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O Coletivo

17
Jul19

Sobre a agente 007

João Ferreira Dias

A história do agente secreto mais famoso foi criada por Ian Fleming em 1953, tendo-se tornado um ícone da literatura e do cinema. James Bond representa o ideal de classe e elegância masculina, com um certo toque de um ideal conservador e machista, no qual o papel da mulher é sempre auxiliar, perigoso e tentador, na linha da femme fatale da literatura francesa. Com efeito, a articulação da narrativa manteve-se sinónimo de sucesso, alimentando uma legião de fãs. Agora, as notícias dão conta da possibilidade de Lashana Lynch assumir o papel de próxima 007, existindo uma passagem de testemunho entre agentes. Ora, a reação geral em Portugal à notícia tem sido extremamente negativa, culpabilizando uma eventual política de discriminação positiva das mulheres e dos negros. Esta reação coloca a nu o nível generalizado do racismo, comprovando os dados do European Social Survey (ESS), de 2017, que colocava Portugal no primeiro lugar na categoria de racismo biológico e em quinto na de racismo cultural.

11
Jul19

A fala não é um exclusivo, nem deve ser

João Ferreira Dias

Existe um debate sobre a legitimidade da fala que me parece contraproducente e penoso. Em matéria de combate ao racismo, de luta pelos direitos das mulheres, pelos direitos LGBTI+, pelos direitos dos trabalhadores, pela liberdade religiosa, e tantas outras lutas, TODOS são necessários. Tratando-se de valores democráticos é essencialmente que todos possam fazer parte do processo de transformação social. O combate ao racismo diz, em primeiro lugar, respeito às vítimas, mas não se ganha nada em fazer da luta um exclusivo destas, sob pena de se transformar uma questão social num aspeto ideológico. Eu quero poder participar do combate ao racismo sem me sentir em "seara alheia".

09
Jul19

Amores e desamores de Jeremy Corbyn

Flávio Gonçalves

Aparentemente noticiam-se cada vez mais trabalhistas que odeiam Jeremy Corbyn e adoram Tony Blair. A meu ver não são de esquerda, lamento informá-los. Mas compreendo, no PS também temos uma multidão de gente de direita que julga ser de esquerda, e estes odiavam Costa antes deste ser eleito. Portanto, creio que também estes irão gostar de Corbyn se este também conseguir ser eleito. Os amores e os ódios na política são muito voláteis, eu também não irei gostar de Corbyn se este for eleito e governar à Blair... tal como não me agradaria Costa se este tivesse optado, suicidariamente, por um governo de bloco central com Passos Coelho.

09
Jul19

Outra vez os camionistas

Flávio Gonçalves

Pessoalmente gosto de sindicatos aguerridos, como na Europa, com piquetes de greve à porta a impedir os fura-greves de entrar, com fundos de greve que pagam o ordenado aos grevistas e que conseguem conquistas sociais. Creio é que na mornice portuguesa já não sabemos lidar com sindicatos e activismo a sério, tanto que a CGTP nos habituou às greves e manifestações "por calendário" e a UGT a conseguir acordos cordiais à mesa com o patronato.

08
Jul19

Ainda sobre o elefante na sala

Flávio Gonçalves

Ainda no espírito do que referi ontem, aconselho este magnífico vídeo do Jimmy Dore que realça precisamente o meu ponto de vista sobre como a dita diversidade e multiculturismo na realidade se limitam a camuflar a "luta de classes unilateral" (Chomsky dixit) do mundo em que vivemos. Eu resumo, o Vox elogiou a diversidade do painel de moderadores do debate dos candidatos à nomeação do Partido Democrata à presidência dos EUA, contudo o comediante Jimmy Dore (de esquerda) realçou um pormenor que lhes escapou ou ignoraram deliberadamente, sim senhor, estão representadas as minorias de ascendência sul-americana, afrodescendente e LGBT... "temos um milionário negro, uma milionária branca, um milionário hispânico, um milionário estúpido e uma milionária gay", ou seja, zero de diversidade social e esta sim é bem mais relevante que o pedigree hoje em dia. Como referi no Twitter: "contudo, continuam a achar que não é uma questão de classe, mas de racismo e combate ao mesmo..."

