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O Coletivo

14
Jan19

O futuro do PSD

A woman in politics

O Conselho Nacional que decidirá o futuro da liderança do PSD está marcado para a próxima quinta-feira, dia 17 de janeiro, no Porto.

O que estará em causa nesse Conselho? Se a moção de confiança apresentada pelos defensores do Rio for aprovada, Rui Rio sairá com uma liderança reforçada e com novo fôlego para as eleições que se avizinham. O número de dissidentes para o Aliança aumentará, mas isso já será assunto para outro post.

Por outro lado, se a moção de confiança for rejeitada, passa-se para eleições diretas no partido. Pairará a dúvida se Rio se apresentará a eleições, e quais os rostos para além de Montenegro que se chegarão à frente.

Para já, a votação no Conselho Nacional não estará facilitada para Luís Montenegro, que já colocou a fasquia baixa “A minha praia não é o Conselho Nacional do PSD. Nunca esteve nos meus planos apresentar uma moção de censura (...) a minha opção sempre foi ouvir todos os militantes”.

O facto de o voto ser ou não secreto será fundamental para a dita votação, o que em boa verdade, já nos mostra o “modus operandi” dos partidos nos dias de hoje.

 

 

11
Jan19

Europeias 2019: o início de uma Europa populista?

Flávio Gonçalves

Europa.jpgVoteWatch divulgou anteontem a sua projecção mais recente quanto às eleições Europeias de 2019, estimando que os eurodeputados nacionalistas, neo-fascistas, neo-nazis, populistas de direita e derivados venham a obter cerca de 25% dos assentos do Parlamento Europeu, tornando-se na segunda maior força.

 

Não deixa de ser curioso que uma estrutura pensada para unir a Europa e evitar novas guerras e ressurgimentos fascistas após 1945, esteja na prática a servir como plataforma para os mesmos e, a este ritmo, corremos o risco de um dia vir a ter um Parlamento Europeu com uma maioria absoluta de extrema-direita e, quiçá, uma Comissão Europeia que acabe por democraticamente impor o que em 1945 as armas não conseguiram.

 

Claro está que a natureza dos nacionalismos da direita europeia evitam que a médio prazo sejam uma ameaça, pois existe uma enorme hostilidade entre os eurogrupos parlamentares populistas das várias nações europeias e dificilmente chegarão a acordo entre si (por norma chegam a acordo com conservadores e liberais nas suas respectivas nações, e certamente manterão a tendência no Parlamento Europeu). 

 

Na realidade serão mais de 25% dos eurodeputados, uma vez que a VoteWatch se cingiu aos partidos que integram eurogrupos parlamentares reconhecidamente de extrema-direita e olvidou de incluir nesta estimativa outros populistas e nacionalistas da Hungria, Dinamarca e Finlândia (que me ocorrem de cor, certamente existem mais) que estão integrados no Partido Popular Europeu e noutros eurogrupos centristas. 2019 aparenta mesmo ser um ano de viragem para a política europeia, mantendo-se para já Portugal como única excepção após o sucesso do Vox em Espanha.

 

A imprensa portuguesa aparentemente bem se tem esforçado para criar um ambiente propício ao florescimento de um partido populista nas lusas terras, mas para já sem grande sucesso. A ver vamos qual será a popularidade de André Ventura, pessoalmente - como efectuei com Marinho e Pinto - já ando a firmar apostas de almoços e jantares em como, dada a natureza do eleitorado português, não irá conseguir eleger nem um único deputado. A ver vamos.

05
Jan19

A pouca Begonha da JS

João Ferreira Dias

À falta de outra opção, Maria Begonha foi eleita líder da Juventude Socialista (JS). Ora, sabendo que as chamadas "jotas" dos vários partidos funcionam como programa de estágio e formação para futuros políticos de carreira, cai muito mal ao maior partido do centro-esquerda ter a sua juventude liderada por alguém que viu o seu nome envolvido em escândalos como de falso título de mestre, com avenças atribuídas por ajuste direto em autarquias socialistas de cerca de 140 mil euros em quatro anos. As suspeitas foram até ao uso de meios públicos por apoiantes da sua candidatura, numa história que envolve o transporte de militantes num minibus de uma junta de freguesia presidida pelo PS. Os contornos são demasiadamente "cabeludos" para não terem sido objeto de profundo escrutínio. De suspeitas em suspeitas, de aprendizado e sobrevivência de jogos de poder e de corredor político, vão-se construindo os deputados e ministros de amanhã. 

