011).

 

É uma pena ser difícil aceder a esta obra. Não só porque assim fica facilitada a tarefa dos seus adeptos menos escrupulosos, como pelo facto de, pelo menos de acordo com Jacques Rancière, em Laocoonte, ou Sobre As Fronteiras Da Pintura E Da Poesia haver sido “demonstrada, de uma vez por todas” a “autonomia da arte das palavras, da arte das formas visíveis e de todas as outras artes” (o destino das imagens, p. 57).

 

Resumindo de forma brutal um raciocínio complexo, podemos dizer que Lessing demonstra neste ensaio que a descrição que Virgílio fez do sofrimento de Laocoonte na Eneida não obedeceu aos mesmos parâmetros que se colocaram perante o escultor grego da peça ‘Laocoonte e os seus filhos’, redescoberta em Roma em 1506 e hoje exposta no Vaticano. Segundo Lessing, esta divergência de critérios advém da autonomia das artes, e não de uma hipotética decadência civilizacional de Roma face à Grécia Antiga, o que explica porque o épico latino nos narra sem qualquer pejo os urros de dores que Laocoonte bradou aos céus enquanto era trucidado por duas serpentes marinhas, ao passo que o mármore da estátua helénica testemunha um corpo tenso, mas de rosto sereno.

 

A escultura, ou qualquer outro meio artístico perene e visualmente explícito, não pode imortalizar um momento de dor extrema, sob pena de desumanizar as vítimas e seus carrascos, impossibilitando qualquer empatia e compaixão por ambos – explica-nos Lessing. O mesmo não se passa no domínio da poesia, prosa ou mesmo do teatro, porque a natureza efémera das representações físicas ou mentais orquestradas por estas artes evita a fixação ou cristalização grotesca e nauseante da dor dos outros.

 

Os jornalistas do Correio da Manhã são, entre nós, aqueles que mais uso fazem das ilações que podem ser retiradas desta teoria, desumanizando num ritmo fabril. Contudo, um sindicato da PSP também explorou as potencialidades do método. Quem em pleno século XVIII adivinharia que os insights da crítica da Arte um dia se aplicariam tão bem à esfera da política e negócios… Contudo, não é para comentar estes abusos, agora em contraciclo mediático, que mobilizo o argumento de Laocoonte

 

Quero recuperar Lessing para defender, ao longo dos próximos posts, que as fake news são uma forma de Arte, com autonomia em relação às restantes, e uma genealogia que as aproxima mais dos jogos de computador (video games) e das palavras cruzadas dos jornais, do que da prosa jornalística ou reportagem fotográfica. Assim, espero mostrar que muita da atual perplexidade em relação a este fenómeno advém da sua má classificação (sempre como notícia, como texto ou como imagem), podendo ser evitada se percebermos quais os limites internos e as regras de funcionamento próprias desta forma de expressão artística. A análise do fenómeno das fake news deve ser conduzida pela especulação estética, não epistemológica.