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O Coletivo

05
Jun19

A cegueira da "frente única" do centrão europeu

Flávio Gonçalves

A extrema-direita na Suécia irá integrar o executivo de 5 municípios suecos em coligação pós-eleitoral com partidos do Partido Popular Europeu. Falem-me novamente dessa frente única com a direita contra o "fascismo" em vez de governar à esquerda sem nos confundirem com liberais...

O Paulo Rangel foi reeleito vice-presidente do Partido Popular Europeu com os votos da extrema-direita húngara, reintegrada no PPE logo após as eleições quando supostamente estaria suspensa por seis higiénicos meses. Falem-me novamente dessa frente única com a direita contra o "fascismo" em vez de governar à esquerda sem nos confundirem com liberais...

05
Jun19

O lúcido José Miguel Júdice

Flávio Gonçalves

Tenho forçosamente que admitir uma certa estima intelectual e moral para com José Miguel Júdice, as vicissitudes da vida fizeram-nos percorrer uma via que nos trouxe a ambos ao Partido Socialista e até segui o seu exemplo de escrever uma carta aberta nas páginas do O Diabo, jornal por onde ambos passamos, a despedir-me dos camaradas com cujo ideário há muito já não me identificava (pese embora a diferença geracional, militamos ambos em organizações juvenis da direita até a consciência da maturidade nos guiar para o progressismo centrista da esquerda).

É por isso que me agrada a sua lucidez ao constatar um facto quanto à direita portuguesa no seu conjunto, em Portugal "a direita não sabe fazer combate político", do mais centrista PSD ao mais extremista PNR ou Chega! é uma verdade inegável. Os estrategas direitistas lusos, no seu conjunto - salvo algumas excepções intelectuais - "são atrasados mentais nessas matérias" e esse, entre outros factores, contribui para a inexistência da extrema-direita no Parlamento nacional (outro factor mais descurado é o facto dos militantes da direita radical portuguesa na prática já se encontrarem confortavelmente instalados no aparelho e no funcionalismo público afecto ao PSD e ao CDS). Esteve bem José Miguel Júdice, que por vezes ainda resvala demasiado para mera ala esquerda do centro-direita liberal nas suas análises televisivas... ossos do ofício, suponho.

02
Jun19

Eleições: dois desejos e uma sugestão

Flávio Gonçalves

Tenho um desejo utópico para as próximas eleições, que a imprensa e televisões escrutinem e nos expliquem os programas eleitorais dos partidos, que os cidadãos sejam finalmente elucidados quanto ao poder e repercussão do seu voto, que os jornalistas dos jornais, revistas e televisões informem os eleitores em vez de especular com um populismo que cá não pega.

Tenho um desejo distópico para as próximas eleições, e já o tenho defendido ao longo dos anos em vários artigos de opinião tanto na imprensa açoriana como portuguesa: torne-se o voto obrigatório e penalize-se quem não vá votar com uma multa simbólica de 20€, se querem protestar o regime que votem nulo ou em branco, se lhes é indiferente que paguem o preço dessa indiferença uma vez que ao longo de séculos muitos morreram pelo seu direito a votar.

Tenho uma sugestão democrática para as próximas eleições, atribuir meio dia de folga sem perda de rendimentos a todo o cidadão que vá votar. Um incentivo realista e democrático, mais que esperar que os jornalistas façam o seu trabalho ou que o governo torne o voto em obrigatório. É uma alteração legislativa simples, embora descreia que o meu partido (PS) e o outro (PSD) a apliquem dado o risco que esse novo eleitorado poderá constituir a votar em massa em pequenos partidos extraparlamentares e a irritação que pagar meio dia e subsídio de almoço aos trabalhadores constituirá para o patronato luso, cuja mentalidade esclavagista rivaliza mesmo com a dos empresários dos EUA.

02
Jun19

Rescaldo eleitoral

Flávio Gonçalves

É em semanas como estas que tenho pena de já não estar numa redacção a reportar, indagar, entrevistar e a explicar o mundo e a Europa aos leitores e eleitores... curiosamente parece que a maior parte das pessoas que está efectivamente numa redacção mainstream não tem essa vontade... as eleições em Portugal fazem-me pensar cada vez mais na letra de "A Gente Não Lê" (sublime na voz de Isabel Silvestre): "e do resto entender mal, soletrar assinar em cruz, não ver os vultos furtivos, que nos tramam por trás da luz". 

16
Abr19

“Voz do Operário” debate imprensa alternativa

Flávio Gonçalves

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Em 2019 o mensário “A Voz do Operário” celebra o seu 140º aniversário, inserido nas comemorações que irão decorrer ao longo do ano encontra-se agendado um debate dedicado ao actual estado da imprensa portuguesa, intitulado “Independência ao Serviço de Quem?”.