Convém lembrar que a sensação de impunidade e recusa de escrutínio que marca a vida política passim tem estado na origem da adesão popular aos movimentos de extrema-direita, atrelada à narrativa de que os políticos dos partidos tradicionais são todos corruptos. Não é com casos como este que esta disposição popular é invertida. Lamentável. 

19
Dez18

Crer no quê?

Wesley Correia

Médium João de Deus, detido por denúncias de estupro.png

A fé e o universo de possibilidades que ela mobiliza em termos espirituais constituem recurso potente no enfrentamento da doença, seja em níveis emocionais, existenciais ou físicos. Aqui, fé está sendo considerada em seu sentido mais amplo e profundo de modo a desvincular-se da ideia de religiosidade enquanto instância histórica. Muito embora nos custe fazer tal distinção, tanto por força do imaginário religioso e cultural a nos envolver quanto pelo fato de as religiões terem assumido, em muitos momentos, a pauta das patologias, uma melhor compreensão didática do fenômeno exigirá essa capacidade de pensá-las – a fé e a religião – como elementos distintos, que não estabelecem, necessariamente, relação de interdependência. A princípio, importa saber o que há na fé, do ponto de vista constitutivo, que a torna capaz de estruturar o sujeito, de organizá-lo e de promover nele uma cura radical, como se na realização mínima da fé ali também algum nível de cura começasse a operar, como se fé e cura constituíssem uma unidade poderosa e monumental, somente possível pela força do Desejo. Nesse sentido, pode-se admitir que uma pessoa acometida pelo câncer, por exemplo, alguém verdadeiramente crente na cura do seu carcinoma, mas que veio a óbito em razão da doença, morreu curado, pois a enfermidade, neste caso, passa a ter papel secundário, perdendo cena para a decisiva reconfiguração subjetiva que a base triangular (FÉ – DESEJO – CURA) pode legar ao indivíduo, gerando o fenômeno que classificaremos como ganho positivo originário do adoecer. Por outro lado, não se deve tratar a questão unilateralmente, considerando-se apenas a fé endógena, uma vez que comporta muitas variáveis. Sobre isso, há casos interessantes. Lembro especialmente de um, narrado por minha esposa que é psicóloga hospitalar e atua em Paliação; trata-se do caso de um grupo de pacientes que participou de uma experiência num determinado hospital: o grupo foi dividido em dois e, sem que soubessem, um deles recebia orações diárias; ao final de três meses, esse grupo apresentou visível avanço no quadro clínico em relação ao grupo placebo. O resultado dessa pesquisa nos ajuda a pensar na ligação entre processo curativo e desejo externo no sentido de considerar a existência de mecanismos externos capazes de realizar uma espécie de cura compulsória. Em perspectiva religiosa, a cura pela fé encontra equivalências e o milagre, popularizado pelo cristianismo, é um exemplo disso, a despeito de o próprio Cristo ter realizado, segundo consta nos evangelhos do novo testamento, uma quantidade bem pontual de milagres. O fato é que muitos líderes religiosos, ao se proclamarem como canal de manifestação do poder sobrenatural, acabam por se tornar um análogo divino; se usarem de sedução para manipular os que recorrem à sua força – e  que o fazem, não raro, no calor do desespero – podem criar terríveis armadilhas aos que nele creem. Desde a última semana, temos acompanhando com perplexidade o caso do médium brasileiro João de Deus, internacionalmente conhecido por seus supostos atendimentos espirituais, sobre o qual pesam, até o presente momento, mais de 500 denúncias de assédio sexual feitas por mulheres, não só no Brasil, mas também em outros países. Fico enjoado só de pensar que alguém seja capaz de aproveitar do estado de vulnerabilidade psicofísica das pessoas para satisfazer suas perversões. Entretanto, devo dizer que a gravíssima ocorrência não me causa estranhamento porque está em questão a natureza corruptível do homem mediante a vaidade. Em minha busca por auto-compreensão, no tempo em que eu perseguia a cura sem inferir que era justamente a presença dos sintomas que me diziam que eu estava vivo e que era preciso seguir, me deparei com doutrinas e práticas religiosas muito diversas: dos kardecistas aos mórmons, dos adventistas aos católicos, dos neopentecostais aos testemunhas de jeová, dos islamitas aos xamãs, dos budistas aos de Axé, e em todas elas senti algo substancialmente positivo, um princípio de altruísmo sem proselitismos ou maniqueísmos vazios, um princípio de empatia, de garantia da dignidade a todo ser vivente, razão pela qual chamo atenção para o perigo de que os crimes de determinados sacerdotes recaiam sobre sua religião, qualquer que seja ela. Nesta minha errância mística, testemunhei fatos impressionantes que, muitas vezes, fizeram fraquejar minha inclinação racionalista, esse hábito que tenho de pensar sobre tudo e de sempre fazer associações de conteúdo a partir de esquemas mentais. Respeito, também, a negação da religião, que deve exigir a mesma disposição para a crença que têm os religiosos e, de igual modo, respeito a descrença (se for possível tê-la, do que tenho cá minhas dúvidas) em qualquer dimensão para além da material. Meu psiquiatra diz que seu deus é a ciência e um aluno, outro dia, me revelou que era ateu. Eu quis saber a que ele recorria em momentos de maior necessidade, quando a realidade concreta parece não ser capaz de nos dar as respostas que procuramos e, prontamente, ele me respondeu que meditava. Para mim, tanto o psiquiatra quanto o aluno realizam, cada qual à sua maneira, uma profissão de fé, porquanto não deixam de projetar ou transcender em relação aos recursos pelos quais optaram. O fato é que, hoje, procuro exercitar a fé a partir da crença em uma divindade que me habita muito particular e intimamente, que me conforma em tudo porque só no meu sagrado mais guardado é que pode se manifestar. Ou seja, o poder dessa divindade pessoal e idiossincrática vem do fato de ela ter nascido do que fui, do que sou e do que serei. Energia suprema que nasce de mim e para mim, que me espelha na medida que eu a reflito e confronto: carbono primordial. Por hora, minha intuição diz que seremos tudo aquilo que desejarmos.

