Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Coletivo

12
Mar19

A semana que decide o Brexit

A woman in politics

A data oficial do Brexit é a 29 de março e o que acontecerá até lá será puro entretenimento para os amantes de política (à falta de melhor descrição).

Esta semana, mais concretamente, será pródiga em acontecimentos. Vejamos.

Hoje foi votado o novo acordo de Theresa May, e caso fosse aprovado, a saída do Reino Unido da UE dar-se-ia dentro do previsto. Contudo, já sabemos que o acordo foi votado e foi rejeitado, e passamos então à fase de votação relativa a uma saída sem acordo.

Essa votação ocorrerá amanhã (13 de março) e caso seja aprovada os britânicos sairão de facto a 29 de março (embora sem acordo), e navegarão por águas mais turvas do que se previa.

Por outro lado, se for rejeitada passamos à fase de votação, que ocorrerá a 14 de março, para adiamento do Brexit. Novamente, se a votação for rejeitada há uma saída a 29 de março (sem acordo), e se for aprovada o Brexit será adiado...

Para quando e com que propósito é o que falta saber. Mas nem os britânicos sabem...

 

brexit2.png

 

11
Mar19

Neto de Moura somos todos nós

João Ferreira Dias

illustration-2223973_960_720.jpg

Netos de Moura há muitos, afinal. Depois da legítima onda de contestação em relação aos acórdãos lavrados por aquele juiz, espelhando que os direitos das mulheres começam a ser objeto de maior relevância no espaço público, limitando, fortemente, o desnível da balança social a uma minoria, eis que agora, perante declarações do mesmo juiz acerca do casamento homossexual e do direito à adoção por tais casais, se levanta um bom punhado de moralistas. "Afinal até tem algum juízo", e coisas parecidas, são vociferadas em caixas de comentários, perfis, e cafés. Ora, se a essa disposição social homofóbica juntarmos as posições tomadas na sequência do chamado "caso Jamaica", temos um quadro social eminentemente conservador e preconceituoso. É o país onde se é a favor dos direitos das mulheres, mas onde se oferecem electrodomésticos pelo dia da mulher, que não suporta travestis, mas onde os homens se mascaram se mulheres, que não é racista, mas quem não está bem que vá para a sua terra, e onde ninguém tem nada contra os gays desde que eles não casem, não tenham filhos, nem andem de mão dada na rua.

06
Mar19

O Portugal que até existe

João Ferreira Dias

pencil-1385100_960_720.jpg

Quando Joana Gorjão Henriques levantou, e muito bem, o véu do racismo em Portugal houve uma onda de reação puritana escandalizada. Uma mesma franja social alargada que mandou Mamadou Ba para a sua terra e que considera que a questão dos direitos lgbti são uma ditadura das minorias sobre uma maioria "tradicional", uma espécie de Portugal tecido na memória do Estado Novo, dos "bons costumes" e da decência. Ora, é aqui que tudo fica mais claro: a noção de sobreposição da maioria sobre a minoria, com supressão da última, é o pano de fundo do fascismo, não da Democracia. É bom que tenhamos isso presente. 

01
Mar19

Carnaval, what else?

A woman in politics

Vem aí o fim de semana de Carnaval e vamos lá estereotipar um pouco.

 

Há 3 tipos clássicos de pessoas no Carnaval. 1) As que vão de férias para o estrangeiro e partilham 1001 fotos para assegurar que toda a gente sabe (e continuam a postar mesmo quando chegam de férias não vá alguém não ter visto). 2) As que passam um ano inteiro a pensar no que vão vestir nesta data, mas mesmo assim é inevitável, os homens acabam quase sempre por vestir-se de mulheres (a quem possa interessar a moda este ano parece que são os macacões vermelhos e máscara da La Casa de Papel). 3) As que aproveitam para usufruir da arte de nada fazer (verdadeiros especialistas em “couch potato”).

 

Bem meus caros... Gostaria de informar que o meu Carnaval é muitíssimo interessante... Mas, não. Faço mesmo parte do terceiro grupo.

 

Se fazem parte da minha tribo, e gostam minimamente de política, recomendo-vos o filme Vice de Adam McKay, com Christian Bale, Steve Carell, Amy Adams e Sam Rockwell nos principais papéis.