O debate irá debruçar-se essencialmente sobre o papel complementar da imprensa alternativa numa era na qual o jornalismo convencional se encontra marcado por uma imparcialidade e um enviesamento marcadamente de direita que dificilmente escapa já até aos leitores menos atentos, havendo para com esta uma desconfiança e um cepticismo tal que tem levado o público de um modo geral a procurar outras fontes de informação.

O painel contará com representantes de vários órgãos de comunicação social alternativa portuguesa, nomeadamente o jornal virtual regional lisboeta “O Corvo”; o “Avante!”, semanário do Partido Comunista Português; a revista digital “AbrilAbril”; o jornal digital “Esquerda”, órgão oficial do Bloco de Esquerda; o jornal libertário “MAPA – Jornal de Informação Crítica” e o próprio anfitrião “A Voz do Operário”.

“Num universo cada vez mais concentrado, menos diverso e plural, condicionado por interesses económicos e financeiros, a defesa de uma imprensa democrática é um combate cada vez mais urgente”, pode ler-se na página do evento no Facebook.

O debate irá decorrer amanhã, dia 17 de Abril, a partir das 18:30 na Casa da Imprensa, localizada na Rua da Horta Sêca, nº 20, 1200-170 Lisboa.

26
Mar19

Ricardo Araújo Pereira apresenta crónicas de Mário de Carvalho

Flávio Gonçalves

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A 10 de Abril, Ricardo Araújo Pereira irá apresentar no El Corte Inglés, em Lisboa, uma selecção de crónicas da autoria de Mário de Carvalho sob o título O Que Eu Ouvi na Barrica das Maçãs. De acordo com o comunicado que recebemos por parte da Porto Editora, as crónicas serão “divididas em quatro partes – que separam o escritor, o cidadão, o comunicador e o memorialista”.

Trata-se da primeira vez que as crónicas de Mário de Carvalho são coligidas em livro, tratando-se de uma selecção de textos publicados originalmente nas páginas do Público e do Jornal de Letras, sendo algumas “reveladoras de como a História é cíclica e alguns autores proféticos”, garantindo a editora que “como acontece na sua ficção, também aqui reencontramos o observador atento e o incomparável contador de histórias.”

“Memórias políticas e familiares (como em «Uma bandeira na varanda»), preocupações de um cidadão inconformado («A ascensão da canalha»), um olhar crítico sobre o ofício da escrita («Espelho de escritores») e encontros («Um homem tranquilo», sobre Saramago) fazem parte do universo deste livro que será lançado a 10 de Abril às 18:30, no El Corte Inglés Lisboa, com apresentação a cargo de Ricardo Araújo Pereira.”

Mário de Carvalho foi activista pró-democracia e acérrimo defensor da liberdade de expressão, tendo sido detido e torturado durante o Estado Novo e exilado na Suécia, tendo actualmente editados 30 títulos, entre ensaios, contos, novelas e romances.

Sinopse

Reconhecido como um dos mais importantes escritores portugueses da actualidade, a sua faceta de cronista passou despercebida à maior parte dos leitores; daí esta selecção das suas melhores crónicas publicadas nas décadas de oitenta e noventa do século passado no Público e no Jornal de Letras. Delas emergem o ficcionista, o cidadão, o comunicador e o memorialista, em textos que alguns diriam proféticos e, nas palavras de Francisco Belard: «testemunhos de um largo campo de assuntos, abordagens, dimensões e estilos, através de eras e lugares, sinais de um escritor que declaradamente prefere viajar no discurso e decurso do tempo e do espaço doméstico a fazê-lo em itinerários geográficos, programados e turísticos. Por tudo isto […], os leitores dos romances o vão reencontrar em mudáveis cenários e perspectivas, de outros pontos de vista, na familiaridade e na estranheza diante do seu mundo, que faz nosso.»

Ficha

Título: O Que eu Ouvi na Barrica das Maçãs
Autor: Mário de Carvalho
Edição: Porto Editora
Páginas: 256
Preço: 15,50€

Foto: Porto Editora

18
Mar19

Youtubers politizados, procura-se!

Flávio Gonçalves

Graças ao fenómeno dos youtubers do qual só me apercebi graças ao Nuno Markl (como boa parte das pessoas que conheço da minha geração), a verdade é que me viciei em alguns youtubers humorísticos e políticos em língua inglesa. Portugal ainda está na infância do fenómeno.

Nos EUA e no Reino Unido há uma legião de youtubers que como jornalistas e intelectuais independentes colmatam as falhas da comunicação social, em Portugal vemos adultos a contar piadas, a fazer disparates e a jogar jogos ao vivo para crianças e adolescentes... chega a ser deprimente.