18
Dez18

A greve dos enfermeiros e os sindicatos

João Ferreira Dias

As greves constituem-se mecanismos legais (agora, e por agora) de garante da luta sindical por melhores condições laborais por parte de vários setores profissionais. É uma ferramenta político-social de largo impacto no quotidiano, em particular quando a greve advém de setores que interferem, diretamente, no fluxo diário da sociedade, como é o caso dos transportes públicos. A sua eficácia depende, precisamente, do poder de desestabilizar a ordem social. 

Ora, o problema das greves, ou melhor, dos sindicatos, é a forma como estes estão permeáveis à influência partidária. Nesse capítulo, o PCP é o partido cuja força eleitoral depende, sobremaneira, dos movimentos sindicais. Não é por acaso que a estrutura destes é controlada por militantes comunistas, os quais estabelecem um rácio de não-militantes que podem ocupar cargos diretivos dos sindicatos. Não sendo uma desonestidade, por razões históricas ligadas à emergência do PCP, a verdade é que se trata de um controlo sobre os sindicatos que lhes retira mobilidade ideológica. É por isso que as greves ocorrem em momentos estratégicos para a vida eleitoral, porque são o garante da existência sociológica do PCP, razão pela qual a aliança Sindicatos-PCP é tão forte e determinante na vida comum. 

A presente greve dos enfermeiros contém os mesmos contornos, tratando-se da primeira greve e primeiro movimento sindical umbiligado à direita, concretamente ao PSD. Ora, só esse facto diz muito do contexto desta greve, numa altura em que a maioria das reivindicações dos enfermeiros portugueses (que, reconheça-se, têm condições laborais muito precárias quando comparados com outros países europeus; todavia, o mesmo acontece com outras profissões) foram já suprimidas. Nesse sentido, encontramos um processo de aproveitamento estratégico e eleitoral do PSD, que ao estar em risco de desagregação encontra nos processos de sobrevivência do PCP uma possibilidade de galvanização de uma franja profissional e eleitoral.  A situação particular dos enfermeiros e a névoa dúbia que comporta é reforçada pelo financiamento. Pela primeira vez, uma greve é financiada em sistema de crowdfunding, tornando-se um processo anónimo que permite camuflar interesses políticos subjacentes. O cenário, portanto, não é transparente nem simpático. No meio da legitima luta seria ideal despartidarizar os sindicatos. Digo eu. 

17
Dez18

Ventura e o Chega

A woman in politics

André Ventura deu uma grande entrevista ao Sol. Fala da “infância pobre, da relação com Deus, dos ciganos, do aborto, da homossexualidade e do seu novo partido”.

Li a entrevista e tenho seguido as suas movimentações. A quem considera Ventura uma piada, até pode estar certo, mas penso que é melhor não ser tão precipitado.

