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O Coletivo

11
Mar19

Neto de Moura somos todos nós

João Ferreira Dias

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Netos de Moura há muitos, afinal. Depois da legítima onda de contestação em relação aos acórdãos lavrados por aquele juiz, espelhando que os direitos das mulheres começam a ser objeto de maior relevância no espaço público, limitando, fortemente, o desnível da balança social a uma minoria, eis que agora, perante declarações do mesmo juiz acerca do casamento homossexual e do direito à adoção por tais casais, se levanta um bom punhado de moralistas. "Afinal até tem algum juízo", e coisas parecidas, são vociferadas em caixas de comentários, perfis, e cafés. Ora, se a essa disposição social homofóbica juntarmos as posições tomadas na sequência do chamado "caso Jamaica", temos um quadro social eminentemente conservador e preconceituoso. É o país onde se é a favor dos direitos das mulheres, mas onde se oferecem electrodomésticos pelo dia da mulher, que não suporta travestis, mas onde os homens se mascaram se mulheres, que não é racista, mas quem não está bem que vá para a sua terra, e onde ninguém tem nada contra os gays desde que eles não casem, não tenham filhos, nem andem de mão dada na rua.

07
Mar19

O simbolismo não chega

Francisco Chaveiro Reis

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Num ano em que o número de vítimas mortais é histórico e que um certo juiz parece mais ralado com a sua honra do que com a defesa das vítimas, temos hoje dia de luto nacional. O simbolismo seria bem vindo se acompanhado por um plano real de acção que servisse para castigar efectivamente e mais rapidamente os agressores e sobretudo proteger as vítimas. Tal não acontece. O julgamento moral da mulher agredida continua a ser um problema real, apenas superado pela incapacidade dos vários intervenientes de agirem.

06
Mar19

O Portugal que até existe

João Ferreira Dias

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Quando Joana Gorjão Henriques levantou, e muito bem, o véu do racismo em Portugal houve uma onda de reação puritana escandalizada. Uma mesma franja social alargada que mandou Mamadou Ba para a sua terra e que considera que a questão dos direitos lgbti são uma ditadura das minorias sobre uma maioria "tradicional", uma espécie de Portugal tecido na memória do Estado Novo, dos "bons costumes" e da decência. Ora, é aqui que tudo fica mais claro: a noção de sobreposição da maioria sobre a minoria, com supressão da última, é o pano de fundo do fascismo, não da Democracia. É bom que tenhamos isso presente. 

05
Mar19

A morte saiu à rua num dia assim

Francisco Chaveiro Reis

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Estamos fartos de saber que a imortalidade na vida real já não se usa mas não deixa de ser duro ver cair as figuras que idolatrávamos. Ontem a senhora de negro levou mais dois ícones dos anos 90 ainda teriam muito para viver. Primeiro soubemos que o punk Keith Flint, bailarino transformado em vocalista e figura de proa dos Prodigy, tirara a própria vida, sem sequer chegar aos 50 anos. Nunca fui o maior fã da banda mas os sons de Firestarter, Breathe e Smack my Bitch Up são imortais tal como a voz, look e penteado desafiador da gravidade de Keith o pareciam ser. Mais tarde soubemos que Luke Perry, eterno galã juvenil de Beverlly Hills, tinha sucumbido a um AVC. Nunca fui o maior fã do ator nem da série mas a verdade é que um e outro marcaram uma era e serviram de inspiração à maior parte das tramas juvenis dos anos que se seguiram. Estamos a ficar velhos.

05
Mar19

A arte de Slava

Francisco Chaveiro Reis

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Slava Polunin continua a ser, aos 68 anos, um dos mais famosos e melhores palhaços do mundo, mesmo que já vá passando a pasta a membros da sua trupe, seu filho incluído. Para presentar o público português, está por Lisboa até 17 de março (correi, correi). A proposta, desta vez, é Snowshow, uma delícia de luz e cor que nos transporta para um mundo onírico onde convivem os sketches mais simples e as produções mais complexas como uma gigante teia de aranha que prende também o público. Slava admite trabalhar mais para os adultos do que para as crianças. Percebe-se que os crescidos sejam mais difíceis de animar. Mas não para Slava, que todos conquista.