 

O filme retrata a história de Dick Cheney, vice-presidente de Geoge W. Bush, e para resumir, o tipo é um mafioso, e Christian Bale um monstro da representação. Eis o trailer:

 

 

28
Fev19

A mensagem e o mensageiro

João Ferreira Dias

Um dos problemas da homofobia é que esvazia tudo à sua volta, produzindo teorias conspiratórias corporativistas e impossibilitando a reflexão dos conteúdos e contextos sociais adjacentes. Ora, é exatamente isso que veio a acontecer com a presença de Jean Wyllys em Portugal. O ex-deputado, exilado na Alemanha depois das ameaças por parte dos apoiantes de Bolsonaro, chegou a Portugal sob intenso destaque mediático, tendo-se tornado, rapidamente, alvo de inúmeras críticas, expondo a dimensão da homofobia e do conservadorismo puritano da sociedade portuguesa e da grande maioria dos imigrantes brasileiros em Portugal, devidamente formatados na esteira das igrejas evangélicas. Em resultado dessa propensão homofóbica da sociedade portuguesa, a mensagem de Jean Wyllys foi secundarizada e desacreditada, confundindo-se o mensageiro com a mensagem. Retirando a agenda LGBTI do ex-deputado, o testemunho direto de Wyllys é determinante, numa altura em que o fascismo ressignificado toma conta do cenário político brasileiro, extremando a sociedade a níveis mais profundos do que no período da ditadura militar. 

28
Fev19

O Governo e as relações familiares

A woman in politics

Ainda a propósito do tema quente sobre as nomeações do Governo que envolvem familiares, recomendo a leitura de um artigo de opinião do Luís Aguiar-Conraria para o Público. Eis um trecho:

 

“Desde o início, chocou-me que neste Governo se tivesse marido e mulher como ministros e uma secretária de Estado filha de um outro ministro. Com a promoção de Mariana Vieira da Silva a ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, a polémica estalou. Qual é o problema? Esta foi a pergunta que tantos fizeram perante as críticas. A resposta é simples: nomear governantes unidos por laços familiares facilita acusações de nepotismo, gera compadrio, cria um manancial de conflitos de interesses e facilita a corrupção.”

 

Podem continuar a ler aqui.

Da minha parte, nada a acrescentar.

04
Fev19

Ciências Sociais, o parente pobre da ciência

João Ferreira Dias

Em jeito de defesa pelas metas não cumpridas, afirma o Sr. Ministro da Ciência que em Portugal há já pleno emprego entre os doutorados e que é tempo de contratar doutorados estrangeiros. Não duvido da razoabilidade desta última afirmação nas áreas das engenharias. O problema é que o Sr. Ministro é um político, pelo que, nessa condição, não deve veicular cosmovisões próprias dos corredores do Instituto Superior Técnico, imaginando que a ciência se esgota nas paredes daquela instituição.

         Ora, este tipo de raciocínio inscreve-se num problema maior: o da perceção da utilidade da ciência e o da inscrição desta no quadro do capitalismo de mercado. A conversão da figura do investigador-doutorado em tarefeiro industrial ou empresarial não é uma solução que mantenha a ciência vitaminada nem é sustentável a longo prazo. À ciência não cabe apenas a solução da produção farmacêutica ou da execução tecnológica. É preciso que haja espaço para que a ciência seja ciência, isto é, que exista um campo de atuação da ciência como lugar de investigação e produção de conhecimento. Se isto é válido nas ditas ciências exatas, é gritante nas ciências sociais. Que espécie de executante ou tarefeiro pode ser um cientista social?

         São evidentes os efeitos económicos e políticos do paradigma de capitalismo de mercado vigente. O crescimento do populismo e da extrema-direita são reações políticas ao contexto global. Ora, o modelo político de natureza, chamemos-lhe, extremo-capitalista, tem efeitos na ciência, com a redução desta ao cálculo do lucro. As ciências sociais são, neste quadro, as mais visadas, pela sua incapacidade de gerar lucros diretos. A verdadeira “caça às bruxas” em todo o Ocidente tem tido forte reação do meio académico, mas em Portugal mantém-se um silêncio que não é um silêncio comprometido, mas de medo, de quem receia perder as últimas migalhas que são jogadas.

         A distração do tempo que vivemos pode licitar raciocínios deste tipo: “para que servem as ciências sociais?”. Mas porque motivo essa pergunta não é feita à investigação sobre as sociedades de formigas? Porque o entendimento das formas de organização das sociedades de formigas, ou outros animais, trazem novas formas de entender a organização social como princípio natural. Correto. Exatamente com as ciências sociais permitem entender as diferentes formas pelas quais as sociedades humanas, os grupos sociais mainstream e alternativos se organizam, as suas dinâmicas, lógicas discursivas, tipologias de linguagem, códigos de interação, ritos iniciáticos, de passagem, não-ditos sociais que configuram normas de socialização. O entendimento das diferentes tipologias sociais, dos múltiplos códigos de linguagem simbólica, religiosa, etc., são fundamentais para que teorias económicas ligadas aos comportamentos dos cidadãos possuam um elevado grau de aderência à realidade, para que não aconteçam casos como o do ex-ministro Vítor Gaspar, que afirmou não esperar que diante de políticas de austeridade houvesse uma contração do consumo.