Para além de ser uma figura “nova” na política nacional, convém não esquecer do espaço mediático que tem na CMTV, que até é o canal mais visto no cabo e que até é o canal que mais alcança o eleitorado potencial de Ventura.

Para além disso, saiu a sondagem da Aximage relativa ao mês de dezembro. Dos resultados, destaca-se que o PS e o PSD estão em queda na intenção de voto legislativo e que a opção de voto estaria a crescer nos extremos. Na mesma sondagem foi questionado aos inquiridos se estariam dispostos a mudar o sentido de voto para um novo partido que falasse contra imigrantes ilegais e contra a corrupção. A essa questão, cerca de 27% dos inquiridos responderam que sim, de certeza, ou talvez.

E que partido seria esse? Pois.

14
Dez18

A Linguagem Amiga dos Animais

João Ferreira Dias

Vivemos um tempo de extremismos e pequenas causas identitárias, resultantes de bolhas  construídas por nichos sociais onde a realidade é fragmentada e, por essa razão, as suas causas são hiperbolizadas. As causas humanitárias estruturais e fraturantes são secundarizadas, vista de dentro da bolha confortável e causídica. Prova disso é a forma como o legítimo combate pelos direitos dos animais deslizou para lutas de natureza patética, como a proposta da PETA, embandeirada pelo PAN, de alteração de expressões idiomáticas e outras formas de vocábulos populares, como "pegar o touro pelos cornos", que deveria passar a "pegar a rosa pelos espinhos". O problema desta proposta é que desvaloriza o sentido cultural e o peso das expressões. A metáfora de coragem e empenho que remete para o pegar de um touro pelos chifres é bem distinta da imagem de apanhar uma flor pelos espinhos. Em segundo lugar, o peso jurídico das palavras deve ser medido. Se uma tourada coloca em questão a integridade física dos animais em favor de um espetáculo, o uso de expressões na linguagem corrente não infere na vida animal. Qualquer humorista dirá que chamar vaca a uma vaca não o ofende, não como o faria no caso de uma mulher. Porque as palavras têm um peso e uma utilidade social. E não, não é pelo uso das expressões que se descarrila para a prática dos atos, porque eu não conheço ninguém que use a expressão "pegar o touro pelos cornos" que tenha, alguma vez, participado de uma tourada, ou que use, por exemplo, "matar dois coelhos de uma cajadada" que sequer tenha um cajado ou até visto um coelho ao vivo. 

14
Dez18

A verdade sobre o caso Canastrão Quebert

Francisco Chaveiro Reis

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Nunca seria fácil adaptar ao ecrã (pequeno, no caso), o brilhante “A verdade sobre o caso Harry Quebert” do suíço Joel Dicker. Trata-se da história de amor de um escritor de sucesso e de uma jovem de 15 anos que acaba desaparecida. O seu corpo é encontrado na propriedade do amante muitos anos depois e este é acusado de homicídio. É nesta altura que o seu protegido e também escritor de sucesso, Marcus Goldman, vai em seu auxílio, tentando provar a inocência de Harry Quebert.

Em série a ser exibida na AMC, Patrick Dempsey, eterno Senhor Anatomia de Grey, faz de Harry, sem grande sucesso. Se na juventude, exibe o seu habitual canastrismo e olhar perdido, na velhice, quando está preso, a nossa atenção vai apenas para a má caraterização. Dempsey não está à altura de Quebert, que transforma num galã de meia tijela que não faz jus à personagem complexa que se deixa tentar por uma Lolita de bom fundo. Essa Lolita, a norueguesa Kristine Froseth, parece ser das poucas a prestar homenagem a Dicker, apresentando-se com a luz própria e personalidade vivaça mas atormentada que se atribui a Nola.

Pior do que Quebert, só Ben Schnetzer como Marcus Goldman. Como se escreve e bem na NiT, a sua apresentação ao público é superficial, cheia de clichés e “a narração em voz off faz lembrar um telefilme de qualidade duvidosa dos anos 90”. Schnetzer consegue ser mais canastrão do que Dempsey e assim se estragam duas personagens centrais e uma série. Ainda assim, para quem não sabe o final, a série merece uma espreitadela porque, lá está, a história é boa mas não merecia estas interpretações ou esta cor-de-rosização da vila onde tem lugar. Nunca seria fácil.

 

12
Dez18

Um Natal no Iémen

Francisco Chaveiro Reis