No Brasil existem também vários youtubers jornalísticos e políticos, em Portugal recordo que o Paulo Querido e o Joao Vasco Almeida animaram também um canal, tal como a Joana Amaral Dias, ambos extintos... será um problema de dimensão?

Caso tenham algum interesse em iniciar-se no youtube politizado em língua portuguesa, sugiro o brasileiro Tese Onze, o arquivo é um verdadeiro tesouro, só lamento não ser diário.

29
Jan19

Nota sobre a má imprensa

Flávio Gonçalves

É curioso que a Grécia tenha reconhecido o governo de Maduro, mas a comunicação social portuguesa esteja a esquecer-se por completo de o noticiar. Uma legítima distracção, suponho. A Itália afastou-se também do ultimato da União Europeia a Maduro (originando uma crise no governo, o primeiro-ministro do Movimento 5 Estrelas ao lado de Maduro enquanto A Liga apoia Guaidó), suponho que eventualmente tal surja nos jornais portugueses... preocupa-me seriamente o estado da comunicação social em Portugal, mesmo muito, até porque é o que os nossos governantes e eleitores leem, acriticamente!

25
Jan19

Um último comentário sobre a Venezuela

Flávio Gonçalves

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A minha posição em relação à Venezuela é muito simples: Maduro é um governante extremamente incompetente e incapaz, fui o primeiro a denunciá-lo logo meses após o início do seu mandato - o que me retirou da lista de convidados habituais da embaixada da Venezuela em Portugal durante vários anos, onde era orador habitual - mas não é um ditador. O regime está assolado pela corrupção, que é endémica na América Latina e ali não será excepção, mas não é uma ditadura. As eleições que elegeram Maduro foram legítimas, a parte mais radical da oposição recusou concorrer e as entidades internacionais recusaram estar presentes, tal não lhes retira a legitimidade.

 

O povo padece com a incompetência de Maduro aliada às sanções e boicotes impostos pelo estrangeiro. Não sou comunista nem próximo do PCP, mas trabalhei em várias redacções, leio imensa imprensa russa, iraniana, da esquerda americana, britânica, castelhana, brasileira e canadiana e não consigo fingir não saber o que sei, olhar para o lado enquanto todos assumem mentiras como verdades e o mundo se divide em "bons e maus", por ser socialista democrático e genuíno defensor da liberdade não me posso fingir de autista, lamento que tal choque amigos, camaradas e provavelmente até familiares, mas é por as pessoas das camadas mais informadas da sociedade se calarem todos os dias - quando salta à vista as muitas falsidades que são tomadas como verdade - que o eleitorado vota cada vez mais em populistas tanto à esquerda como à direita e estamos perante um ressurgimento do fascismo (último reduto dos descontentes) um pouco por todo o mundo.

 

O Vontade Popular é um partido violento de extrema-direita com uma milícia armada que já assassinou dezenas de pessoas e feriu centenas, os restantes partidos da oposição afastaram-se inclusivamente deste, lá por a Internacional Socialista o reconhecer como membro não o torna em socialista democrático nem em centro esquerda, na IS estão também partidos curdos classificados como terroristas e o MPLA. Não voltarei a este tema, por muito que me magoe o estado e a injustiça do mundo - em boa parte graças ao analfabetismo político generalizado e ao mau serviço prestado pela comunicação social - o meu foco é Portugal, os portugueses e a Europa.

24
Jan19

Três apontamentos incómodos sobre a Venezuela

Flávio Gonçalves

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Tenho a dizer que não me surpreendeu, fui das primeiras vozes em Portugal a profetizar que Maduro, dada a sua inépcia em carregar o positivo legado de Hugo Chávez, acabaria mais cedo ou mais tarde por ser vítima de um golpe, fosse da oposição ou inclusivamente dos sectores chavistas descontentes. Mas estando ainda por desvendar o que aí vem, ocorrem-me três reflexões:

 

Primeira: que Maduro não tenha dado voz de prisão a Guaidó quando este manifestou a intenção de se auto-nomear presidente interino e pediu apoio internacional semanas antes, demonstra que o mesmo já recearia que essa ordem não fosse acatada pelas suas forças policiais?

 

Segunda: é interessante verificar que antes dos vários governos europeus se posicionarem (e alguns ainda não o fizeram) a porta-voz da União Europeia falou colectivamente por todos eles e, por inerência, todas as nações europeias reconheceram Guaidó como presidente interino da Venezuela. Não havendo um governo europeu de facto (para meu pesar), isto será legítimo e democrático?

 

Terceiro: um país não pode ter dois presidentes. Para lá da legitimidade constitucional de Maduro ou Guaidó, tratando-se de um golpe o próximo presidente de facto da Venezuela será quem detiver o monopólio da violência (ou seja, o apoio do Exército). Esperemos que a tempo de evitar uma guerra civil.