07
Jul19

O elefante na sala

Flávio Gonçalves

Admito não ter conseguido ler na totalidade o texto de Maria de Fátima Bonifácio. Mais devido ao ódio de classe que ao racismo (notório, mas mero apêndice da sua identidade e preconceito de classe). O problema em Portugal passa mais por o criado ganhar o ordenado mínimo e o patrãozinho vários milhares de euros do que com problemas de pele e costumes. Mas assim se distrai o povo do essencial, todos estes males advêm do capitalismo selvagem e do espírito esclavagista do patronato português, é esse o elefante na sala cuja existência ninguém quer assumir. PS - acho absurdas as quotas, são um gesto paternalista que a meu ver demonstram um preconceito não assumido (o tal fardo) por os coitadinhos dos negros e ciganos precisarem da mãozinha patriarcal branca heterossexual, mas muito solidária com as minorias, para os ajudar e guiar numa evolução para a respeitabilidade da cultura eurocentrista.

06
Jul19

Da liberdade...

Flávio Gonçalves

Uma rápida pesquisa demonstrará a minha antipatia por José Manuel Coelho (o mesmo provavelmente até me poderia processar por difamação), mesmo assim custa-me digerir que por difamação e desobediência se cumpram três anos e meio de pena efectiva. Soa mais a Estado Novo que a 25 de Abril, perdoem a ousadia os juízes nestas lusas terras. Temos todos cada vez mais que ponderar e autocensurar tudo o que afirmamos e escrevemos.

02
Jul19

Xenofobia jornalística?

Flávio Gonçalves

Sputnik e RT: financiados pelo governo da Rússia, conclusão: nada fiáveis. RTP: financiada pelo governo de Portugal, conclusão: plenamente fiável. Público: financiado em parte pelo governo dos EUA (via FLAD) e por um empresário, conclusão: plenamente fiável. Não há um certo preceito xenófobo na apreciação que alguns políticos e jornalistas fazem quanto às suas fontes jornalísticas? Nem o Pravda.ru escapa, e somos privados, não recebemos um cêntimo do governo russo mas "é russo", logo não é de fiar, logo é um preceito xenófobo... digo eu.

11
Jun19

Os ISBN cinco anos depois

Flávio Gonçalves

Esta era uma das medidas que sempre esperei ansiosamente que o Ministério da Cultura de um governo socialista revertesse, regressando os ISBN gratuitos como medida de apoio à cultura em vez de financiarmos directamente a APEL, tornando-nos sócios se aceites como tal, ou indirectamente, comprando os ISBN à APEL, pagando quantias a meu ver absurdas para pequenos editores. A APEL neste caso tem funcionado como uma agência nacional de ISBN, que noutros países avançados é - tal como o registo ISSN e o Depósito Legal - um serviço público garantido pelo Estado. Pode ser que na próxima legislatura os poucos editores independentes não sócios da APEL (se é que existe ainda algum) se organizem e alertem o governo para este pormenor.

11
Jun19

O discurso de João Miguel Tavares

João Ferreira Dias

O cinismo que JMT levanta no seu discurso, enquanto património de uma ideia de racionalidade, está bem patente nas críticas que lhe são dirigidas. Temos este terrível hábito de criticar como ato de afirmação de superioridade intelectual. É preciso perceber que JMT tinha esta oportunidade única de discursar num 10 de Junho, que era preciso ser crítico, que era preciso, também, ter algo de emocional e arrebatador. JMT não foi populista, no meu entender. JMT tentou ter o seu momento Braveheart de exaltação do cidadão anónimo enquanto exortava os políticos a serem melhores. Terá agradado a uns e desagradado a outros. É natural. Mas não creio que tenha proferido um discurso exclusivamente a partir de um lugar de conforto da classe média sem olhar aos demais.