         Políticas de inserção social, de combate à exclusão, medidas económicas, compreensão das dinâmicas do mercado de trabalho e do mercado de consumo, somente são possíveis graças às investigações das ciências sociais: a sociologia, a antropologia, a psicologia social, etc. Sem a ação das ciências sociais, dotadas de aparelho teórico produzido e depurado durante décadas, não é possível compreender e traduzir outras culturas, mudanças sociais em curso nas nossas próprias sociedades, entender os fenómenos sociais mais diversos. Sem a tradução das ciências sociais só sobram os discursos do racismo, da xenofobia, da homofobia, dos preconceitos vários. 

         Tudo isto para voltar ao princípio: é falsa a afirmação do Sr. Ministro. No que diz respeito ao emprego científico, quer na figura do investigador-doutorado quer do docente contratado, está tudo por fazer nas ciências sociais.

25
Jan19

Um último comentário sobre a Venezuela

Flávio Gonçalves

Venezuela.jpg

A minha posição em relação à Venezuela é muito simples: Maduro é um governante extremamente incompetente e incapaz, fui o primeiro a denunciá-lo logo meses após o início do seu mandato - o que me retirou da lista de convidados habituais da embaixada da Venezuela em Portugal durante vários anos, onde era orador habitual - mas não é um ditador. O regime está assolado pela corrupção, que é endémica na América Latina e ali não será excepção, mas não é uma ditadura. As eleições que elegeram Maduro foram legítimas, a parte mais radical da oposição recusou concorrer e as entidades internacionais recusaram estar presentes, tal não lhes retira a legitimidade.

 

O povo padece com a incompetência de Maduro aliada às sanções e boicotes impostos pelo estrangeiro. Não sou comunista nem próximo do PCP, mas trabalhei em várias redacções, leio imensa imprensa russa, iraniana, da esquerda americana, britânica, castelhana, brasileira e canadiana e não consigo fingir não saber o que sei, olhar para o lado enquanto todos assumem mentiras como verdades e o mundo se divide em "bons e maus", por ser socialista democrático e genuíno defensor da liberdade não me posso fingir de autista, lamento que tal choque amigos, camaradas e provavelmente até familiares, mas é por as pessoas das camadas mais informadas da sociedade se calarem todos os dias - quando salta à vista as muitas falsidades que são tomadas como verdade - que o eleitorado vota cada vez mais em populistas tanto à esquerda como à direita e estamos perante um ressurgimento do fascismo (último reduto dos descontentes) um pouco por todo o mundo.

 

O Vontade Popular é um partido violento de extrema-direita com uma milícia armada que já assassinou dezenas de pessoas e feriu centenas, os restantes partidos da oposição afastaram-se inclusivamente deste, lá por a Internacional Socialista o reconhecer como membro não o torna em socialista democrático nem em centro esquerda, na IS estão também partidos curdos classificados como terroristas e o MPLA. Não voltarei a este tema, por muito que me magoe o estado e a injustiça do mundo - em boa parte graças ao analfabetismo político generalizado e ao mau serviço prestado pela comunicação social - o meu foco é Portugal, os portugueses e a Europa.

24
Jan19

Três apontamentos incómodos sobre a Venezuela

Flávio Gonçalves

Venezuela.jpg

Tenho a dizer que não me surpreendeu, fui das primeiras vozes em Portugal a profetizar que Maduro, dada a sua inépcia em carregar o positivo legado de Hugo Chávez, acabaria mais cedo ou mais tarde por ser vítima de um golpe, fosse da oposição ou inclusivamente dos sectores chavistas descontentes. Mas estando ainda por desvendar o que aí vem, ocorrem-me três reflexões:

 

Primeira: que Maduro não tenha dado voz de prisão a Guaidó quando este manifestou a intenção de se auto-nomear presidente interino e pediu apoio internacional semanas antes, demonstra que o mesmo já recearia que essa ordem não fosse acatada pelas suas forças policiais?

 

Segunda: é interessante verificar que antes dos vários governos europeus se posicionarem (e alguns ainda não o fizeram) a porta-voz da União Europeia falou colectivamente por todos eles e, por inerência, todas as nações europeias reconheceram Guaidó como presidente interino da Venezuela. Não havendo um governo europeu de facto (para meu pesar), isto será legítimo e democrático?

 

Terceiro: um país não pode ter dois presidentes. Para lá da legitimidade constitucional de Maduro ou Guaidó, tratando-se de um golpe o próximo presidente de facto da Venezuela será quem detiver o monopólio da violência (ou seja, o apoio do Exército). Esperemos que a tempo de evitar uma guerra civil.