03
Mar19

Deus no Céu, Juízes na Terra

Rúben Gomes

A polémica em torno do juiz desembargador Neto de Moura era inevitável. Se não acontecesse agora e com ele seria noutro momento e com outro juiz. Este caso reflecte um sector que passou praticamente incólume à Revolução de Abril, onde uma enormidade de indivíduos com dificuldade em respeitar a liberdade dos outros não foi devidamente saneada. Esses indivíduos são juízes que gozam de estatuto especial advindo da separação de poderes democrática, onde o executivo e o legislativo não se podem imiscuir no judicial, não tendo ninguém acima deles que lhes limite o poder.
Neste contexto existe um juiz que age de acordo com o Código Penal de 1886, em sintonia com as suas convicções pessoais, defendendo tacitamente o apedrejamento de mulheres adúlteras e protegendo os seus agressores.
Displicente para com a violência doméstica, peca pela falta de acção. Porém, a acção que não tem enquanto profissional tem enquanto cidadão melindrado com os fazedores de opinião pública, incomplacentes com a sua inépcia, decidindo processá-los. 
O tumulto que o caso gerou gerou mais não deu do que uma simples advertência do Conselho Superior de Magistratura. Uma forma de impunidade que respalda os membros de uma classe profundamente corporativa que age na forma do seu umbigo.
Atendendo a esta infortuna realidade não estou certo que Bruno Nogueira, Joana Amaral Dias, Ricardo Araújo Pereira e Mariana Mortágua serão absolvidos. Por muita democracia que aleguemos que haja no nosso país, a realidade é Deus no Céu e Juízes na Terra. É péssimo mas é o que temos.

 

01
Mar19

Carnaval, what else?

A woman in politics

Vem aí o fim de semana de Carnaval e vamos lá estereotipar um pouco.

 

Há 3 tipos clássicos de pessoas no Carnaval. 1) As que vão de férias para o estrangeiro e partilham 1001 fotos para assegurar que toda a gente sabe (e continuam a postar mesmo quando chegam de férias não vá alguém não ter visto). 2) As que passam um ano inteiro a pensar no que vão vestir nesta data, mas mesmo assim é inevitável, os homens acabam quase sempre por vestir-se de mulheres (a quem possa interessar a moda este ano parece que são os macacões vermelhos e máscara da La Casa de Papel). 3) As que aproveitam para usufruir da arte de nada fazer (verdadeiros especialistas em “couch potato”).

 

Bem meus caros... Gostaria de informar que o meu Carnaval é muitíssimo interessante... Mas, não. Faço mesmo parte do terceiro grupo.

 

Se fazem parte da minha tribo, e gostam minimamente de política, recomendo-vos o filme Vice de Adam McKay, com Christian Bale, Steve Carell, Amy Adams e Sam Rockwell nos principais papéis.

 

O filme retrata a história de Dick Cheney, vice-presidente de Geoge W. Bush, e para resumir, o tipo é um mafioso, e Christian Bale um monstro da representação. Eis o trailer:

 

 

01
Mar19

Can You Ever Forgive Me?

Francisco Chaveiro Reis

Lee Israel (1939-2014) foi uma escritora norte-americana com alguns pontos altos na carreira. Mas tornou-se conhecida pelo seu ponto mais baixo: a falsificação e venda de cartas de escritores famosos. É esse ponto baixo que a, até aqui, entediante comediante (não que não tenha piada mas o mesmo papel ad eternum, cansa) Melissa McCarthy retrata. Num papel que lhe valeu a nomeação para o Óscar de Melhor Atriz, McCarthy mostra Israel como sendo alguém que gostava de manter a distância de todos os seres vivos à exceção da sua gata; que tinha uma relação distante com a higiene e próxima com o álcool e cujo único interesse parecia ser o de escrever biografias, mais por medo de expor a sua voz do que por real vocação. Numa altura em que já ganhou algum dinheiro com a sua nova actividade, Israel conhece o prostituto inglês Jack Hock (Richard E. Grant), que se torna no seu único amigo e no seu cúmplice, expondo um lado mais carinhoso de Israel que com o esquema, acabou por se mostrar uma exímia escritora, absorvendo quase todos os tiques da escrita de nomes maiores da literatura. E se Isarel viveu nestes tempos os seus dias mais felizes, esta é a interpretação mais feliz da carreira de McCarthy.